Politeísmo Mexica: caminhando nos passos dos astecas

Texto escrito por Merit Sutekh Sat-Ma’at e traduzido para o português por Dannyel de Castro, com autorização da autora. Link para o post original: https://satmaat.wordpress.com/2017/07/09/walking-in-the-footsteps-of-the-aztecs-mexica-polytheism/

 

Fiquei muito empolgada ao saber que existe realmente um caminho de reconstrução pagã para o politeísmo mexica ou “asteca”. Ao saber sobre isso, imediatamente pedi uma entrevista.

Angel Rivera Rubio é um seguidor da revitalização da religião asteca e foi muito gentil em responder minhas perguntas sobre sua prática religiosa. Ao falar sobre os astecas, os primeiros pensamentos que surgem tendem a ser coisas como construções do tipo pirâmide, um monte de teorias de conspiração e sacrifício humano. Mas é claro que há muito mais a dizer sobre a cultura Nahua mesoamericana.

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Ruínas astecas, Wikimedia Commons, Foto: Rationalobserver

O que mais me fascina é o fato de que os politeístas mexicas se veem em dívida com os deuses. Enquanto a maioria dos pagãos de orientação europeia buscam enfatizar sua recusa em adorar e curvar-se aos deuses de maneira semelhante à forma cristã, os politeístas astecas reconheceram completamente uma dívida mítica criada pelo auto-sacrifício dos deuses, a qual devem cumprir para salvar a Terra e toda a vida que nela existe de uma espécie de Armagedon. Então, obviamente, o politeísmo mexica exige uma grande ênfase na devoção.

Um dos mitos da criação, a lenda dos sóis, descreve a criação de cinco sóis representando uma era, governada por uma deidade particular e habitada por seres particulares. Os primeiros quatro terminaram em uma paisagem desastrosa, enquanto o quinto representa a era atual e é habitada pela humanidade e pelos seres conhecidos por nós. A razão pela qual esta era ainda está em curso é uma deidade menor que se sacrificou em um incêndio para dar força e vida ao sol. Consequentemente, outras divindades agora têm que se sacrificar para manter os ciclos do sol. Assume-se que este mito poderia ter servido de motivação para a prática do sacrifício humano. É claro que o sacrifício humano não está sendo praticado hoje em dia, mas os seguidores da religião nahua ainda reconhecem sua dívida e honram o ato de auto-sacrifício divino dentro de seus ritos.

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Dança mexica em Ixcateopan. Adepto dançando perto do túmulo do último Imperador asteca Cuauhtemoc, Wikimedia Commons, Foto: Claudio Giovenzana

A conquista espanhola eliminou muitas memórias das culturas mesoamericanas. Os conquistadores espanhóis sentiram que era seu dever sagrado extinguir a “blasfêmia asteca” e estabelecer o cristianismo na Mesoamérica. Ainda não está claro o quanto das histórias de terror sobre a religião asteca é em grande parte exagero espanhol ou prática autêntica antiga. No entanto, uma coisa certamente não pode ser negada, os astecas foram uma civilização fascinante e avançada, absolutamente digna de aprendermos a respeito. Além de todas as peculiaridades, há muitos fatos interessantes e inspiradores sobre a cultura asteca que definitivamente são preciosos o suficiente para manter a tradição viva hoje.

Entrevista:

  1. Como descreveria o reconstrucionismo mexica em poucas palavras para alguém que nunca ouviu falar dele?

A revitalização da religião politeísta pré-hispânica dos Nahuas (dos quais os mexicas/astecas foram parte) em uma abordagem metodológica reconstrucionista.

  1. Qual é o objetivo central do reconstrucionismo mexica em sua opinião?

Bem, primeiro seria reconhecer a dívida que temos com os Teteoh (os deuses) por nos dar vida e, em segundo lugar, evitar que Tlazolli (as coisas que não estão em ordem/lugar) saiam do controle.

  1. Existe ainda uma cultura viva do politeísmo mexica no México hoje? Quantas pessoas o seguem aproximadamente hoje?

Infelizmente, o politeísmo morreu com a conquista. Há, no entanto, algumas formas sincréticas e algo no folclore que pode nos ajudar com a reconstrução dessas tradições. Já sobre o número de seguidores, eu não estou realmente certo; a julgar por algumas postagens na internet, eu diria que talvez há algumas dezenas ou centenas de politeístas mexicas.

  1. Quais são os deuses principais adorados no reconstrucionismo mexica? Você pode dar alguns exemplos?

Provavelmente, as quatro Tezcatlipocas poderiam ser consideradas algumas das divindades mais importantes, pois são os criadores do mundo, são Tezcatlipoca, Xipe Totec. Quetzalcaatl, Huitzilopocht.

  1. Quais são os principais festivais ou rituais e como você celebra ou executa estes?

Eu costumo oferecer incenso e sangue (eu aperto meu dedo com uma agulha) para o Teteoh (não temos muita informação sobre o culto doméstico, por isso contamos com aproximações modernas e UPG*). *Nota do tradutor: sigla para o termo Unverified Personal Gnosis, em tradução literal “gnose pessoal não-verificada”, expressão recorrente no universo do paganismo reconstrucionista que diz respeito ao conhecimento intuitivo obtido por meio de meditação, transe e/ou viagem xamânica.

Quanto aos festivais, os mexicas tiveram dois calendários diferentes: o Tonalpohualli (o calendário ritual de 260 dias que ajuda a prever o futuro das pessoas nascidas em cada signo) e o Xiuhpohualli (o calendário “regular” de 365 dias dividido em 18 meses de 20 dias cada) e é com este último calendário que os festivais são calculados (cada mês é dedicado a uma deidade específica).

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Calendário asteca, Wikimedia Commons, Foto: Rengarajang
  1. Qual é a visão do politeísmo mexica sobre a vida após a morte?

A vida após a morte baseia-se na sua causa da morte, assim as pessoas que morrem em guerra vão com Tonatiuh (o deus do sol) e seguem-no na sua viagem durante o dia, as pessoas que morrem por causas relacionadas com a água vão para Tlalocan, onde Tlaloc (o deus chuva) governa.

  1. Muitas pessoas pensam em sacrifícios humanos quando ouvem sobre os astecas. Como você lida com este tópico sendo um reconstrucionista moderno?

O sacrifício humano foi de grande importância na religião mexica, no Nahuatl (o idioma dos astecas) os sacrifícios são Nextlaoalli (“pagando uma dívida”), à medida que os deuses se sacrificam (Nanahuatzin pulou em uma fogueira para se tornar Tonatiuh, o sol, e Quetzalcoatl deu o seu sangue para “refazer” as espécies humanas), no entanto, o auto-sacrifício também era importante, e é essa a prática que a maioria dos reconstrucionistas faz hoje em dia como forma de agradecer o Teteoh.

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Sacrifício humano em ritual asteca retratado no Codex Magliabechiano, Wikimedia Commons
  1. Muitos pagãos europeus se referem à cristianização como uma razão para a cultura pré-cristã desaparecer. Alguma coisa semelhante aconteceu com as culturas pré-cristãs mesoamericanas também? Qual é a sua visão pessoal sobre isso?

Bem, sim, a chegada dos conquistadores marcou um ponto de não retorno sobre as religiões tradicionais.

  1. Como se torna um seguidor do politeísmo mexica? Alguém pode decidir fazer parte desse movimento? Como você se tornou parte dele?

Bem, eu acho que todas as pessoas que sentem o chamado do Teteoh podem tornar-se seguidores. Quanto a como me tornei parte disso, bem, comecei a aprender sobre as tradições politeístas europeias, porém sentia uma conexão com os mexicas há muito tempo. Tornar-me um politeísta me fez perceber que o Teteoh se aproximavam de mim conforme eu me aproximava de outros deuses e, a partir desse ponto, uma coisa levou a outra.

  1. Você pode recomendar livros sobre este tópico (de preferência em inglês), caso alguém queira obter mais informações sobre esse caminho?

Bem, não há realmente livros sobre reconstrucionismo mexica, no entanto, alguns livros acadêmicos podem ajudar as pessoas interessadas em entender a visão de mundo dos mexicas:

  • The Aztecs: People of the Sun (Civilization of the American Indian), de Alfonso Caso
  • Daily Life of the Aztecs, de Jacques Soustelle
  • The Gods and Symbols of Ancient Mexico and the Maya, de Mary Millerand Karl Taub
  • The Slippery Earth: Nahua-Christian Moral Dialogue in Sixteenth-Century Mexico, de Louise M. Burkhart
  • The Myths of the Opossum: Pathways of Mesoamerican Mythology and Human Body and Ideology Concepts of the Ancient Nahuas, de Alfredo L. Austin

Para mais informações sobre o reconstrucionismo mexica, conheça o projeto em construção Huehue Tlamanitiliztli: Nahua Polytheism – Prehispanic Reconstructionism.

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