Vozes do Paganismo #2: entrevista com a bruxa Petrucia Finkler

Seguindo com a sessão Vozes do Paganismo, destinada a entrevistas com pagãos brasileiros de diferentes vertentes; a entrevistada do mês foi Petrucia Finkler, praticante de Bruxaria Tradicional. Com 41 anos e há 16 no Paganismo, Petrucia é astróloga, taróloga, ritualista e tradutora, além de líder do Conclave da Rosa e do Espinho. É importante pontuar que a Bruxaria Tradicional é um caminho espiritual que diverge em muitos aspectos da Wicca, mas sem me estender muito no assunto, recomendo ao leitor que acesse o blog de Petrucia, “Elemento Chão“, onde ela expõe um pouco de suas ideias acerca do tema, além de reflexões pessoais sobre vários temas relacionados ao universo da bruxaria e do paganismo.

Dito isso, vamos à entrevista! 😉

Para você, o que é o Paganismo?

É um caminho de vida que resgata as práticas espirituais e religiosas das populações nativas da Europa pré-cristã.

A rigor, engloba todas as vertentes de pessoas que cultuam a Terra, o que envolve um alto grau de animismo e politeísmo. O ponto principal, no meu entender, é ser uma espiritualidade ou religiosidade que busca a conexão com a vida e as expressões deste planeta, deste plano e dos outros planos invisíveis presentes no aqui e agora, que, em vez de oprimir nossa natureza, tenta entender e integrar; em vez de pregar privação e sofrimento em nome de uma transcendência póstuma, inspira a celebração da vida e do corpo como sagrados e oferece como caminho de transcendência o viver autêntico de nossa profunda sabedoria e conexão interior.

Como você chegou até o Paganismo? Poderia descrever um pouco de sua caminhada espiritual até aqui?

Meus pais eram agnósticos, então não fui batizada, mas eu sentia necessidade de uma devoção religiosa desde bem pequena e me apegava a todos os símbolos que me davam e a tudo que me ensinavam nas escolas católicas que frequentei. Cresci um tempo no interior do Rio Grande do Sul, em Santo Ângelo, na região das Missões. Lá não se tinha acesso a muita coisa, mas eu prestava atenção a todos os assuntos esotéricos que apareciam entre os adultos ao meu redor. Um ponto muito marcante foi eu ter encontrado uma edição especial da revista Capricho guardada pela minha mãe, publicada antes de eu ter nascido, que ensinava a ler o baralho comum como método divinatório e também falava em astrologia e numerologia. Devorei aquele conhecimento e, aos 8 anos, comecei a ler cartas para as pessoas.

Escolhi depois, já em Porto Alegre, ser católica. Fui batizada aos 13 anos, fiz primeira comunhão, crisma, tudo, porque queria me encaixar na sociedade, mas vivia crises, logicamente.

Meu presente de 15 anos foi o baralho Thoth do Aleister Crowley e o curso com Veet Vivarta, um professor de Brasília que viajou pro sul para ensinar o simbolismo desse baralho.

Segui estudando tarot, depois entrei na astrologia e, no tempo da faculdade, conheci pessoas que praticavam Wicca. Aquilo era novidade pra mim, mas não levei muito a sério, não entendia bem qual era a deles. Havia um clima de segredo (que para mim era descabido) e achava que a sacerdotisa deles tinha algo de muito estranho. Ela era uma artista plástica de renome, que acabou cometendo suicídio poucos anos depois, uma infelicidade. Ainda assim, tive sonhos incríveis, com conteúdo mítico mesmo, na pouca convivência que tive com aquele coven, ou seja algo ancestral despertara em mim.

Trabalhei com um grupo que usava o tarot como instrumento e caminho de magia, sob a orientação de uma professora de São Paulo (que mais adiante renegou tudo e virou crente), mas foi com um curso de cura do útero, um fim de semana intenso de xamanismo latino-americano e contato com Pacha Mama, que descobri a Deusa e que podia me entregar a um caminho espiritual completamente distinto. Isso foi em janeiro de 2001, eu estava com 25 anos, e a partir dali, tudo virou na minha vida. Conheci meu marido, abandonei minha carreira de jornalismo televisivo na RBS TV, casei, fui embora para Chicago, tudo no mesmo ano.

Em Chicago conheci a organização Gaia’s Womb, onde encontrei um círculo de irmãs e uma acolhida maravilhosa para viver uma espiritualidade feminina. E descobri então que tudo que eu fazia tinha um nome: Paganismo! E que havia gente muito séria praticando a Wicca e outras vertentes, inclusive o mais comum era o ecletismo, onde me encaixei perfeitamente.

E assim foi, comecei a frequentar festivais, workshops, eventos, ler trocentas coisas, por seis anos, fiz parte de um Círculo de Mulheres (Amazons Queens and Crones) que praticavam juntas várias técnicas e faziam rituais. Em 2007, como atriz e dramaturga, me tornei uma das fundadoras da trupe Terra Mysterium, um grupo de teatro e música voltado para os mistérios, que depois assumiu a estética Steampunk. Nossos espetáculos acabavam funcionando como grandes rituais, e essa criação coletiva era eletrizante pra mim.

Voltei ao Brasil em 2010, escolhemos nos estabelecer em São Paulo, e aqui tive de começar tudo de novo, conhecendo as pessoas aos poucos e tentando entender o cenário nacional. Sou muito grata à amiga Pietra di Chiaroluna que me levou pela mão e me apresentou a um monte de gente.

Entre 2011 e 2012, recebi um treinamento formal com um professor e amigo americano, diretor do Terra Mysterium, que, como bom bruxo tradicional, é bastante discreto. Recebi a linhagem mágica dele em 2013. Meu treinamento foi bem aprofundado, com o objetivo de me capacitar como mentora ou sacerdotisa, e é o mesmo treinamento oferecido a certos membros da Brotherhood of the Phoenix, sendo que fui a primeira mulher a ter passado por ele.

Enfim, cansada de não ter um grupo, de não ter com quem dividir e trocar conhecimentos, de parceria para praticar e descobrir, em 2015, reunindo os conhecimentos de toda minha jornada, criei uma formação mágica com o nome de Conclave da Rosa e do Espinho. Embora quem participe possa levar essa fundação mágica para qualquer caminho que escolher, eu quero, no processo, encontrar pessoas com afinidade suficiente para montarmos juntos esse conclave e fundar uma nova tradição.

De que forma você vive o Paganismo no seu cotidiano?

Minha religiosidade permeia absolutamente tudo que faço. Desde a escolha dos alimentos, das cores da minha casa, dos aromas e produtos de limpeza que busco usar. Tenho preces matinais e noturnas, tenho altares, estou aberta a manifestações espontâneas de contatos dos planos interiores que podem surgir e devo ficar atenta a elas. Trabalho hoje também quase que inteiramente com temáticas pagãs, desde meus atendimentos astrológicos, o preparo do horóscopo para a Glamour, o Tarot, as aulas da formação mágica, os materiais que escrevo, as leituras que faço. Busco separar um tempo também para me conectar mais profundamente e exercitar aquilo que sei.

Como você enxerga a comunidade religiosa a qual você pertence, isto é, de Bruxaria Tradicional, no Brasil? Considera que o seu desenvolvimento se deu de forma positiva? Teria algo ainda a ser aperfeiçoado?

Primeiro que não vejo como uma comunidade religiosa. Conheço pouquíssimos – cabem nos dedos de uma mão – dos bruxos que seguem a vertente tradicional aqui e não vejo trocas entre nós. É fato que os praticantes desta linha tendem a dois caminhos, ou são calados e discretíssimos, ou acabam por se envolver ou atrair polêmicas públicas por conta de seus métodos. Pelo próprio estilo das energias envolvidas em quem é de fato (não por gosto, e nem por moda) desta linha, não creio que exista a possibilidade de uma comunidade, já que os clãs espirituais nossos são extremamente desconfiados e territoriais. Porém o que eu gostaria é de ter mais amigos entre aqueles que mantêm os grupos, para justamente poder trocar figurinhas e formar uma espécie de rede de apoio.

Como você enxerga a comunidade pagã brasileira, de forma geral?

Como coloquei no meu relato biográfico, embora eu tenha conhecido praticantes de Wicca em 1995 em Porto Alegre, foi só quando eu retornei ao Brasil que percebi haver um movimento forte que se formou justamente durante minha ausência do país, entre 2001 e 2010. De todo modo, nossa história é recente nesta religiosidade da terra, e nos vejo passando agora por certos dramas que afetaram os pagãos dos EUA, por exemplo, nos anos 80. 

Em todo meu tempo de Chicago e até mesmo hoje, como parte da comunidade pagã do meio-oeste americano, vi pouquíssimos desacatos, deboches públicos e ofensas de um grupo sobre indivíduos, outros grupos ou até vertentes inteiras. E acho uma pena que esse exercício pareça vicejar tanto na Terra Brasilis. Acho contraproducente e me deixa muito aborrecida que as pessoas prefiram se alimentar disso e perder tempo cultivando o ego do que enfiar a cara nas suas práticas e tratar de seu desenvolvimento interno.

Tem gente genial, tem gente com muito boa vontade, gente muito íntegra, mas também rola isso de certas personalidades terem um desejo muito forte por seguidores, e isso acabar melando o trabalho que desenvolvem.

E sobre quem está chegando, existe uma necessidade enorme de entenderem que as coisas levam tempo, que o tempo e a dedicação é que informam a tua força e o teu talento. Não há evolução instantânea, existe uma estrada, e parece que existe uma preguiça, um desejo de querer tudo pronto, e uma corrida atrás de uma “iniciação”. No exterior há bem menos preocupação com isso, de maneira geral, e espero que um dia a gente chegue lá, desencanando de títulos, e sabendo conviver melhor com as diferenças.

Para você, qual é a importância do regate de crenças étnicas, politeístas e/ou animistas no contexto atual em que vivemos?

A importância é no nível da sobrevivência da nossa espécie. A Terra, nossa amada, já se refez de vários cataclismos devastadores, mas nós somos uma peste, na linha dos gafanhotos: a cultura que criamos só sabe extrair e tomar. O resgate da sacralidade da natureza, de viver em relação harmoniosa com nosso meio, e o próprio estilo de vida propagado pelo paganismo, por exemplo, impulsionam as questões de sustentabilidade, levam (ou deveriam levar) as pessoas a um consumo mais consciente, e isso ajuda a amenizar consequências dos efeitos devastadores da sociedade moderna.

A Terra sobreviverá a nós, mas sabe se lá se nossa espécie não vai arrasar tudo e se autodestruir no processo. Espero que não. A ênfase na sacralidade feminina, através da figura da Deusa e da mulher são fundamentais nisso, porque equilibram. A natureza é feminina, Gaia é feminina, e a falta total de consideração ao feminino é que causa essa loucura coletiva de falta total de consideração com os recursos naturais.

No nível do indivíduo, o ressurgimento dessas crenças e o crescimento desta espiritualidade fala muito da nossa necessidade de integrarmos nossa sabedoria ancestral na busca da individuação, uma religiosidade que não chafurda na culpa, mas que se eleva pela celebração e o sagrado que mora em cada um de nós e em todo nosso entorno natural tem muito a contribuir com aqueles que não estão encontrando sentido em todo o resto que nos é oferecido prontamente pelas religiões dominantes e opressivas.

© Dannyel de Castro

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1 comentário Adicione o seu

  1. Rd Rodolfo disse:

    Essa bruxa possui uma ética verdadeira e exemplar. Quem nos dera mais pessoas assim em meio ao paganismo, pois como ela disse, há muitas pessoas mais preocupadas em mostrar seus poderes do que treinar sua própria magia. Parabéns para ela!
    Que lindo exemplo.

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