Celebrando Imbolc com o Clann an Samaúma

Uma das quatro principais celebrações do calendário anual céltico é Imbolc (as demais são Beltane, Lughnasadh e Samhain). Esse calendário acompanha a sazonalidade e agricultura, observando os ciclos da natureza ao longo do ano. Imbolc é o festival que marca o início ou prenúncio da primavera, quando em terras célticas as ovelhas iniciam a sua lactação, anunciando que em breve o leite das vacas também estaria disponível após um longo inverno sem esse alimento. Esse período marcava o início da atividade agricultora. Na Escócia, a fase das chuvas havia cessado e agora então os pescadores e navegantes poderiam ir mar adentro (mas sempre observando a direção do vento, já que ainda era inverno e consequentemente o perigo poderia ser iminente). O sol, renascido no solstício, começa a ganhar força e com ele chega a Brighid, deusa tão reverenciada nas diversas culturas célticas; na Escócia ela é Bríde, na Ilha de Man é Breeshey, na Irlanda é Brighid, em regiões da Gália é Brigindu, na Bretanha e Ibéria céltica é Brigantia. A importância de Brighid para o seu povo foi tão grande que nem mesmo o cristianismo conseguiu dizimar seu culto, transformando-a, então, em santa católica: Santa Brígida ou Saint Brigid of Kildare, uma mulher que ajudou Maria no parto de seu filho, Jesus.

Brighid é uma deusa do fogo em seu aspecto triplo, isto é, fogo que cura (ou transforma, renova), fogo que forja e fogo que inspira. Por consequência, é considerada matrona dos curandeiros, ferreiros, poetas, bardos, artesãos, entre outros. Mas a deusa também é associada às fontes e olhos d’água. Essa ligação da deusa com os dois elementos sagrados e primordiais segundo as culturas célticas, água e fogo, evidencia a complexidade de Brighid. Os mitos e contos destacam seu aspecto de protetora ou mãe. Seu nome, etimologicamente falando, significaria algo como “uma seta flamejante”.

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Representação de Brighid e do período de Imbolc (autoria desconhecida).

Segundo alguns estudiosos, a etimologia do termo Imbolc estaria ligada ao gaélico ‘im-fholc‘, que significa algo como “eu me lavo”, fazendo referência à limpeza ou purificação por meio da água (banho), para dispersar as forças invernais. É o festival que dá início à estação da luz, com a chegada de Brighid, mas cabe lembrar que o inverno ainda persiste e esse pode ser um tempo perigoso, de desafios e calamidades, já que as forças invernais persistem. Sombra e Luz brigam e dançam. A velha Cailleach (rainha do inverno) vê com pesar o seu reinado findando, ao ter que entregar o trono para a bela e jovial Brighid. Tradicionalmente, o Dia de Brighid ou Là Fhèill Brìghde era celebrado no dia 1 de fevereiro, mas desde a véspera (31 de janeiro) os povos célticos já iniciavam os festejos e costumes ritualísticos. Na tradição cristã, o festival de Imbolc foi sincretizado com a Candelária, que ocorre no dia 2 de fevereiro.

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No último domingo, dia 29/01/2017, o Clann an Samaúma, grupo druídico do qual sou membro-semente, realizou o seu Festival de Imbolc, na Clareira da Samaúma em Belém/PA. A celebração teve início com a confecção da roda ou cruz de Brighid (cros bríde), símbolo de proteção que tradicionalmente era feita com madeira, palha ou junco, mas atualmente pode ser confeccionada por meio de ramos de trigo e algumas plantas específicas. A cros bríde pode ter quatro ou três pontas, nesse último caso simbolizando o aspecto tríplice do fogo de Brighid e também os três reinos celtas (Mar ao redor, Terra embaixo, Céu acima). Cada participante da celebração confeccionou a sua própria, e logo em seguida nós as consagramos à Brighid juntos.

Após as bênçãos das cros bríde, prestamos honra a Brighid, por meio de um cântico sagrado inspirado por bardos da Ordem Druídica Ramo de Carvalho, que transcrevo a seguir.

Dança do Fogo de Bríghid (por Wallace Cunobelinos, Klaus Alecsander Kaiser e Kleber Mac Tíre)

Filhos do Fogo
Aqui estamos
Perto da chama
Juntos celebramos

Aheya, heya

O Fogo em mim
Fogo que arde
O Fogo em ti
Fogo de Bríghid

Aheya, aheya

Fogo que queima
Fogo que cura
Fogo que afasta
O mal que perdura

Aheya, aheya

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Em seguida foi o momento propício para fazermos algumas danças circulares sagradas em honra à primavera que se aproxima, ao Sol e à própria Brighid. Logo após, fizemos um outro costume tradicional associado ao Imbolc em terras célticas, o crios bríde ou cinto de Brighid. Tradicionalmente feito com cordas de palha, o cinto de Brighid era utilizado nas procissões de Imbolc, sendo utilizado pelas pessoas para receberem as bênçãos da deusa. O procedimento era feito com o cinto sendo posto acima da cabeça das pessoas, que deixavam-no cair, de forma que passasse por todo o corpo. No rito do Clann an Samaúma, recriamos esse antigo costume e fizemos o procedimento, deixando que o cinto de Brighid nos envolvesse por completo. Ao passo em que o cinto ia descendo pelo nosso corpo, sentíamos como se estivéssemos renascendo, nos purificando de velhos hábitos que não nos servem mais e também nos purificando das forças invernais. O renascimento simbólico foi como uma própria bênção da Brighid, em seu aspecto de curadora, para nós. Acredito que tenha sido um momento bastante subjetivo para cada pessoa que estava ali, mas falando por mim, me senti como a própria Terra despertando novamente, acordando para um novo ciclo – as forças do Imbolc se misturavam aos meus próprios sentimentos e à vontade de purificação. Esse é o poder do toque da Brighid, que vem reluzente como o Sol trazer cura a tudo e a todos.

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Rito do crios bríde ou cinto de Brighid.
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Rito do crios bríde ou cinto de Brighid.
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Rito do crios bríde ou cinto de Brighid.

Após esse belo rito, seguimos para o encerramento do Festival de Imbolc. Agradecemos à Brighid por todas as bênçãos derramadas ali, sobre nós, na clareira de nossa ancestral Samaúma. Segui em frente, reabastecido para dar prosseguimento ao novo ciclo já iniciado, com a certeza de que o fogo que nos une e une nós aos nossos clãs, o fogo de Brighid, é uma força vital, a força que anima nossas vidas.

Fontes consultadas (recomendo a leitura):

“O início da primavera e os ritos de Brigid”, de Angus McOisín

“Celebrando o Là Fhèill Brìghde”, de Annie Loughlin

“Oímealg, Imbolc”, de Marcílio Diniz (infelizmente o texto não está disponível online)

© Dannyel de Castro

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