Neopagão? Pagão? Politeísta? Étnico?

Uma das questões controversas existentes dentro do atual movimento que visa resgatar antigas práticas religiosas, geralmente pré-cristãs, é com relação à nomenclatura adotada. O movimento é comumente designado como Neopaganismo, ou Paganismo Contemporâneo. O termo “neopaganismo” é utilizado para caracterizar o renascimento do paganismo nos tempos atuais, com o prefixo “neo” identificando a natureza contemporânea dessas práticas religiosas em face ao resgate de religiões do passado, as quais os neopagãos acreditam que estão reconstruindo. Em uma recente tese de doutorado, o cientista da religião brasileiro Celso Luiz Terzetti Filho (2016), explica que também é comum vermos, no interior do movimento, as pessoas se referindo a ele como simplesmente “Paganismo”. Uma diferenciação substancial, nesse sentido, pode ser aplicada, com o termo “paganismo” (com “p” minúsculo) indicando a origem clássica da palavra e o termo “Paganismo” (com “P” maiúsculo) designando a religião moderna (TERZETTI FILHO, 2016). Na recente tradição de estudos sobre essas expressões religiosas em países estrangeiros consagrou-se o uso do termo “Paganismo Contemporâneo” (Contemporary Paganism), muito em função de o periódico científico The Pomegranate: The International Journal of Pagan Studies incentivar o seu uso.

Por outro lado, se os acadêmicos destinam tais termos para categorizar todas as práticas religiosas que possuem em comum o resgate de antigas religiões pagãs (aqui inclusas a Romuva, a Wicca, o Druidismo, a Rodnoverie, a Religio Romana, a Ásatrú, o Hellenismo, entre outras), alguns adeptos dessas fés não veem a si mesmos como parte do Neopaganismo, ou Paganismo Contemporâneo. Esse é o caso, principalmente, de seguidores dos movimentos que possuem expressividade na Europa Central e no Leste Europeu. Recentemente, em uma carta aberta escrita pela organização helênica Supreme Council of Ethnic Hellenes (YSEE), direcionada ao governo da Lituânia, em apoio ao pedido de reconhecimento da Romuva como religião tradicional pelo Estado lituano, seus membros dizem que:

“Assim como a religião étnica helênica, a Romuva não é, de modo algum, um ‘movimento neopagão’ ou um ‘novo movimento religioso’. Pertence à categoria de religiões que os Estudos Religiosos dos últimos 150 anos denominam ‘étnica’ e ‘indígena’”.

Para tal afirmação, explicam que essas religiões são étnicas e indígenas porque baseiam-se em antigas tradições e seus valores e símbolos, transmitidos de geração para geração através dos costumes, canções, folclore, etc.

O que os estudos de religião, e mais especificamente, as Ciências da Religião (campo que possui autoridade no tratamento epistemológico das expressões e fenômenos religiosos), têm realmente a dizer sobre isso?

Nos dois casos citados a partir desse exemplo, Romuva e Hellenismo, é possível afirmar que tratam-se de movimentos reconstrucionistas, pois buscam reviver as tradições religiosas bálticas e helênicas, respectivamente, da forma mais fiel possível ao modelo original, apoiando-se firmemente na historicidade. São, contudo, movimentos iniciados nas primeiras décadas do século XX, apesar de a Romuva reivindicar uma relação de continuidade com o passado pré-cristão, afirmando que é possível acessar um conteúdo espiritual pagão em canções populares lituanas, o que os ligaria diretamente ao século XIII da era comum, ano da cristianização da Lituânia. Basicamente, se não há continuidade direta com tradições anteriores à cristianização, não há como o movimento ser caracterizado como étnico ou indígena, e sendo ele iniciado no século XX, é um Novo Movimento Religioso – pelo menos aos olhos das Ciências da Religião. Ou seja, ambos são movimentos religiosos neopagãos.

Essa não é a primeira vez que vemos essa discussão ser tomada por um movimento religioso pagão contemporâneo. A Wicca, quando surgiu, reivindicava ser a “antiga religião”, ou o culto religioso mais antigo do mundo, com seus adeptos afirmando que na pré-história havia uma prática religiosa centrada na figura da Deusa e seu consorte, o Deus; eles estavam apoiados em teorias trazidas por alguns estudiosos entre fins do século XIX e início do XX, mas que logo depois foram descreditadas pela comunidade acadêmica. Em 1999, o historiador britânico Ronald Hutton publicou a obra “The Triumph of the Moon”, na qual traz incontáveis argumentos que rompem com essa ideia e situam a Wicca como um Novo Movimento Religioso, mais especificamente criado entre as décadas de 1940 e 1950, por um ocultista britânico que possuía diversas influências em sua bagagem espiritual.

O que estou tentando elucidar com esse texto, apoiado nas categorizações acadêmicas dos estudos de religião, é que somos todos parte de algo novo, tão novo que sem um dos principais elementos da modernidade – a ciência –, talvez não fosse possível existirmos de forma plena. Se conseguimos olhar para as tradições religiosas ancestrais e buscarmos conexão com seus ensinamentos e práticas hoje, isso se deve principalmente pelo avanço de pesquisas sobre os povos antigos. Não vejo problema em admitir que somos parte de um movimento contemporâneo. É claro que o termo “paganismo” possui alguns problemas, mas historicamente consagrou-se com seu uso designando as religiões da Terra (especialmente no que diz respeito às de origem europeia). O termo “politeísmo” também é válido, mas não pode ser utilizado para caracterizar um movimento religioso (Paganismo Contemporâneo), pois faz referência a um modo específico de crença (a crença em vários deuses); da mesma forma que “monoteísmo” não é um termo capaz de designar um grupo religioso. Mas, é claro, essa é apenas uma visão pessoal sobre o caso, que, diga-se de passagem, está aberto a diversas outras interpretações e longe de ser encerrado.

Referências:

HUTTON, Ronald. The Triumph of the Moon: a history of modern pagan witchcraft. Oxford: Oxford Univeristy Press, 1999.

TERZETTI FILHO, Celso Luiz. A Deusa Não Conhece Fronteiras e Fala Todas as Línguas: um estudo sobre a religião Wicca nos Estados Unidos e no Brasil. Tese (Doutorado em Ciências da Religião). PUCSP, São Paulo, 2016.

(Observação: essa foi uma reflexão desencadeada e inspirada por uma postagem do professor Chas Clifton, pesquisador das expressões do Paganismo Contemporâneo)

© Dannyel de Castro

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1 comentário Adicione o seu

  1. Lia Domingues disse:

    Excelente abordagem.
    Deixando a emoção de lado para analisar de forma científica e objetiva.
    Parabéns!

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