A história da Wicca

Para entender a história da Wicca, a priori, é necessário olhar para a biografia de seu criador, o funcionário público aposentado Gerald Brusseau Gardner (1884-1964). Ele era um verdadeiro buscador e interessado pelo sobrenatural, tendo se aproximado do Druidismo, da Maçonaria, Espiritualismo, Budismo e estudado sobre práticas mágicas tribais, além de ter sido um notório investigador da arqueologia malásia (HUTTON, 1999). Todo o movimento ocultista do século XIX atraiu o interesse do britânico. Algumas correntes, entretanto, tiveram especial importância para a construção histórica da Wicca. Uma delas foi, sem dúvida, a Ordem Hermética da Aurora Dourada, ou Golden Dawn, fundada na Inglaterra durante a segunda metade do século XIX por William Robert Woodman, William Wynn Wescott e Samuel Lidell MacGregor Mathers. Esses três homens eram estudantes da cabala, gnosticismo, alquimia, neoplatonismo, astrologia, hermetismo e rosacrucionismo, tendo esses interesses contribuído para o corpus central da ordem. Outro movimento que influiu bastante na criação da Wicca foi o Druidismo moderno, já que Gardner pertenceu à Ancient Druid Order – é daí que surgiram as características célticas das quais a religião se apropriou. Gardner, juntamente com o druida Ross Nichols (notável membro fundador da Order of Bards, Ovates and Druids), seu amigo, foram responsáveis por estruturar o calendário que atualmente é chamado de Roda do Ano, tendo Gardner e seus amigos de coven acrescentado festivais de origem germânica e anglo-saxã como Yule, Litha e Ostara.

Outras influências notórias para a criação da Wicca foram as ideias dos ocultistas Eliphas Lévi e Aleister Crowley. O primeiro foi responsável por propagar definições e práticas da chamada ‘alta magia’, além de ter sido um assíduo estudante do tarot. Já Crowley é um conhecido e polêmico magista associado a diversos grupos e ordens, dentre as quais a Golden Dawn e a Ordo Templis Orientis. Além disso, ele foi um crítico social e seus pensamentos em muito se alinharam com os ideais do que viria a ser posteriormente a contracultura. Crowley fundou a Argentium Astrum em 1907 e criou o Thelema, sistema mágico cuja máxima era: “Faze o que tu queres, deverá ser o todo da Lei” (SANTOS, 2009). Tal sistema influenciou diretamente a construção do dogma central da religião wiccana, ou Wiccan Rede, elaborado por Doreen Valiente com base nos ensinamentos e escritos de Gardner; o dogma diz ‘sem a ninguém prejudicar, faça o que quiseres’, fazendo uma referência às visões morais acerca da prática mágica por parte da Wicca.

60911_winter_ritual_1_1000_122_464lo_122_464lo

O ocultismo forneceu, assim, um importante embasamento na criação da Wicca. Gardner leu, além de grimórios cristãos medievais, livros como De occulta philosophia de Agrippa (1533). Sabe-se que ele esteve envolvido não apenas com leituras, mas de forma prática, tendo frequentado reuniões, integrado grupos e mantido amizade com muitos sujeitos importantes no cenário dos grupos de esoterismo ocidental dos fins do século XIX e início do XX. Mas o britânico também era um ávido leitor da antropologia comparada, e chegou a escrever alguns textos de antropologia amadora. O interesse era, sobretudo, em práticas de povos tribais.

Entretanto, nenhuma outra influência causaria tanto impacto na formação da moderna bruxaria pagã como as obras literárias Aradia, o Evangelho das Bruxas, publicada em 1899 pelo folclorista e jornalista Charles Leland, e O Culto das Bruxas na Europa Ocidental, publicada em 1921 pela egiptóloga Margaret Murray. Ambas teorizavam a respeito de um culto de bruxas centrado na fertilidade da terra cujas origens remeteriam ao período neolítico e que teria sobrevivido através dos tempos. Ao passo em que Leland denomina esse culto como ‘a velha religião’, Murray aponta as figuras de um deus de chifres e sua consorte como as divindades honradas nele. Ambos foram claramente influenciados pela obra antropológica O Ramo de Ouro, de sir James Frazer, publicada em 1890, que refletia sobre os cultos de fertilidade europeus.

Leland e Murray não encontraram suporte na academia, e suas teorias foram rapidamente tidas como historicamente equivocadas. Murray, em especial, foi acusada de falsificar supostas provas para sustentar sua tese a respeito da existência de um culto pagão ‘matrifocal’ com origens na pré-história. Apesar disso, tais ideias atraíram a atenção dos ocultistas da época – para eles, a teoria do culto de bruxas foi um verdadeiro achado.

A religião criada por Gerald Gardner está claramente alinhada às ideias de Leland e Murray, ele mesmo denominando a Wicca de velha ou antiga religião. Elementos da obra literária de Leland foram apropriados, tais quais as instruções da deusa Diana aos seguidores da bruxaria, encontradas também no texto chamado “Carga da Deusa”, cuja autoria é creditada à Doreen Valiente, sacerdotisa do coven de Gardner. Além disso, Gardner busca “a legitimação de continuidade da Wicca dentro da teoria de Murray” (TERZETTI FILHO, 2012, p.66), principalmente no que diz respeito à relação de continuidade com uma suposta religião pré-cristã.

6f9a75f3fe550b4c51ecfa6af519cb8e
Gerald Brusseau Gardner, o criador da Wicca

Todas essas fontes convergiram para a sistematização de uma religião singular, cujas principais bases podem ser encontradas em “A Bruxaria Hoje”, publicado em 1954. No livro, Gardner pretende demonstrar-se um antropólogo desinteressado que teve a sorte de testemunhar a sobrevivência de um sistema religioso pagão secreto e iniciático, narrando as práticas de um suposto grupo de bruxas a partir de um ponto de vista outsider (HUTTON, 1999). O historiador Ronald Hutton descreve resumidamente as crenças da nova religião encontradas no livro de Gardner da seguinte forma:

Os ritos dessa religião, agora revelados, consistem principalmente em danças destinadas a promover a fertilidade, e de banquetes com comida e bebida consagrada. Os adeptos estavam nus, na crença de que assim o poder mágico do corpo é mais facilmente liberado. Eles veneravam uma deusa e um deus, cujos nomes eram secretos […]. Eles trabalhavam dentro de um círculo, criado com uma espada ou uma faca consagrada e cuidadosamente purificada, para conter a energia que fosse levantada. Eles mantiveram o norte como o mais sagrado dos quatro pontos cardeais[1], acreditavam na reencarnação, e treinavam-se para desenvolver poderes psíquicos latentes. A religião era organizada em covens, liderados por uma alta sacerdotisa apoiada por um alto sacerdote,[2] que se subdividiam em casais para fins de treinamento. A formação, como a iniciação, se dava sempre entre os sexos. Como parte dessa polaridade eles reverenciavam a força da vida dentro do mundo e consideravam atos de amor e prazer mundanos como sagrados. Eles tinham oito ferramentas rituais, e festivais sazonais se davam nos quatro dias trimestrais que abriam as estações do ano. Transe e êxtase eram componentes importantes dentro de seus ritos, e que visam não apenas um meio de acessar suas divindades, mas de se sentirem como se eles tivessem se tornado elas (HUTTON, 1999, p.206 – tradução livre).

A partir de então, a religião se tornou uma espécie de culto duoteísta, cujas divindades refletiam a polaridade feminino-masculino, sendo a deusa associada principalmente à lua e à terra e o deus associado ao sol e à caça. Diferentes panteões de divindades encontrados em mitologias de diversas civilizações pré-cristãs foram incorporados à religião como maneiras de se conectar com a deusa e o deus. De outro modo, muitos wiccanos acreditam que todas as deusas e deuses existentes em culturas diversas são faces de uma única deusa e um único deus, uma ideia bastante próxima do conceito oriental de ‘avatar’.

A nova religião, assim como as outras religiões neopagãs, era desprovida de um poder centralizador. Desse modo, outras pessoas demonstraram-se interessadas pelas teorias de Murray e Leland, bem como as do próprio Gardner, e fizeram suas próprias interpretações. Os escritos de Gardner, bem como os de seus sucessores, contribuíram assim para tornar a Wicca Gardneriana uma vertente da Wicca que então se desenvolvia (CLIFTON, 2006). Outra interpretação acerca da moderna bruxaria pagã é atribuída à Robert Cocrhrane (1931-1966), que apesar de sua rápida passagem pela história da Wicca, deixou sua marca.[3] Em The Rebirth of Witchcraft (1989), Doreen Valiente (que havia rompido com Gardner e integrado o coven de Cochrane um ano antes da morte deste último) o descreve como “talvez a personalidade mais poderosa e talentosa que apareceu na bruxaria moderna”, além de estabelecer distinções entre as bruxarias gardneriana e cochraniana, afirmando que a sua versão da ‘antiga religião’ era mais “xamânica” do que formal[4] (VALIENTE apud CLIFTON, 2006).

c9fb2f1a362911131e07b0e2232ffeec

Durante a década de 1970 a religião encontrou especial aceitação no contexto da contracultura, principalmente porque ela relacionava-se diretamente com as ideias feministas e ecológicas, além de ser subversiva em relação às religiões tradicionais. Nesse momento, a Wicca passou a ser buscada por muitos jovens que transformavam a lógica da veneração da natureza em uma luta pela preservação da natureza. Um fator que acentuou bastante esse quadro foi a ‘chegada’ da Wicca aos Estados Unidos, onde a religião parece ter vivido uma espécie de segundo momento de sua criação.

Segundo Chas Clifton (2006), o primeiro coven gardneriano a ser formado nos EUA surgiu em 1963 e era liderado por Raymond e Rosemary Buckland, um casal que havia procurado Gardner na Ilha de Man pedindo por iniciação. Os livros de Gardner haviam chegado ao país e despertado o interesse de muitos sujeitos, e então surgiu o periódico The Waxing Moon: A Witchcraft Newsletter, com a função de ajudar as pessoas a se encontrarem já que, àquela altura, havia apenas o grupo secreto de iniciados pelos Buckland. Verifica-se, a partir de então, o surgimento de grupos independentes cujas práticas eram baseadas em leituras disponíveis sobre o tema.[5] Cerca de nove anos após o seu início, o coven dos Buckland chegou ao fim juntamente com o casamento deles, e posteriormente Raymond Buckland criou sua própria vertente wiccana, a Seax-Wicca, ou bruxaria saxônica, dissociando-se da Wicca Gardneriana. Além de defender a auto-iniciação, ideia bastante repreendida pela comunidade gardneriana, o novo grupo tinha outras diferenciações em relação aos antigos paradigmas da religião, entre as quais: “eleição democrática de líderes dos covens, a ausência da flagelação ritual, nenhum sistema de graus iniciáticos e a escolha entre comparecer aos círculos ritualísticos nu ou vestido” (CLIFTON, 2006, p.26).[6]

Tais ideias, que propunham claramente um afastamento em relação às formalidades dos grupos gardnerianos, foram facilmente aceitas pelos norte-americanos buscadores da Wicca, por tornarem a religião muito mais acessível. Outra modificação nos paradigmas da religião com a sua chegada aos EUA foi a influência recebida pela chamada “segunda onda” do movimento feminista (FERARO, 2013). A partir de então, as ideias de um feminismo radical foram responsáveis por tornar a figura da deusa muito mais central no culto da religião, e a teoria da existência de um matriarcado utópico, professada por Margaret Murray, amplamente difundida pelas novas feministas espirituais. Novos grupos wiccanos foram criados a partir da definição de Murray sobre a bruxaria como um “culto diânico”, resultando, em maior escala, no surgimento da vertente Wicca Diânica ou “dianismo”. As responsáveis pela criação desses grupos militavam em nome do feminismo ao redor do país, sobretudo Starhawk, integrante da Reclaiming e autora de diversos livros sobre a espiritualidade centrada na deusa. Outros nomes notáveis do dianismo foram Zsuzsanna Budapest e Morgan McFarland.

Com a chegada da Wicca aos Estados Unidos eliminou-se o caráter fortemente oculto e a natureza secreta das práticas, a partir da divulgação da religião em inúmeras publicações de livros em formato de manual ensinando a praticar a religião. Outro fator que contribuiu para essa divulgação foi a ocorrência de festivais pagãos, a partir de fins da década de 1970. Sarah Pike (2001), responsável por mapear diversos desses festivais nos EUA, observou que tratam-se de eventos com característica de acampamento realizados em áreas verdes com cerca de 50 a 100 participantes.

As alterações sofridas pela Wicca em solo norte-americano foram fundamentais para o desenvolvimento da religião e pela criação da sua identidade como a conhecemos hoje. De maneira geral, é possível afirmar que os wiccanos têm procurado afastar-se cada vez mais da presença exacerbada de elementos do ocultismo e do esoterismo ocidental na religião, apesar da impossibilidade de isso acontecer de maneira plena. Elementos próprios do ocultismo como a utilização de instrumentos rituais, a noção de “círculo mágico” e o próprio pentagrama, reconhecidamente um símbolo da Wicca, estão intrinsecamente ligados às dimensões teóricas e práticas da religião. Todavia, a partir de sua reinvenção nos Estados Unidos, tem sido buscada uma identidade mais centrada na terra, na natureza viva, e em dimensões políticas – sobretudo no que diz respeito à ecologia, ao feminismo e à liberdade religiosa. A referida tradição wiccana norte-americana Reclaiming é um exemplo direto disso, pois, de acordo com seu site,[7] seus valores consistem na compreensão de que a Terra é um organismo vivo e toda a vida, seja humana, animal ou vegetal é sagrada e interligada, além de personificada pela figura da deusa: “nós vemos a Deusa como imanente nos ciclos da terra de nascimento, crescimento, morte, decadência e regeneração; nossa prática surge de um profundo compromisso espiritual com a terra, a cura e com vinculação da magia à ação política”.

4d695b99ad05670ab2bc72f567005efe

[1] Característica presente nas práticas da Maçonaria, segundo o autor.

[2] “Alto” no jargão wiccano faz referência a alguém que é plenamente iniciado nos mistérios da religião, ou ainda alguém que lidera um coven ou um ritual, segundo Clifton (2006). Em teoria, todos os iniciados são sacerdotes e sacerdotisas da Wicca, de forma que o termo “alto” evidencia uma pequena relação hierárquica.

[3] Aqui há uma referência clara à formalidade da versão mais centrada na magia cerimonial, praticada na vertente gardneriana da Wicca.

[4] Robert Cochrane não é apenas creditado pelo seu auxílio no desenvolvimento inicial da Wicca, mas também é reverenciado como uma figura importante para a Bruxaria Tradicional. De outro modo, pode ser dito que o seu trabalho influenciou bastante o resgate a um suposto culto antigo de fertilidade associado com práticas mágicas.

[5] Ainda segundo este autor, a nudez ritual era justificada pela vertente gardneriana da religião, entre outras coisas, como sendo responsável por eliminar as diferenças sociais, uma ideia também defendida pelos naturistas britânicos seculares com os quais Gardner havia se relacionado. Alguns estudos sugerem, porém, a obsessão de Gardner em ficar nu e o seu interesse em observar a nudez das participantes do sexo feminino nos rituais (KELLY, 1991).

[6] É identificado, nesse contexto, o surgimento de alguns grupos não denominados como wiccanos, mas com clara influência da bruxaria moderna nos Estados Unidos. Esse é o caso da Feraferia, Church of All Worlds, Ordo Templi Astartes e Psychedelic Venus Church. Tais grupos, de maneira geral, têm sido encaixado por alguns estudiosos dentro do guarda-chuva do Paganismo Contemporâneo.

[7] <http://www.reclaiming.org/about/directions/unity.html>. Acesso em 17/05/2016.

Referências

CLIFTON, Chas. Her Hidden Children: The Rise of Wicca and Paganism in America. USA: AltaMira Press, 2006.

FERARO, Shai. “God Giving Birth” – Connecting british Wicca with radical feminism and Goddess Spirituality during the 1970s-1980s: a case study of Monica Sjöö. The Pomegranate: The International Journal of Pagan Studies, v. 15, n.1-2, p.31-60, 2013.

GARDNER, Gerald. A Bruxaria Hoje. São Paulo: Madras, 2003.

HUTTON, Ronald. The Triumph of the Moon: a history of modern pagan witchcraft. Oxford: Oxford Univeristy Press, 1999.

PIKE, Sarah. Magical Selves, Earthly Bodies: contemporary pagans and the search for community. Berkeley: University of California Press, 2001.

SANTOS, Vitor. Aleister Crowley e a contracultura. Revista Nures, n.12, p.1-7, 2009.

TERZETTI FILHO, Celso Luiz. Um Bruxo e Seu Tempo: as obras de Gerald Gardner como expressões contraculturais. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). PUCSP, São Paulo, 2012.

Texto escrito por Dannyel de Castro

 Copyright © 2016 Todos os Direitos Reservados

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s