Religio Romana: uma introdução ao paganismo romano

Um dos atuais movimentos pagãos reconstrucionistas existentes no mundo é a Religio Romana (do latim, “religião romana”), também denominada de Cultus Deorum Romanorum (do latim, “adoração aos deuses romanos”) e Via Romana Agli Dei (em italiano moderno, “caminho romano aos deuses”). Basicamente, como podemos observar nessas nomenclaturas, o objetivo da religião é reviver as práticas pagãs tradicionais romanas, anteriores à cristianização. A base para a reconstrução religiosa é fundamentalmente os escritos e evidências arqueológicas descobertas acerca da antiga república e império romanos. Sendo assim, os adeptos da Religio Romana debruçam-se firmemente sobre a pesquisa acadêmica.

Assim como em outros reconstrucionismos pagãos, a Religio Romana privilegia duas formas, tidas como essenciais, de culto religioso: o culto público (ou comunitário) e o culto doméstico (ou familiar). O culto público é geralmente desempenhado por pequenas organizações religiosas, na ocasião dos festivais e celebrações próprios da religião, e são abertos ao público em geral (como em outras formas de Paganismo Contemporâneo, são ritos realizados em espaços públicos). Já o culto doméstico é desenvolvido no interior da casa, com os membros de uma família. Essa última forma é, na verdade, a mais importante dentro da Religio Romana; algo que se dá muito em função do número reduzido de adeptos desse segmento religioso, mas que é explicado pelos seguidores como um fator respaldado pela visão de mundo dos antigos romanos. Entende-se que o papel da família é fundamental, e restaurar o culto doméstico aos antigos deuses romanos no interior de um lar é uma forma de manter aceso o fogo sagrado que une os membros de uma família. No âmbito doméstico, as preces, oferendas, libações e demais ritos são realizados em um Lararium (isto é, um altar doméstico). Nesse caso, um outro ponto importante é a reverência aos ancestrais: no paganismo romano, acredita-se que os Manes, ou espíritos dos ancestrais, são guardiões do fogo sagrado da família. Alem disso, as próprias divindades do clã (Lares) são entendidas como ancestrais.

As divindades romanas são muitas. Um grupo de doze divindades, chamado de Dii Consentes, é especialmente reverenciado pelos seguidores da Religio Romana, tais deuses são: Iuppiter, Iuno, Minerva, Vesta, Ceres, Diana, Venus, Mars, Mercurius, Neptunus, Vulcanus e Apollo. Os praticantes acreditam, seguindo algumas pistas arqueológicas, que esse conjunto de seis deuses e seis deusas reflete o mais antigo culto politeísta romano. O número 12 é de influência etrusca (os etruscos reverenciavam um panteão central constituído por doze divindades), mas os Dii Consentes foram identificados com os deuses olímpicos gregos. Os doze deuses romanos são liderados pelos três primeiros, Iuppiter, Iuno e Minerva, que constituem o pilar do paganismo romano. Além dos Dii Consentes, há várias outras divindades: Ianus, Saturnus, Quirinus, Volturnus, Pales, Furrina, Flora, Carmenta, entre outros.

Dii Consentes

Iuppiter é o deus do céu, da lua, dos ventos, da chuva e do trovão, que se tornou rei dos deuses depois de derrubar seu pai Saturno. O nome antigo de Iuppiter era Diespiter, cuja raiz é Dios+Pater, ou Deus-Pai. Possui muitos epítetos, entre os quais está Iuppiter Stator, guerreiro, guardião e protetor da cidade e do Estado.

zeus_statue
Representação de Iuppiter, ou Júpiter.

Iuno é irmã e esposa de Iuppiter, rainha dos deuses e protetora do Estado. É geralmente associada à figura da Grande-Mãe, sendo representada pela luz celestial e regendo aspectos como nascimento, trabalho, entre outros. Possui um festival sagrado, o Matronalia, celebrado em março.

Minerva é a deusa da sabedoria e da aprendizagem, meditação, inventividade, realizações, artes, fiação, tecelagem e comércio. Deusa da aurora.

Vesta é a deusa da lareira e do lar, do fogo doméstico e do fogo divino. Possui um festival sagrado, o Vestalia, tradicionalmente realizado em 7 de junho.

Ceres é a deusa da agricultura, geralmente associada à fertilidade do solo e à colheita. Seu festival, a Cerealia, foi inicialmente celebrado em abril, e posteriormente em outubro.

Diana é a deusa da lua, que rege os bosques silvestres, é a Caçadora Divina, protetora das mulheres e uma deusa virgem.

Venus é a deusa da primavera, das flores, rosas e videiras.

Marte, deus da guerra, é originalmente uma divindade agrícola, representando a abundância dos campos e as batalhas que devem ser conquistadas para manter e ampliar as províncias que mantiveram Roma alimentada e próspera.

Mercurius é o deus do comércio e da comunicação. Possui um festival sagrado realizado em 15 de maio.

Neptunus é o deus das águas (rios, nascentes, mares), regente das realizações e conquistas obtidas por vias aquáticas. Seu festival, a Neptunalia, é celebrado em 23 de junho.

Vulcanus é o deus do fogo celeste, isto é, da luz e do fogo de origem celestial (trovões, raios). O fogo em seu aspecto colérico – em oposição ao fogo doméstico, regido por Vesta. Seu festival, Volcanalia, ocorre em 23 de agosto.

Apollo é o deus do sol, da profecia, música, poesia, inspiração e cura, regente da perfeição e beleza masculina, irmão gêmeo de Diana, a deusa da Lua. É, como se sabe, uma divindade de origem grega que foi assimilada pelos romanos.

Religio Romana hoje

Atualmente, existem alguns grupos praticantes de Religio Romana, principalmente em países europeus como Itália, França, Espanha e Portugal, mas também na parte oriental da Europa. Contudo, também há representatividade da religião em outras localidades, como as Américas. Nos Estados Unidos, no ano de 1998, foi criada uma das mais estruturadas organizações praticantes de Religio Romana, a Nova Roma, cujos fundadores foram Joseph Bloch e William Bradford. No Brasil, até o momento, desconheço a existência de algum grupo; há, porém, um blog destinado a trazer informações e demais conteúdos relativos a religião, o Cultus Deorum Brasil, que, por sua vez, não informa a identidade de seu(s) autor(es).

16508046_266139853819500_8333601730360955374_n

De forma geral, a Religio Romana é uma das vertentes do Paganismo Contemporâneo com menos expressividade atualmente, com poucos adeptos inclusive na região da Itália – algo curioso, já que o resgate das raízes pagãs é bastante forte em outros países europeus. No país, religiões como a Wicca e a Stregheria são mais expressivas no campo do Paganismo, muito em função do misticismo gerado em torno da bruxaria italiana a partir de escritos como “Aradia, o evangelho das bruxas” (1899), de Charles Leland, no qual o folclorista e jornalista refere-se à esta bruxaria como “la vecchia religione” (ou “a antiga religião”). Os adeptos da Religio Romana, contudo, esforçam-se para dissociar a sua prática da chamada bruxaria italiana, ou Stregheria, que é uma prática com contornos indígenas mas somados a outros elementos, de origem clássica, cujas raízes estão fincadas no século XIV da era comum – esse seria o principal diferencial entre uma e outra, já que a Religio Romana busca reviver as práticas pagãs romanas pré-cristãs de forma genuína, sem o acréscimo de elementos oriundos de outras tradições culturais.

Fonte: TRIARIUS, Lucius Vitellius. Religio Romana Handbook – A Guide for the Modern Practitioner. Ex Libris, 2013. (O livro pode ser baixado aqui)

Texto escrito por Dannyel de Castro

Copyright © 2017 Todos os Direitos Reservados

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s