Breve guia sobre a religião Ásatrú

Em linhas gerais, a Ásatrú é uma religião politeísta e animista, que engloba também o culto aos ancestrais e às forças da natureza. Sendo integrante do grupo comumente denominado de Paganismo Contemporâneo, é uma reconstrução moderna (ou resgate contemporâneo) da antiga religião de povos pré-cristãos que habitaram o território da Escandinávia (parte da Europa setentrional); esses povos, por sua vez, são denominados de germânicos ou nórdicos. Esse resgate, tal como em outras religiões pagãs contemporâneas, é feito por meio de estudos históricos, arqueológicos, literários, linguísticos, antropológicos, etc., assim como recebe influência também do folclore de países outrora habitados pelos germânicos. Etimologicamente, o termo “ása” faz referência a um clã de deuses, os Aesir, e “trú” significa fé ou crença; “fé nos Aesir” seria, desta forma, a tradução literal do nome Ásatrú, porém grande parte dos praticantes também reverencia os Vanir, outro clã de deuses nórdicos, de modo que atualmente é possível entender Ásatrú como, simplesmente, “fé nos deuses”.  Os deuses Aesir são mais conhecidos devido ao imaginário e à cultura pop; tratam-se de divindades como Odin, Frigga, Thor, Balder, Loki, Tyr e Heimdall. Já os Vanir são divindades associadas à terra, à fertilidade e agricultura; tais quais Freya, Freyr, Njord, entre outros.

A maior parte dos ritos e celebrações realizados pelos ásatrúars possuem uma natureza essencialmente devocional. Entre os mais comuns estão Blót e Symbel. Blót, em sua forma mais simples, é uma oferenda ou sacrifício aos deuses; geralmente, um item como comida, bebida ou outro é oferecido como sacrifício aos deuses. Nesses casos, por exemplo, a bebida ritualística (hidromel, cerveja ou outras) pode ser consagrada para que então uma libação seja derramada e em seguida a bebida compartilhada. Symbel é uma cerimônia festiva em honra aos deuses onde histórias são compartilhadas e, por vezes, juramentos são feitos. As celebrações envolvem o culto aos deuses e também a observação dos ciclos da natureza. Abaixo, é possível observar uma cerimônia de blót realizada na ocasião da primavera pelos Samfundet Forn Sed Sverige, um grupo ásatrúar da Suécia.

 

Histórico

O resgate de práticas religiosas de povos germânicos pré-cristãos teve início durante o século XIX, alinhado ao fenômeno dos grupos esotéricos e ordens iniciáticas europeias. Naquele período, porém, elementos do paganismo eram mesclados a vários outros, como misticismo cristão, ocultismo, além de sentimentos nacionalistas. Esse movimento avançou pelo século XX, o que pode ser observado através de sujeitos como o ocultista Alexander Rud Mills, que publicou o livro The Odinist Religion: Overcoming Jewish Christianity em 1930,  no qual teoriza que o norte da Europa foi o verdadeiro nascimento da civilização e sugere um retorno à religião dos povos germânicos pré-cristãos como forma de restabelecer uma “era de ouro”. Suas ideais, no entanto, não tiveram grande impacto na época e só passaram a ecoar através de Else Christensen, fundadora da Odinist Fellowship durante a década de 1960 nos Estados Unidos. Christensen fez sua própria interpretação dos escritos de Rud Mills, eliminando aspectos demasiadamente maçônicos e acrescentando certos elementos, como um “socialismo tribal”, no resgate da antiga religião germânica. Além disso, ela desenvolveu interpretações jungianas a respeito dos deuses nórdicos como sendo “arquétipos” geneticamente herdados pelos povos nórdicos (ASPREM, 2008).

Menos influenciado pelos elementos do ocultismo e ignorando as estranhas teorias genéticas de seus antecessores, o islandês Sveinbjörn Beinteinson (1924 – 1993) foi o verdadeiro responsável por estruturar a religião Ásatrú, a partir de um ponto de vista mais focado na natureza dos deuses (relacionados às forças naturais), nas práticas observadas no folclore dos países escandinavos e nos estudos literários, sobretudo dos Eddas e das sagas islandesas. Basicamente, Beinteinson acreditava que era através desses elementos que seria possível chegar à antiga fé dos germânicos. Sveinbjörn Beinteinson foi o que alguns chamam de filósofo natural; ele é descrito como um fazendeiro pastor de ovelhas que possuía especial interesse pela literatura, meio através do qual interessou-se por filosofia e teologia. Fundou a Ásatrúarfélagið, reconhecida associação islandesa de paganismo nórdico, no ano de 1972, da qual foi seu primeiro sacerdote ou goði. No ano seguinte, a Ásatrú passou a ser uma religião reconhecida pelo governo islandês – uma conquista que em muito se deve a pessoa de Beinteinson.

Sveinbjörn_Beinteinsson_1991
Sveinbjörn Beinteinson, primeiro sacerdote da Ásatrúarfélagið.

A partir de então, a Ásatrú passou a ser buscada por diversos sujeitos, na Islândia e em outros países ocidentais. Ainda na década de 1970 a religião ganhou adeptos em outros países escandinavos, bem como no Reino Unido e nos Estados Unidos – nesse último caso, Steven McNallen fundou a Viking Brotherhood, que posteriormente tornou-se a Asatrú Folk Assembly. Atualmente, é uma das religiões pagãs contemporâneas em constante crescimento, sendo possível observar a presença de praticantes ásatrúars em diversas localidades, inclusive no Brasil. Recentemente, a BBC noticiou que o número de adeptos da Ásatrú duplicou nos últimos dois anos na Islândia. As iniciativas também aumentaram; apenas para citar um exemplo, a Ásatrúarfélagið agora trabalha na construção de um templo pagão em honra aos deuses nórdicos.

Referências

ASPREM, Egil. Heathens up north: politics, polemics, and Contemporary Norse Paganism in Norway. The Pomegranate: The International Journal of Pagan Studies, v.10, n.1, p.41–69, 2008.

© Dannyel de Castro

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