Vozes do Paganismo #3: entrevista com a reconstrucionista helênica Alexandra Nikaios

Iniciando o mês com mais uma sessão da coluna Vozes do Paganismo, dedicada a entrevistas com pagãos brasileiros de diferentes orientações. Hoje vamos acompanhar as impressões e opiniões de Alexandra Nikaios, praticante do Reconstrucionismo Helênico. Com formação em Psicologia e Letras, Alexandra desempenha um trabalho desde 2003 à frente do portal RHB – Reconstrucionismo Helênico no Brasil (para saber mais sobre, recomendo que acesse o link). O portal é dedicado ao estudo da religião helênica, com diversos artigos sobre práticas religiosas, deuses, ética, festivais sagrados, entre outros temas, servindo como uma importante fonte para quem busca a religião. Além disso, o RHB também oferece um “Programa de Educação Básica“, que funciona como um núcleo de estudos iniciais sobre Hellenismo.

Vamos à entrevista!

Para você, o que é o Paganismo?

O termo paganismo remete a ‘pagus’ (distrito rural, em latim). Nós helenos costumamos dizer que não somos propriamente pagãos, uma vez que temos uma abordagem mais de ‘pólis’ (cidade, em grego), e um calendário mais baseado na religião civil do que nas estações agrícolas, embora elas também estejam presentes nos festivais. Além disso, o termo latino ‘pagus’ tinha esse sentido campestre na época de Virgílio, mas – na época dos escritores galileus Tertúlio e Prudêncio e do escritor judeu Filástrio – o termo ‘pagão’ começou a ser usado para descrever pessoas corrompidas e impuras. O imperador Juliano tentou corrigir isso descrevendo a crença dos que acreditavam no panteão dos deuses helênicos com outro nome diferente do paganismo (no caso, Hellenismos), porque a base cultural na qual os deuses gregos são cultuados se insere em um sistema de crenças que não é nem pagão nem romano nem judeu nem galileu. Mas nós costumamos deixar as pessoas livres para se definirem com seus próprios termos, caso se sintam mais identificados a se denominarem pagãos. Até porque muitos entendem o paganismo como sinônimo de politeísmo ou de animismo, e não nesse sentido original.

Como você chegou até o Paganismo? Poderia descrever um pouco de sua caminhada espiritual até aqui?

Comecei lendo sobre mitologia, sendo que já estudava astrologia e afins, então acabei descobrindo que ainda existiam pessoas que cultuavam os deuses e me informei sobre isso. Na época não encontrava nada em português sobre o reconstrucionismo helênico, eu primeiro descobri grupos americanos e mais tarde gregos. Por conta da língua, absorvi mais coisas dos americanos (era professora de inglês). Já havia passado pelo cristianismo, rosacrucianismo, xamanismo etc, e estudei um pouco dos panteões celta e nórdico e hindu, mas me ressoava mais o helênico mesmo. Até nas viagens xamânicas e nas minhas práticas de yoga costumava ter visualizações com os deuses gregos. Traduzindo as coisas que encontrava é que comecei a montar o site dos helenos, em 2003.

De que forma você vive o Paganismo no seu cotidiano?

Preces e ritos em momentos específicos, atitudes que condizem com a ética helênica, observação dos festivais do calendário, e a busca pelo autoconhecimento, a moderação, o equilíbrio, e a excelência na virtude.

Como você enxerga a comunidade religiosa a qual você pertence, isto é, de politeísmo helênico, no Brasil? Considera que o seu desenvolvimento se deu de forma positiva? Teria algo ainda a ser aperfeiçoado?

Gostaria que houvessem mais pessoas à frente da comunidade, para não ficar tanta responsabilidade nas mãos de poucos, mas o reconstrucionismo exige muita leitura e senso crítico, então nem todos estão dispostos a se dedicar. Sempre há algo que podemos fazer a mais, uma dessas coisas estamos sanando desde que começamos com a educação básica para membros (EBM), conduzida pelo Thiago.

Como você enxerga a comunidade pagã brasileira, de forma geral?

O neopaganismo surgiu numa década de contracultura, em que se procurava muito a liberdade e o hedonismo, mas depois de tantos anos fomos percebendo a necessidade de se voltar com certa disciplina e coisas tradicionais (como a prece). Quando o reconstrucionismo se volta ao estudo das fontes e a um certo estoicismo no sentido de buscar a serenidade, não é por esnobismo, é por estarmos procurando algo mais profundo: conhecer os deuses, ter um relacionamento com eles, e não um afastamento total das estruturas e de certos valores existentes até aquela década. Claro que combatemos os preconceitos de gênero, raça, orientação sexual etc, por isso estamos reconstruindo e não revivendo. Os outros ramos do paganismo, como alguns ecletismos exagerados em termos idiossincráticos (de fazer tudo de uma forma muito pessoal e solta, sem fundamentação), talvez devessem repensar essa questão, afinal toda tese (tradicionalismo) quando encontra uma antítese (contracultura) deveria gerar uma síntese equilibrada dessas duas coisas.

Para você, qual é a importância do resgate de crenças étnicas, politeístas e/ou animistas no contexto atual em que vivemos?

Quando o cristianismo surgiu, ele mesmo era uma espécie de contracultura. Os cristãos não desejavam reconhecer os deuses ancestrais e viraram as costas para as tradições da antiguidade que mantiveram o estado seguro por incontáveis milênios. Nisso, muito erro aconteceu de ambas as partes, os pagãos desonraram os deuses e depois os cristãos foram ainda mais cruéis do que os romanos quando estavam no poder. Então os deuses começaram a voltar, pois o foco do poder nestas últimas décadas mudou. Estamos aprendendo a viver juntos e a tentar compartilhar o poder. As crenças politeístas pregam de uma forma bem mais pacífica e honrada a questão das virtudes do amor, da comunidade, da justiça, da piedade, do altruísmo etc, pois não matavam ou obrigavam ninguém a cultuar as mesmas deidades que as suas, e sim a seguirem o que estiver de acordo com seu próprio coração. Quanto mais gente age assim, acredito que mais fazemos os deuses se reaproximarem do mundo e mais acabamos por sentir a presença deles, pois essas virtudes sagradas ressoam nas nossas vidas e melhoram o planeta como um todo.

(Observação: a pessoa na imagem que ilustra esse post não é Alexandra Nikaios; a imagem é meramente ilustrativa)

© Dannyel de Castro

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