Então você teve uma experiência religiosa – e agora?

Texto escrito por John Beckett, traduzido para o português por Dannyel de Castro com a autorização do autor. Para conferir a versão original, acesse: http://www.patheos.com/blogs/johnbeckett/2017/05/religious-experience-now.html

 

Talvez esta tenha sido sua primeira vez, ou talvez tenha acontecido antes. Você saiu, olhou para a lua cheia, e o luar te arrebatou. Você teve um sonho que era muito mais que um sonho. Talvez você tenha participado de um ritual do Denton[1] na noite passada.

Enfim, você teve uma experiência religiosa.

Algumas são suaves e outras são terríveis, mas as experiências religiosas e místicas são alguns dos eventos mais significativos em nossas vidas. E são também dos que mais nos deixam perplexos. Nós fazemos um grande esforço para descrevê-las e nos esforçamos ainda mais para compreendê-las, a ponto de que algumas pessoas nos dizem para nem tentar. Apenas aprecie-os e aprecie-os, dizem.

Se essa é sua escolha, que assim seja – sua vida, sua escolha. Mas isso me parece o equivalente a encontrar uma caixa trancada no sótão de sua falecida avó, guardá-la com você, e nunca tentar abri-la. Sim, é bonito, e sim, é uma conexão com a sua ancestral amada. Mas pode haver algo dentro da caixa que vai mudar a sua vida.

Você não quer forçar abri-la com um instrumento contundente – que pode danificar o conteúdo, bem como arruinar a caixa. Mas vale a pena pensar em um mecanismo de abertura para a caixa, procurando no restante do sótão por uma chave, chamando um serralheiro, ou consultando um especialista em antigas caixas bloqueadas.

Desbloquear uma experiência religiosa ou mística é uma questão de interpretação: colocá-la em contexto, descobrir o que significa e decidir como responder.

Colocando em contexto

Compreendemos nossas experiências – religiosas ou não – localizando-as no contexto de nossas outras experiências e de nossas suposições sobre o modo como o mundo funciona. Um wiccano, um batista e um ateu podem olhar para a mesma lua cheia e ter uma experiência semelhante, mas eles irão interpretá-la de maneiras muito diferentes por causa de suas ideias diferentes sobre a lua. A lua é uma Deusa ou a manifestação de uma Deusa? É o trabalho glorioso de uma deidade criadora? Ou é apenas um satélite que reflete a luz da estrela mais próxima? Uma experiência comum produzirá três interpretações diferentes devido aos três diferentes contextos aqui encontrados.

Se sua experiência não se encaixa em seu contexto, pode ser hora de ajustar suas premissas fundamentais. Em meus dias iniciais como um pagão, eu repeti frequentemente os ditos “todos os deuses são um deus e todas as deusas são uma deusa.” Para mim, isso era fácil de aceitar, dado o meu background monoteísta. E isso se encaixava no meu desejo de que houvesse uma unidade final de todas as coisas. Mas quando comecei a trabalhar com os deuses do Egito, minhas experiências das várias divindades eram tão diferentes que fui forçado a reconsiderar essa suposição. Minhas experiências eram melhor explicadas pela ideia de diversos deuses individuais do que pela ideia de um deus com vários rostos. Eu tive que mudar minhas ideias sobre a natureza dos deuses.

A construção do contexto exige trabalho e é melhor fazê-lo. Eu vejo muitas pessoas (nem todos pagãos) interpretarem uma experiência religiosa como se fosse um romance fantástico ou um programa de TV, porque isso é tudo o que elas sabem. Leia, estude, pratique e pense. Examine suas suposições inquestionáveis.

Se você tem uma experiência religiosa e você não construiu um bom contexto, você vai ter que confiar em outra pessoa para fornecer um contexto para você. Escolha seus serralheiros místicos com muito cuidado. E então comece a trabalhar na construção de seu próprio modelo da maneira como o mundo funciona.

Descobrindo o que significa

Você sentiu o Deus-Veado respirando pelo seu pescoço. Você teve sonhos com cães, chaves e encruzilhadas. Corvos continuam aparecendo em lugares onde os corvos raramente estão. Você olhou fixamente para a lua e foi surpreendido por um sentimento tão poderoso que você não pode descrever.

Contextualizar ajuda você a relacionar sua experiência com outras experiências e suas ideias sobre o mundo. Mas você ainda tem que descobrir o que isso significa.

Comece com sua intuição. O que isso se parece para você? Onde isso tem relevância? O que está acontecendo – em sua vida ou no mundo mais amplo – onde isso seria útil? Onde você já viu e ouviu isso antes, talvez em um cenário mais mundano? Embora descobrir exatamente o que significa uma experiência religiosa possa ser difícil, é raro que você não tenha ideia sobre por onde começar.

Verifique se há consistência e vieses. O Deus-Veado te disse para plantar árvores? Provavelmente Ele está falando com você. Ele lhe disse para comprar uma nova caminhonete para ir diariamente ao trabalho? Isso provavelmente não é o que Ele estava tentando lhe dizer.

As experiências religiosas tendem a ser transformadoras, não reconfortantes. Se sua interpretação lhe diz o que você quer ouvir, seja muito cético.

Consulte um bom adivinho. Por que todo o mistério? Por que os deuses e espíritos não podem falar diretamente conosco? Esse é um tema para outro post, mas a resposta curta é que eles podem. A adivinhação (oráculos) nos permite fazer perguntas diretas e receber respostas diretas… às vezes, de qualquer maneira.

Se você pode ler por si mesmo, jogue suas cartas, runas ou oghams. Se você não pode, encontre um oraculista profissional. Se é realmente importante, consulte um oraculista de qualquer maneira. Não há nada como ter alguém para confirmar suas leituras… ou ter alguém para apontar uma coisa realmente importante que você deixou escapar na leitura.

Decidindo como responder

Ouvir a mensagem alto e claro é fundamental, mas não é o fim do processo. Como você vai responder? Experiências religiosas e místicas não acontecem para o seu entretenimento e raramente acontecem para fazer você se sentir bem consigo mesmo. Elas podem ser uma coisa muito boa para você, mas não são propensas a tornar sua vida mais confortável.

A maioria das experiências religiosas que eu tive foram chamados para relacionamentos mais profundos. Um Deus que mal conhecia pulou em mim e me disse quem Ele era. Isso era tudo o que eu podia lidar na época. Comecei a fazer orações regulares e meditações, comecei a aprender mais sobre quem Ele é, e comecei a fazer Seu trabalho. [2]Onze anos depois, o relacionamento é mais forte do que nunca.

Às vezes eu tive experiências com instruções muito específicas, mas mais frequentemente eles me chamaram para dar um passo mais adiante no caminho… ou para deixar o caminho aberto para territórios desconhecidos. Eu frequentemente não sei exatamente o que estou fazendo até chegar lá – e às vezes nem mesmo então. Mas eu aprendi que quando uma oferta ou um pedido ou uma atribuição é feita, diga sim. Não porque eu deva obedecer, mas porque eu quero ser parte de algo maior do que eu, mesmo que seja difícil, e mesmo que seja assustador.

Abrindo-se para experiências religiosas

E se você não teve uma experiência religiosa, mas quer ter? Primeiro, tome cuidado com o que você deseja. Essas experiências são poderosas, mas podem transformar sua vida de cabeça para baixo. Se você não está preparado para ser transformado, fique longe delas.

Se você está preparado para mudar e ser mudado, saiba que essas experiências não podem ser produzidas sob demanda. Mas há coisas que você pode fazer para torná-las mais prováveis, começando com prática profunda.[3]

Nem toda experiência religiosa envolve um Deus te pegando e te atirando pelo quarto – pelo que sou grato! Algumas são dramáticas, mas outras são muito sutis. Isso não significa que sejam menos reais ou menos importantes. Não ignore os sussurros porque você estava esperando um grito.

O que é importante é que algo – ou Alguém – fala para você, que você coloque a mensagem em contexto, que você entenda o que significa, e mais importante, que você decida a melhor maneira de responder.

[1] Denton Texas Covenant of Unitarian Universalist Pagans, espécie de associação que congrega diversos pagãos, da qual John Beckett faz parte; para mais informações: http://www.dentoncuups.org/

[2] O autor se refere ao deus céltico Cernunnos, do qual é devoto, como explica nesse texto: http://www.patheos.com/blogs/johnbeckett/2013/08/the-cernunnos-ritual.html

[3] Em um outro texto, o autor fornece algumas dicas de práticas, confira: http://www.patheos.com/blogs/johnbeckett/2016/12/mystical-experiences-deep-practice.html

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s