Resenha: I Encontro de Paganismo e Espiritualidades da Natureza na Amazônia

No último dia 25/03/2017, tive a alegria de participar do I Encontro de Paganismo e Espiritualidades da Natureza na Amazônia, um evento realizado em Belém, Pará, e voltado aos adeptos e simpatizantes dos diversos caminhos religiosos pagãos ou orientados pela natureza. Para quem não sabe, na cidade de Belém existem diferentes grupos praticantes de Paganismo, os quais eu tive a oportunidade de conhecer de perto ao longo de dois anos de pesquisa de campo, período em que estive coletando dados para a minha dissertação (recém finalizada, defendida e aprovada \o/) de Mestrado em Ciências da Religião. Uma de minhas principais constatações, com a pesquisa, foi a expansão da comunidade pagã de Belém, que nos últimos anos tem visto um aumento no número de grupos, iniciativas e atividades relativas ao Paganismo na cidade. Além disso, verifiquei a existência de praticantes das mais variadas vertentes do Paganismo em Belém; Wicca, Druidismo, Ásatrú, Bruxaria Tradicional, Odinismo, entre outras tradições. Naturalmente, esses fatores convergiram para a necessidade da realização de um evento como esse, voltado não apenas para nossos próprios grupos ou amigos próximos, mas para a comunidade pagã de Belém como um todo; uma vez que, pelo menos ao meu ver, nossas diferenças devem ser deixadas de lado para que algo maior possa florescer, isto é, o nosso fortalecimento enquanto comunidade religiosa. Nesse espírito, três grupos estiveram envolvidos na organização do evento: o grupo druídico Clann an Samaúma e os wiccanos Círculo Pássaros de Cy e Anam Cara.

Pois bem, feita essa breve contextualização, vamos à programação do evento propriamente dita. O Encontro adotou o formato de programações simultâneas, com duas palestras ou vivências acontecendo ao mesmo tempo, e por esse motivo infelizmente não consegui acompanhar todas as atividades (seria interessante se alguém que participou das outras atividades que não as narradas aqui escrevesse nos comentários suas impressões e opiniões…). Na verdade, como eu estava na equipe organizadora do evento, não pude estar totalmente envolvido com nenhuma das atividades, mas tentei acompanhar o que pude. Inicialmente, tivemos duas vivências simultâneas, “Deusa das Abelhas e as Dádivas do Mel – movimentando as fontes e os níveis de energia vital”, facilitada por Aondê Airequecê (sacerdotisa do Círculo Pássaros de Cy), e “A Canção de Danu: ouvindo o chamado da Terra e dos ancestrais”, com Mayra Darona Ní Brighid (do Clann an Samaúma), sendo que escolhi participar desta última. A vivência facilitada por Mayra iniciou com uma breve descrição da deusa Danu, considerada matrona da raça de deuses Tuatha De Danann, que constituem o panteão do povo celta gaélico – a druidista explicou que Danu, para este povo, é a deusa da Terra, representada por toda a imensidão da natureza. Em seguida, ela conduziu os participantes da vivência em uma dança circular em honra à Terra, seguida de uma meditação com a deusa Danu. Os participantes relataram posteriormente aspectos da visualização que tiveram com a divindade, demonstrando um profundo envolvimento com a atividade proposta. O outro ciclo de atividades simultâneas foi constituído por palestras, sendo a primeira “Entre o Sagrado e o Profano na Antiga Fé Germânica”, com Valmir Júnior (do grupo odinista Clã Draka), e a segunda opção “Os Arquétipos da Deusa e do Deus”, ministrada pelo bruxo solitário Walter Franco. Nesse caso, escolhi acompanhar a palestra de Valmir, na qual ele discorreu sobre alguns pontos importantes da religiosidade germânica sob a ótica do tribalismo visigodo, que é a vertente adotada pelo grupo de Valmir, o Clã Draka. O tema central da palestra foi a categorização de aspectos sagrados e profanos, segundo a teoria clássica de Mircea Eliade, dentro da sociedade germânica pré-cristã, e a partir da fala de Valmir surgiram diversas dúvidas e questionamentos do público, o que fez com que a atividade se tornasse uma roda de conversa com grande interação entre palestrante e público. Na sequência, a programação do Encontro contou com mais duas vivências simultâneas: “Serpente, Puma e Condor – uma viagem de sabedoria e poder pela Cultura Inca”, com Filipe Almeida (sacerdote do coven Anam Cara), e “Vida Mágica e o Uso dos Incensos e Poções”, com Hórus Kalti (sacerdote do Círculo Pássaros de Cy). Nesse caso, eu assisti um pouco de ambas as atividades, e por isso mesmo tive uma visão superficial das duas (participantes do Encontro, intimo-os a descrever suas experiências com as programações nos comentários, rs). No primeiro caso, o wiccano Filipe Almeida propôs uma vivência pelos três mundos dentro da cultura inca; Hanan Pacha, o mundo de cima, que é simbolizado pelo condor, a Kay Pacha, o mundo terreno, representado pelo puma, e o Ukhu Pacha, o mundo de baixo, representado pela serpente. Já a vivência do também wiccano Hórus Kalti buscou chamar atenção para o funcionamento das energias na prática da magia, e como isso é de grande importância, por exemplo, na confecção de incensos e poções – a partir daí, Hórus conduziu os participantes em uma atividade prática de confecção desses materiais. O último ciclo de atividades simultâneas contou com duas opções de palestras, “Os Deuses Celtas da Península Ibérica”, ministrada por mim, e “Venenos”, pela bruxa Danna Myr (sacerdotisa do Círculo Pássaros de Cy). Nesse caso, por motivos óbvios, estive na primeira palestra, na qual falei sobre um tema já abordado aqui no blog, nesse texto.

O evento também contou com uma feira pagã, com artesãos e comerciantes, espaços de socialização para os pagãos, além de danças circulares no início e no fim do Encontro. Finalizamos com uma grande roda de tambores e danças, na qual honramos a Terra sagrada em que vivemos, nossos ancestrais e deuses; foi um lindo momento no qual diferentes círculos, covens, clãs e heathens de Belém estavam todos juntos, tão semelhantes apesar de tão diferentes, vibrando em uma mesma sintonia. O I Encontro de Paganismo e Espiritualidades da Natureza na Amazônia foi um sucesso, uma semente que plantamos para um novo momento do Paganismo em nossa cidade. Faço votos de que a comunidade permaneça unida e desenvolvendo cada vez mais ações como essa e outras mais! 😉

Segue algumas fotos do Encontro:

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Participantes do I EPENA.

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Momento final do Encontro.

© Dannyel de Castro

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1 comentário Adicione o seu

  1. Douglas Neves disse:

    Queria deixar a minha experiência da vivência da Mayra,em que pra mim foi tocante e marcante.O clímax da experiência foi em que a Deusa não me ofereceu um objeto,mas sim um símbolo,esse símbolo ela implantou em mim nas minhas costas,e foi nesse momento no qual eu entendi o significado da minha vida,minha missão no mundo.
    Gratidão.

    Curtido por 1 pessoa

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