Meu caminho no Paganismo

Já faz algum tempo que tenho pensado em escrever esse texto, mas por conta da correria do final do mestrado acabei deixando para depois. Bom, acho que no fim das contas tudo tem seu tempo, tudo acontece quando tem que acontecer; e seguindo essa lógica, aqui estou para falar um pouco sobre a minha jornada dentro do Paganismo até aqui. Muitos pagãos têm histórias de como eram envolvidos com a natureza desde crianças e de alguns acontecimentos místicos que possam ter se desencadeado em função disso. Outros ainda possuíam, desde então, sensibilidade para perceber certas coisas ou ter contato com seres de outros mundos… Enfim. Adoraria ter uma história dessas para contar, mas não tenho. Cresci sendo meio cético, sem ligar para o tema “religião”. Acho que o principal motivo disso é que a única experiência religiosa que eu havia tido foi a da obrigação de ir à missa aos domingos. Por isso eu desenvolvi certa antipatia pela religião cristã, e como eu carecia de informações a respeito, acreditava que religião e cristianismo eram temas intrínsecos. As coisas mudaram completamente de rumo quando eu entrei na adolescência. Nesse período, passei a ter contato com bandas de metal, especialmente dos gêneros sinfônico, épico e folclórico, mas também de metal extremo (black metal, death metal). As letras dessas bandas me apresentaram um universo de conhecimentos, entre filosofia, ocultismo e paganismo, e desde então eu passei a me interessar por esses elementos. Ainda na adolescência, estive envolvido com grupos de estudo de ocultismo. Pouco tempo depois, por volta dos meus 17 anos, o interesse específico pelas mitologias céltica e nórdica me levou a buscar por uma religião que englobasse esses aspectos, e em minhas pesquisas encontrei a Wicca. Foi então que me vi em um universo de conhecimentos e informações sobre divindades, natureza, seres espirituais, magia, entre outras coisas. Isso tudo me deixou muito fascinado, e logo comecei a praticar e vivenciar essa religião. Nesse período eu entrei em contato com diferentes grupos pagãos da minha cidade: me aproximei de alguns grupos wiccanos, que realizavam atividades públicas tanto em praças e parques como em sítios privados na região metropolitana; tive contato com um grupo de Druidismo que, àquela época, começava a se formar na cidade e também conheci outros praticantes de bruxaria, que preferiam denominar sua prática de Bruxaria Tradicional, bem como pessoas envolvidas com a Magia Cerimonial e alguns odinistas. Foi um período no qual me vi bastante entusiasmado com a ideia de que pessoas realmente praticavam o Paganismo, de que era possível cultuar os antigos deuses mesmo em nosso tempo e em nosso contexto brasileiro.

O meu conhecimento sobre esses outros segmentos pagãos, naquela época, era bastante incipiente, e eu já estava envolvido com a Wicca, de modo que permanecer ali me parecia o correto a fazer. Foi quando eu cheguei em um determinado ponto em que passei a não sentir tanta afinidade com a religião, e simplesmente me afastei. Resolvi focar em outras coisas que, na época e no calor do momento, pareciam ser mais interessantes que a espiritualidade – como viver plenamente a vida universitária, por exemplo. Mais tarde, tive algumas experiências com certas plantas de poder, medicinas da Amazônia que me fizeram ter inúmeras percepções sobre diversos aspectos da minha vida. Aí eu entendi que precisava mesmo desenvolver minha espiritualidade. Decidi voltar, então, pelo caminho com o qual eu mais tinha sido simpático anteriormente – a Wicca; “vai que dessa vez eu realmente sigo em frente dentro dessa religião, né?”, pensei. Não segui, mas eu interrompi esse ciclo de vai-e-vem e, ao que tudo indica, parece que realmente encontrei o meu verdadeiro lugar. Analisando essa situação hoje, entendo que precisava retomar a minha caminhada de onde eu havia parado para que eu compreendesse o que de fato fazia com que eu não “coubesse” na Wicca, e que eu não precisava ficar me esforçando para caber porque aquele simplesmente não era o meu caminho… Ainda assim, passar pela religião wiccana foi de grande importância para mim, pois eu aprendi coisas incríveis e conheci pessoas incríveis, que me transmitiram saberes de vida, os quais eu sempre vou levar comigo.

Foi em um período da minha vida de extrema subjetividade, no qual eu estava tomado por sentimentos, sensações e percepções desse e do outro mundo, que eu comecei a escutar um chamado que vinha de dentro, tão profundo quanto distante; desconhecido, longínquo, algo perdido dentro de mim, algo esquecido há tanto tempo por mim e pelos meus. Era o chamado dos meus ancestrais, me convocando para, depois de tanto vagar sem rumo por aí, finalmente despertar. Depois de deixar a Wicca, comecei a ler bastante sobre Druidismo e Reconstrucionismo Céltico, e em minhas meditações as coisas foram ficando cada vez mais claras para mim: esse é o meu caminho. De forma meio que acidental, entrei em contato com informações sobre a religião dos celtas que habitaram a Península Ibérica (galaicos, lusitanos, celtiberos) e foi exatamente aí que me senti caminhando de volta para casa. Isso aconteceu por volta de um ano atrás, e desde então tenho procurado me especializar no tema através da literatura disponível; que é, em grande parte, acadêmica. Não me sentiria muito a vontade praticando uma religião que exalte o academicismo acima de tudo, sem privilegiar aspectos ligados ao conhecimento intuitivo, as percepções e inspirações pessoais, e por isso senti que eu poderia perfeitamente desenvolver uma espiritualidade focada nos celtas ibéricos dentro do Druidismo – pois entendo que a tradição druídica é pan-céltica. Pouco tempo depois, entrei no grupo semente (grupo de estudos iniciais do Druidismo) do Clann an Samaúma, um clã druídico amazônico, e desde então tem sido uma bela jornada de descobertas, redescobertas e aprendizados junto a irmãos de caminho e de alma. No Druidismo, e especificamente com o Clann, aprendi a honrar e reverenciar não apenas os meus ancestrais de alma (os celtas ibéricos), mas também os meus ancestrais dessa terra amazônica, seus saberes, sua força, suas medicinas, assim como também os meus ancestrais de sangue, minha família, meu clã, meu castro, minha linhagem sagrada que me conecta aos deuses de meus ancestrais. Estou aprendendo a desenvolver minhas habilidades com base em minha essência, a descobrir meu propósito nesse mundo e como isso pode ser válido para a minha comunidade. Estou conhecendo os deuses em suas identidades e especifidades. Estou reconhecendo meus ancestrais em mim mesmo. Sinto que sou apenas um menino iniciando a sua jornada, trazendo consigo alguns sonhos em forma de sementes e a sabedoria, força e soberania ainda em forma de pônei, para que as cultive e desenvolva ao longo de sua caminhada.

“Viajar tranquilamente, com poucos desejos e abertura para aquilo que a jornada pode trazer”.

© Dannyel de Castro

17198768_1176697452439809_1283415493_n

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s