Paganismo e a busca pelos Deuses

Nos últimos dias tenho refletido sobre as dificuldade que alguns, como eu, podem encontrar ao longo da jornada espiritual dentro do Paganismo. Essas dificuldades podem ter as mais diversas naturezas, tudo dependerá da experiência do pagão. No meu caso, as principais dúvidas têm sido com relação às divindades, os deuses de meus ancestrais. Infelizmente, os celtas ibéricos não deixaram grandes vestígios de sua religiosidade – basicamente, apenas o nome de alguns deuses e alguns de seus aspectos, pois não há fragmentos mitológicos, cosmogonias e outros elementos teológicos. Algumas pessoas tentam reconstruir a religião dos celtas ibéricos com base especificamente em dados científicos como achados arqueológicos, vestígios epigráficos e outros; outros ainda buscam resgatar a antiga religião desses povos mas com uma certa abertura à gnose pessoal – isto é, o conhecimento intuitivo, obtido por meio de meditação, jornadas espirituais, etc. De modo geral (me desculpem se eu estiver errado), sinto que estamos todos ainda tentando nos encontrar, em meio a tantas dúvidas e suposições.

Uma de minhas principais dúvidas, desde que comecei a trilhar esse caminho, foi a respeito da deusa Brigantia, com a qual eu já mantinha uma relação antes de descobrir o Druidismo. Sempre soube que um provável culto seu entre os celtas da Ibéria não havia sido atestado pela ciência. Ainda assim, sempre senti essa deusa muito próxima de mim, e mais ainda quando eu comecei a buscar pela religião dos meus ancestrais dentro da espiritualidade celta. Foram diferentes experiências e vivências, mas o que fazer se a ciência aparentemente não indica que Brigantia realmente teria sido cultuada na Ibéria céltica? Certamente seria mais fácil assumir um culto pessoal à deusa Brighid da Irlanda, e durante um tempo eu até o fiz, mas entendi que precisava buscar pela identidade e especificidades da Brigantia ibérica. A questão de focar nesse povo, em minha jornada, nunca foi uma escolha, mas antes uma resposta minha a algo que até hoje não sei explicar direito, um chamado que veio de dentro e se fez urgente na minha vida…

Aos poucos as coisas foram se esclarecendo (Brigantia e seu fogo que ilumina!). Por exemplo, descobri o conceito de divindades epônimas, que dão nomes a certos povos ou localidades – as deusas epônimas geralmente são divindades muito antigas, verdadeiras mães ancestrais dos povos aos quais elas deram seus nomes. Essa seria uma ideia que pode ser aplicável ao caso de Brigantia na Ibéria, uma vez que segundo o Lebor Gabala, a cidade fundada por Breogan de onde vieram os Milesianos se chamava Brigantia (onde hoje está situada a cidade A Corunha, na Galiza, Espanha). Além disso, o nome da cidade de Bragança, localizada em Trás-os-Montes, Portugal, também teria a mesma raiz linguística do nome de Brigantia (assim como outras cidades europeias, como Bregenz, na Áustria, Briançon, na França, e outras). Há inclusive, uma antiga inscrição achada em território ibérico contendo o teônimo “Brigant”. Levei todos esses elementos para as minhas meditações com a deusa, e o que tenho intuído desde então é que estou no caminho certo.

O aprendizado que fica é: quando a gente se depara com questões que parecem indecifráveis, verdadeiros mistérios sem vestígios, o melhor a fazer é aquietar-se, colocar as ferramentas racionais de lado e vasculhar a memória ancestral. São os próprios deuses, afinal, que nos guiam pelo caminho de volta a eles.

© Dannyel de Castro

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s