O problema com o Neopaganismo

Texto escrito por R.M. McGrath e traduzido para o português por Dannyel de Castro, com autorização do autor. Link para o post original: https://sacredblasphemies.com/2017/04/21/the-problem-with-neo-paganism/

Na minha cabeça, eu venho flertando com a ideia de começar algum tipo de grupo de orientação hindu para politeístas modernos. Como um politeísta que cultua divindades hindus, eu sei que não estou sozinho. Gostaria que houvesse um grupo que se concentrasse no hinduísmo, mas aberto a (se não orientado para) os ocidentais.

Na verdade, já existe. É chamado ISKCON (mais conhecido como o movimento Hare Krishna). Apesar de estar ligado ao movimento contracultural e à cultura hippie, ele é muito alinhado ao hinduísmo tradicional conservador, dado a adesão à dieta sattvik (vegetariana sem cebola ou alho), ao celibato antes do casamento e a um certo tipo de comportamento moral (não beber, fumar ou usar drogas).

Gostaria de ver uma versão Shakta (ou culto à Deusa) disso, embora eu esteja convencido de que não tenho conhecimento e habilidade para fazê-lo. Especialmente devido ao fato de que eu não sou um iniciado de qualquer tradição Shakta.

Recentemente, tive uma troca de e-mails sobre Shakta Tantra e Paganismo com Chandra Alexandre, mulher ocidental praticante de tantrismo hindu e fundadora do Sharanya (um templo voltado para o culto à Kali na California). Ela tem muita experiência em ensinar o tradicional Kali Shakta Tantra para um público ocidental. Eu a encontrei pela primeira vez quando fui a um Kali Puja que ela conduziu no PantheaCon[1] alguns anos atrás.

Perguntei-lhe sobre a viabilidade da minha ideia. Ela disse:

“A verdade dessa questão, dada minha experiência de quase 20 anos liderando esse trabalho, é que, embora seja um caminho poderoso e potente, é um caminho muito difícil para as pessoas aqui ficarem. Muitos ocidentais querem uma solução rápida, uma saída ou um conjunto de soluções que podem usar quando queiram. Conheço muitos pagãos, por exemplo, que simplesmente adotam Kali quando querem fazer um ritual de limpeza ou usam Ela para assumir raiva, ao invés de lidar com a raiva deles para corrigir problemas sociais ou pessoais. É deplorável e fico muito chateada quando ouço coisas assim. Ela é uma Deusa viva – e parece que muitas pessoas realmente não têm ideia do que isso significa. Além disso, ela não é particularmente conveniente e as pessoas mais modernas hoje querem conveniência. Eles querem os deuses sem o contexto e, portanto, eles apropriam, usam, degradam e desrespeitam a religião e cultura da Índia Hindu. Dê-lhes mais e eles acham que é muito confuso, muito trabalho, muito estranho, e assim por diante.”

Totalmente não surpreso de maneira alguma. Desolado. Mas não surpreso.

Este é o argumento do movimento politeísta: muitas vezes, muitos pagãos não acreditam na realidade dos deuses. As divindades são vistas casualmente. Eles são vistos como um meio para um fim. Não há desejo de mudar a própria vida para servir ou conhecer os nossos Sagrados Poderes.

É triste, para mim, ver esta Deusa viva, que foi adorada consecutivamente por centenas e centenas de anos, ser tratada por pessoas brancas como um acessório. Ela é tratada como algo a ser usado e depois descartado. Quase como a nossa sociedade vê o planeta e seus recursos naturais.

Teologicamente, eu tenho pouco em comum com os monásticos ou com os devotos religiosos, mas tenho um profundo respeito pela forma como eles vivem suas vidas em torno de sua adoração e de seu Deus. É difícil fazer isso em nossa sociedade. Não só estamos inundados com as vozes de propagandas desgastadas em toda parte tentando nos fazer comprar mais coisas, opiniões da internet, mas também com a ideia tóxica e materialista da sociedade geral de que nossos deuses não são reais.

Caramba, mesmo em nossas próprias comunidades pagãs, às vezes somos ridicularizados ou criticados por levar nossa religião a sério. Por agir como se nossos deuses fossem reais (porque são). Como se isso fosse uma coisa horrível…

Em algum momento eu espero escrever um longo post sobre como nossos egos entram no caminho da devoção (quer para ser postado aqui ou na minha coluna Into the Mystic no PaganBloggers[2]). É um problema em nossa sociedade mais ampla e um problema ainda maior em nossas comunidades religiosas pagãs. Quando se torna tudo sobre o que queremos, o que nós escolhemos, o que desejamos, não é mais sobre os deuses.

Nós nunca seremos capazes de abolir completamente o ego, mas podemos nos orientar para longe dele e para perto dos deuses. É aqui que as religiões tradicionais são melhores do que as religiões modernas. Elas muitas vezes enfatizam a oração regular e/ou meditação. Vamos voltar à imagem do monástico em sua cela. Sua vida é construída em torno da oração (tanto comunal como individual) e trabalho. Esse pode ser um ideal que a maioria de nós nunca poderá alcançar, realmente… mas há uns modelos mais mundanos. Há o oblato, um não-monástico que vive no mundo, mas está associado a uma comunidade monástica. Eles fazem votos e têm horários regulares de oração, muitas vezes em comunidade.

Podemos fazer algo assim.

Quando o Neopaganismo começou a se desenvolver, nos anos 60 e 70, ele era frequentemente associado com a contracultura e muitas vezes procurava afastar-se o mais longe possível da estrutura, da disciplina e dos valores tradicionais (ou mesmo das práticas religiosas tradicionais como a oração)… celebrando o hedonismo e o eu individual.

Décadas após isso, estamos ficando mais velhos. Estamos crescendo. Alguns de nós estão procurando algo mais profundo. Desejamos conhecer os deuses. Para fazer isso, precisamos desenvolver uma estrutura. Precisamos desenvolver a disciplina. Precisamos ter uma vida de oração ativa e um foco na moralidade para ter um relacionamento com o Divino. Todas as coisas que afastaram os hippies da religião tradicional.

Ainda podemos ter o feminismo, o foco no ambientalismo, os direitos LGBT, os valores… mas se tivermos um compromisso profundo com o Divino, teremos que nos afastar de ser hedonistas ou materialistas. Nós vamos ter que fugir, mesmo que só por um pouco, de nosso ego e seus desejos insaciáveis, suas tagarelices sem fim, seus medos, suas preocupações, suas distrações.

Este é o Neopaganismo que se desenvolveu ao longo dos anos. Quando confrontados com uma antiga religião de culto à deusa com foco na justiça social e feminismo, eles têm dificuldade em aceitar a realidade desta Deusa, de Maa. É muito mais fácil falar nela como um arquétipo. É muito mais fácil ir a um Puja porque você pensa totalmente que Kali é tipo “fodona e emponderadora” e então voltar para a sua vida cotidiana regular e chamar a si mesmo de devoto, do que ser confrontado com a ideia de que você está lidando com um antigo ser real com seus próprios desejos e que você não pode apenas a invocar ou chamar quando você precisa de algo.

Precisamos transformar nossas vidas e orientá-las em torno de nossas Deidades, em vez de nossos egos.

Eu não sou iniciado, então eu não posso estudar Sri Vidya de uma forma tradicional, mas eu estou pensando que talvez eu possa começar como um tipo de oblato em um grupo dedicado à adoração de Sri Lalita Devi.

[1] Conferência anual de Paganismo realizada em San Jose, Californa, EUA.

[2] Link para a coluna: http://paganbloggers.com/intothemystic/

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2 comentários Adicione o seu

  1. Jonatas disse:

    Eu acredito que a divindade também compreende as limitações de seus devotos. Estou treinando para ser um sacerdote de Anubis, fiz o processo de divinação dos pais divinos na Kemetic orthodoxy, mas não consigo abarcar todas as cerimônias egípcias. Então eu tenho minha própria disciplina, minhas orações diárias, minhas meditações e purificações voltadas para Ele, que se adaptam a minha realidade. Creio que se a divindade quer o seu serviço ela vai prover seu treinamento, basta você ter força de vontade de seguir em frente.

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