Religião e divindades da Península Ibérica

Quando se fala em povos celtas, geralmente somos remetidos ao rico imaginário que existe em torno das tribos pré-cristãs das ilhas britânicas. Porém, os celtas habitaram um vasto território geográfico, e em cada um desses locais haviam hábitos culturais e práticas religiosas específicas. Uma dessas localidades foi a Península Ibérica. Entre as antigas tribos célticas ibéricas estão os galaicos e os lusitanos; os galaicos habitaram todo o território da chamada Gallaecia, que abrange a Galiza, localizada no noroeste da Espanha, e parte do norte de Portugal, ao passo em que a área atribuída aos lusitanos corresponde a localidades do centro-sul de Portugal. Infelizmente, pouquíssimos registros sobre a religião desses povos chegaram até nós, o que torna a caminhada espiritual de qualquer um que escute o chamado de seus ancestrais ibéricos cheia de desafios; contudo, desafios não impedem ninguém de caminhar, muito pelo contrário, tornam o caminhante fortalecido. Temos, no entanto, algumas pistas a respeito da religião céltica ibérica, menos enigmáticas (ou não) do que o relato do historiador clássico Estrabão, responsável por afirmar que os galaicos celebravam um deus sem nome durante a lua cheia, com festas e fogueiras em frente às suas casas.

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Triskle galaico.

Uma dessas pistas está no Lebor Gabála, ou Livro das Invasões da Irlanda, que traça a história mitológica deste país e o ciclo de invasões e conquistas por ele sofrido. Esse livro é um manuscrito cristão medieval, mas que segundo alguns investigadores está relacionado à antigas crenças célticas (vale lembrar que o cristianismo irlandês é bastante peculiar, cheio de elementos pagãos camuflados pelo sincretismo). Segundo relatado no livro, a última das invasões ao território da Irlanda foi efetuada pelos Milesianos, filhos do Míl Espáine (ou “soldado da Hispania”), um povo que veio do reino de Brigantia, território onde hoje está localizada A Corunha, no extremo norte da Galiza. Ith, filho do guerreiro mítico galaico Breogan (rei de Brigantia), avistou a ilha da Irlanda do alto de uma torre e embarcou para lá na tentativa de conquista-la, sendo morto por nobres nativos da ilha. Os Milesianos partiram logo em seguida rumo a Irlanda, para vingar a morte de Ith, o que acontece graças a ajuda do bardo galaico Amergin; desse modo, os Milesianos vencem os Tuatha Dé Danann e conquistam a Irlanda. O mais interessante é que essa narrativa mítica parece casar com o fato de que os atuais irlandeses descendem de povos oriundos da Galiza, segundo comprovado pelo estudo genético de Bryan Sykes (2006), registrado no livro “The blood of the Isles”. Toda essa relação entre galaicos e gaélicos irlandeses possivelmente é algo que fez com que houvesse “casamentos” e assimilações entre divindades de um povo e de outro. A enigmática deusa gaélica Cailleach, por exemplo, considerada mãe ancestral dos povos e divindade que rege o inverno e a escuridão, está possivelmente associada à galaica Cale, que possui os mesmos atributos; Cale pode ter sido uma deusa epônima, isto é, que deu nome ao povo galaico, ou callaeco (um dos nomes romanos atribuído ao território que abrange a Galiza e parte do norte de Portugal foi Callaecia, e uma das povoações romanas na região possuía o nome de Cale).

Saindo do plano das suposições (mas não tanto), recentes achados arqueológicos e epigráficos nos fornecem alguns dados sobre o panteão de divindades dos celtas ibéricos. A epigrafia torna-se especialmente importante nesse caso, uma vez que há registros de teônimos e epítetos de divindades galaicas e lusitanas em antigas inscrições lapidares de monumentos antigos como aras votivas, altares e santuários rupestres diversos. Segundo esses registros, três divindades podem ser apontadas como centrais na religião galaica, pois seu culto se estendeu de norte a sul do território atribuído aos galaicos. Estas divindades são: Reue, Nabia e Bandua. Segundo o estudioso Jorge de Alarcão (2009), em pesquisa publicada pelo Instituto de Arqueologia de Coimbra, essas três divindades também foram cultuadas pelos lusitanos, sendo as únicas registradas como presentes na religiosidade de ambos os grupos, galaicos e lusitanos; sendo assim, são divindades supra-regionais.

Reue (Reve, Reus) foi identificado na interpratio romana com Jupiter e é um deus celeste, que rege o tempo cíclico, a mudança de estações e a fertilização de origem celeste, tanto solar como provinda das águas das chuvas, além de estar ligado também aos raios e trovões. Seus atributos, segundo alguns estudiosos e praticantes, podem ser equiparados aos do Dagda irlandês, do Sucellus gaulês, do Thor germânico e do Perkūnas báltico. Reue também está associado ao alto das montanhas, o que é atestado pelo seu epíteto Larouco, associado à Serra de Larouco, localizada em Trás-os-Montes, Portugal.

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Representação do deus finladês Ukko, o qual entendo que se aproxima do celta-ibérico Reue (nesse caso, em especial, pela imagem evocativa).
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Representação de um epíteto de Reue, denominado Larouco, encontrado na Serra de Larouco, localizada na região de Trás-os-Montes, em Portugal.
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A Serra de Larouco.

Nabia é considerada uma grande deusa dos celtas ibéricos, por ter uma natureza triforme que abrange todas as características da hipótese trifuncional estabelecida por Georges Dumézil. Em uma das faces de Nabia, ela aparece como ninfa, protetora dos bosques, riachos e da vida silvestre; nesse aspecto, pela interpretatio romana, ela é identificada com a deusa Diana. O epíteto Corona revela uma outra face de Nabia, ligada aos exércitos e à proteção da tribo, ou castro; Nabia Corona é essencialmente guerreira. Além disso, Nabia é também uma grande mãe, uma deusa soberana e elevada, identificada, assim como Reue, ao alto das montanhas. Algumas pessoas chegam a cogitar que Reue e Nabia são um casal divino com forte influência na cosmogonia da religião dos celtas ibéricos. Em todos os aspectos de Nabia, predomina a estreita relação com a água, sendo que alguns rios localizados ao longo da Galiza são identificados como regidos por ela (rios Navia, Neiva e Nabão). Essa ligação permite que haja também uma interpretação de Nabia como sendo uma divindade que possibilita o acesso ao Outro Mundo, no caso, pelas vias aquáticas. Nabia estaria, dessa forma, associada aos três reinos celtas, Céu, Terra e Mar.

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Representação moderna da deusa Nabia, encontrada na internet.
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Rio Navia, um dos que foram associados a essa deusa.

Já o deus Bandua (ou Bandus) desempenha o papel de protetor ou guardião da comunidade, do lar e da família, sendo também associado à guerra e ao Marte pela interpretatio romana. É dito que através dos laços de Bandua promessas e contratos são selados e a união entre clãs e pessoas é estabelecida. Dessa forma, é também associado à justiça. Alguns praticantes interpretam os três deuses como unidos pelo parentesco, sendo Bandua irmão de Reue, que por sua vez é consorte de Nabia.

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Representação moderna do deus Bandua, arte de Marcílio Diniz do grupo Brigaecoi – Castro da Paraíba.

Existem ainda diversos deuses e deusas identificados como pertencentes ao panteão céltico da Ibéria, entre os quais estão algumas divindades pan-célticas (isto é, que também foram reverenciados em outras localidades célticas). Nesse caso, os principais exemplos são Lugus e Brigantia. Lugus é também um deus guerreiro, mas que possui certa polifuncionalidade, já que rege diversos aspectos. É o deus das muitas artes, relacionado às aptidões, inspirações e capacidades pessoais e profissionais. Mas é também associado à liderança, conquistas e aos caminhos. Rege as artes e os artesanatos, assim como Brigantia, mas como guerreiro também associa-se aos esportes e atividades físicas, presidindo uma assembleia de verão (a primeira colheita no calendário da agricultura) que envolve jogos e competições esportivas. Já Brigantia é uma divindade também cultuada no território galo-romano e britano-romano; é pan-céltica por ser a mesma Brighid irlandesa, Bríde escocesa, Breeshay manesa e Brigindu gaulesa. Deusa associada ao fogo doméstico, ao fogo da forja e ao fogo curador. É considerada matrona dos curandeiros, ferreiros, poetas, bardos, artesãos, entre outros. Mas a deusa também é associada às fontes e olhos d’água. Não há registros arqueológicos ou epigráficos a respeito do culto de Brigantia entre os celtas ibéricos, e esse impasse leva alguns a acreditarem que tal culto não tenha existido de fato. Particularmente, assumo que a ocorrência da antiga cidade de Brigantia, atual A Corunha, no norte da Galiza, seja um indício de que o culto à deusa existiu sim entre os galaicos; nesse caso, uma inferência minha é que a deusa Brigantia, assim como Cale, foi uma deusa epônima, que deu nome à essa localidade e é tão antiga que pouquíssimos vestígios restaram de seu culto nessa área, pois tornou-se irrelevante para os povos antigos registrarem o culto de uma divindade ancestral tão evidente como essa naquela região.

Também é possível compreender, graças à arqueologia, o perfil do deus lusitano Endovélico, cujo culto parece ter sido central na região de Alandroal, em Portugal. Os romanos adotaram seu culto ao chegar na Península Ibérica, o que fez com que este persistisse até o entorno do século V e.c.; desse modo, a maior parte dos registros sobre Endovélico são de origem romana. É um deus ao mesmo tempo solar e ctônico, associado à cura e à medicina, mas também às jornadas ao Outro Mundo; e, segundo alguns praticantes, à face negra do sol. Endovélico é ligado aos oráculos e à profecia, principalmente aos sonhos proféticos. Patrono dos médicos, curadores, investigadores e cientistas. O deus possui características como rusticidade e simplicidade, e possivelmente associa-se também às matas, animais silvestres e ervas medicinais. Endovélico possivelmente faz par com a deusa Ataegina, a qual tem a cabra como um de seus animais de poder. A principal fonte sobre a natureza de Ataegina que temos é a sua comparação à deusa romana Proserpina, que é raptada pelo Plutão e levada ao submundo no outono. A questão do rapto não entraria tão em voga no caso de Ataegina, já que essa deusa possui uma natureza mais ativa do que submissa, mas o que se observa em comum com relação ao mito de Proserpina é o fato de que a Ataegina submerge para o reino das almas e dos ancestrais no equinócio de outono e renasce (seu nome significa “a renascida”) na primavera, sendo responsável pelo despertar da natureza.

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Representação de origem romana do deus Endovélico.
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Representação moderna da deusa Ataegina.

Uma outra divindade lusitana de grande importância é Trebaruna (popularizada por uma música da banda de metal Moonspell). Segundo a Irmandade Druídica Galaica, em texto disponível aqui e que tomo a liberdade de transcrever a seguir, a deusa é “protectora do privado, das famílias e crianças, das amizades verdadeiras, do patrimônio pessoal e colectivo, do lar, dos pensamentos próprios. Ela move-se bem nas sombras e nos recantos das casas e cidades, prudente e sagaz, como uma presença reconfortante e calmosa quando as nossas justas aspirações e trabalho esforçado topam com problemas inesperados. […] Contudo, que ninguém se leve a engano, pois ainda que geralmente agarimosa, Trebaruna pode ser guerreira dura e implacável com quem atenta contra a tribo ou clã, com quem revela segredos sem justificação e atraiçoa confianças, com quem ataca ou desonra a amizade, o fogar ou a família querida” (Irmandade Druídica Galaica, 2016).

Outras divindades ainda nos foram informadas pelos registros arqueológicos, apesar de que, nesses casos, as informações são bastante escassas. O deus lusitano Arantios (ou Arentios) seria ligado à prosperidade, fartura e proteção familiar, ao passo em que Quangeios é um deus que rege a fertilidade da terra. O deus galaico Berobreo parece ter algo a ver com o exercício da virtude da hospitalidade, e alguns praticantes associam-no também ao mar. Bormánico é ligado às águas termais, e é dito que rege as águas não navegáveis e não habitáveis (aspecto tipicamente ligado à Nabia), nas quais estão propriedades curativas específicas.

Muitos outros teônimos, bem como diversos epítetos, foram também registrados e atribuídos aos celtas ibéricos, porém, pouquíssimo sabemos a respeito deles. De modo geral, as divindades citadas acima são aquelas das quais dispomos de mais informações, e através delas podemos encontrar pistas para resgatar a religião de nossos ancestrais nos dias atuais. Os deuses celtas da Ibéria estão cada vez mais vivos, o que está sendo atestado por tantos que os buscam atualmente, seja na Galiza, em Portugal ou aqui no Brasil (ou mesmo em outras localidades). Muitas pessoas estão empenhadas no resgate de seu culto, a despeito dos diversos empecilhos, como a ausência de registros mitológicos, cosmogonias, falta de informações sobre algumas divindades e outros elementos.

O presente texto não pretende abordar todo o panteão de deuses dos celtas ibéricos de forma profunda. É minha intenção, na verdade, trazer um breve panorama introdutório acerca destes deuses, com base em minha recente caminhada espiritual e no meu estudo ainda inicial da cultura dos celtas da Península Ibérica. Como disse em outro texto, iniciei essa jornada há cerca de um ano, ou seja, sou ainda um recém-nascido dentro deste universo. No entanto, a caminhada tem sido até aqui riquíssima e cheia de aprendizados, de modo que achei de bom tom escrever esse texto e compartilhar algumas poucas informações acerca do que já aprendi sobre a espiritualidade dos meus ancestrais, auxiliando a difundir informações sobre eles em meio a uma comunidade que, em sua maioria, os desconhece.

Fontes para o estudo

Para aqueles que desejam aprofundar o estudo sobre os deuses dos celtas ibéricos, bem como de sua cultura, existem algumas fontes interessantes e de fácil acesso na internet que podem auxiliar. Uma boa porção de textos acadêmicos está disponível online, mas para não me prolongar, indicarei apenas uma riquíssima fonte: o livro “Los dioses de la Hispania Céltica”, de Juan Carlos Olivares Pedreños, que pode ser baixado aqui. Informações dispostas na internet por alguns grupos e praticantes também auxiliam bastante (eles definitivamente iluminaram meu caminho). Nesse caso, recomendo tudo o que for de origem do grupo religioso Brigaecoi – Castro da Paraíba, liderado por Marcílio Diniz, que é o cara quando se fala em celtas ibéricos no Brasil; ele também mantém um fórum virtual que possui informações preciosas sobre o tema. A Irmandade Druídica Galaica também possui uma boa parcela de textos sobre o tema em seu site, em especial sobre os festivais religiosos, e por isso muito tem a contribuir para quem busca os deuses celtas da Ibéria. O druida brasileiro Endovelicon, do grupo Ramo de Carvalho, dispõe de informações e impressões pessoais interessantíssimas em seu blog; recomendo especialmente essa sessão de postagens sobre o deus Endovélico. Outro blog que me ajudou bastante e que também indico é o do Reconstrucionismo Galaico-Lusitano. Enfim, deixo as dicas por aqui; só de acessar os links acima o interessado já terá acesso a um universo de conhecimento. Caso queira conversar mais, ou deixar alguma opinião sobre o tema, basta comentar aqui no post ou me procurar em privado, através do contato que está disposto na sessão “Sobre” do blog.

© Dannyel de Castro

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