Vozes do Paganismo #5: entrevista com o sacerdote wiccaniano Tyrfang Hollydragon

Esse mês o Bosque Ancestral entrevistou Tyrfang Hollydragon, que é sacerdote da tradição Chlann Aisling Dè Dannan. Há pelo menos 17 anos caminhando pela senda wiccaniana, Tyrfang tem 41 anos, é professor e atua publicamente em prol do diálogo inter-religioso, inclusive dentro do Paganismo, promovendo ações que viabilizam o intercâmbio entre as diferentes espiritualidades pagãs – como, por exemplo, a organização do Dia do Orgulho Pagão de São Paulo, que divide com sua esposa, Luanin Luaetita, sacerdotisa wiccaniana.

Vamos, então, à entrevista de agosto.

Para você, o que é o Paganismo?

Essa seria uma resposta complexa, poderia escrever um texto longo sobre a origem latina da palavra e me apegar ao culto do campo em Roma, ou da forma como eu prefiro, lógico, bem longe daquela que hoje muito se apregoa no ocidente monoteísta, o paganismo seria uma coletividade de expressões religiosas que antes da ascensão do monoteísmo judaico–cristão-islâmico se praticava no mundo, incluído ai as religiões ligadas ao Estado (nos povos da Mesopotâmia, Egito, Roma, Civilizações Pré-Colombianas), religiões clânicas e tribais dos povos bárbaros (germânicos, eslavos, celtas, tártaro-mongóis, etc.), religiões animistas praticadas por povos de todos os continentes.

Mas eu estaria sendo muito negligente, até mesmo porque existem muitas expressões religiosas que transpassarão as eras e continuam sendo praticadas continuamente e não se identificam com o paganismo: as religiões hindus, zoroastristas, xintoístas, entre tantos caminhos do médio e extremo oriente assim como já ouvi de diversos lideres de religiões de matriz africanas que também não se consideram pagãs. A meu ver uma questão mais de preconceito com a palavra em si do que com ser Pagão.

Penso que ser pagão, ou atualmente trilhar caminhos que buscam assemelhar-se com o paganismo original dada as devidas atualizações inerentes às possibilidades legais, tem muito a ver com o culto aos Deuses, aos ancestrais, às forças da natureza, celebração dos ciclos e das estações como promotoras da vida e do eteno ciclo do nascer/morrer/renascer. É buscar conciliar uma vida moderna como conceitos ancestrais e colocá-los em prática, se conectando com as forças visíveis e invisíveis ao seu redor, reconhecer a sacralidade em tudo e todos e buscar o autoconhecimento.

Como você chegou até o Paganismo? Poderia descrever um pouco de sua caminhada espiritual até aqui?

Acredito que o Paganismo chegou até mim, desde pequeno com sutilezas e quando eu cresci eu entendi o que tudo aquilo queria dizer e simplesmente mudei de caminho.

Eu era católico praticante, chegando a ser acólito e de não faltar as missas e celebrações, dizia ate que queria ser padre. Mas sempre fui muito questionador e os dogmas cristãos simplesmente não me satisfaziam. A crença religiosa era muito forte em mim, mas da maneira como ela era apresentada não me preenchia, e nunca me simpatizei com as práticas protestantes, talvez por causa do tele-evangelismo brasileiro. Não nego Jeová, mas não cultuo mais, bem simples assim.

Tive uma breve passagem pelo Kardecismo, mas foi tão breve que nem se pode dizer que era praticante, o conformismo e a aceitação não eram meu forte.

Mas desde criança eu sempre tive um apego muito grande com mitologias em geral, adorava ler qualquer coisa sobre deuses, criaturas mitológicas, os trabalhos de Hércules, Thor, Deuses egípcios, e aquilo sempre me deixou muito inquieto. Oras bolas, onde estavam aqueles deuses a quem todo mundo prestava culto e adoração e simplesmente agora eram historinhas infantis e lendas?

Nunca me conformei com isso, mesmo tendo sido cristão. Eu já tinha uns 22 anos quando tropecei em alguns livros de Wicca numa livraria Saraiva no Shopping Center Norte em São Paulo. Aquilo foi simplesmente mágico! (muito brega isso né?)

Passei a ler cada vez mais sobre o assunto e a buscar na internet (depois da meia noite porque na época era internet discada) e participar de grupos de discussão no UOL e no YAHOO.

Pratiquei aos trancos e barrancos solitariamente por uns dois anos até que conheci o Claudiney Prieto, que me convidou para um rito público no parque do Ibirapuera, uma celebração de Ostara, e aquilo foi a porta de entrada para minha vida pagã pública fora do armário das vassouras. Fui dedicado pelo Claudiney na TDB em 2002 e iniciado pela Mavesper Cy Ceridwen em 2004 como sacerdote wiccaniano, e permaneci na TDB até o começo de 2007.

Saí da TDB, e junto com minha esposa fundamos um grupo nomeado Chlann Aisling Dè Dannan, dedicado aos deuses celtas insulares e gauleses. No entanto os cultos pessoais a deuses de outros panteões nunca foram proibidos, embora nossas celebrações sejam exclusivamente dedicadas aos Deuses “celtas”. Eu mesmo dedico meu sacerdócio a dois deuses de casas diferentes e frequentemente sou criticado por isso: Thor e Brigit.

No meio desse caminho todo tive uma passagem de 2 anos pela Clareira Druídica Figueira Branca e hoje estudo com o Ramo do Carvalho, o amor pelos deuses celtas nos leva a conciliar ambos os caminhos.

Quando pedem para definir o Chlann, sempre sobram suspiros, mas somos aquilo que o caminho nos ensinou, temos sim a raiz wiccaniana em nossas práticas, celebrações, mas agregamos muito do que aprendemos e estudamos no Druidismo e na Bruxaria como um todo. Rótulos são cansativos.

O Chlann fez 10 anos esse ano e nos sentimos capazes de chamá-lo de Tradição. Ainda que sejamos discretos e não estejamos pulando pelas redes sociais atrás de atenção, temos uma família religiosa muito amada e a ideia é essa, ser uma tribo, um clã, uma grande família.

Sou coordenador junto com minha mulher, Luanin Luaetita, da Celebração do Dia do Orgulho Pagão em São Paulo, já tivemos longos anos de militância pela ABRAWICCA, mas hoje cuidamos com muito carinho desse evento anual que procura conciliar caminhos neopagãos diferentes e apresentá-los de forma clara e aberta a comunidade buscando romper os grilhões do preconceito e da discriminação religiosa.

De que forma você vive o Paganismo no seu cotidiano?

Difícil responder. Não me preocupo em separar minha vida religiosa da profissional e pessoal, está tudo integrado. Minha rede social é um espelho disso, milito defendendo causas nativas, ecológicas e sociais. Coordeno grupo de estudos dentro do Chlann, sou sacerdote 24 horas, embora às vezes a gente fique com aquela impressão de que muita gente busca em sacerdotes muletas para resolver seus problemas.

Procuro ensinar meu filho a respeitar as diferenças, a natureza, enfim tudo e todos. Minha casa é meu templo e temos altares em todos os cantos. Então fica difícil resumir, tem orações diárias, tem a preocupação geral com o mundo que as vezes eu mesmo questiono ate que ponto algo pode ser feito. A luta constante pela defesa das religiões que não são majoritárias (e faço questão disso, não sou proselitista, mas ao ajudar outros grupos estou também procurando ajudar o paganismo).

No trabalho (sou professor de história, geografia e sociologia) procuro sempre provocar questionamentos sobre importância das lutas sociais, da defesa dos direitos, da luta contra preconceito, ódio e discriminação e sempre, sempre que posso a defesa do meio ambiente, e considero isso parte do meu ser Pagão

Como você enxerga a comunidade religiosa a qual você pertence, isto é, da Wicca, no Brasil? Considera que o seu desenvolvimento se deu de forma positiva? Teria algo ainda a ser aperfeiçoado?

Bom, um ninho de mafagafos. Eu fico triste com as constantes brigas e discussões que acontecem nessa comunidade de um modo em geral, o tempo inteiro tem pessoas se atacando, gente passando por cima um do outro, gente querendo ganhar dinheiro com isso, pessoas oferecendo vantagens como se a religião fosse uma loja de conveniência.

Muita gente até confunde a religião em si com práticas esotéricas e holísticas, acreditam que basta aprender meia dúzia de técnicas terapêuticas/divinatórias e já pode se intitular de sacerdote/mestre. Isso é ridículo.

A Wicca é um caminho devocional e sacerdotal, não acredito que todos tenham vocação para o sacerdócio, tão pouco acredito que existam elderes de 20 anos. Ser um sacerdote exige dedicação, exige um ofício que dedica parte de seu tempo à comunidade e ao exercício do sacro ofício junto aos deuses e não apenas uma forma de ficar fazendo pedidos dentro de rituais onde o que importa são as conveniências de tabelinhas de analogia. Ufa. Vão me odiar por essa resposta.

Mas vejo que a Wicca no Brasil precisa amadurecer, teve um período de crescimento exponencial, surgiram e desapareceram grupos em períodos curtos demais, mas isso é natural. No entanto ainda prevalece o culto à personalidade, e não vejo a preocupação com o aprimoramento do culto aos deuses/antepassados/natureza.

É lógico que existem grupos e pessoas que se destacam, assim como eu não irei citar nomes, porque isso depois viraria uma guerra pessoal e eu não tenho a menor paciência para isso. Quem sabe o que faz, faz e pronto. Os Deuses sabem e isso é o que mais importa.

Não são poucos os que tecem um trabalho sério e importante, com grandeza e altivez no Brasil, mas aqueles que fazem besteira são suficientes para manchar o nome de nossa religião.

Como você enxerga a comunidade pagã brasileira, de forma geral?

Muito desorganizada como um todo.

Grupos criticam as práticas dos outros o tempo todo, mas de uma forma geral muito bem disposta. Nesses anos a frente da Celebração do Dia do Orgulho Pagão consegui observar uma disposição ao diálogo e a cooperação muito grande entra os diferentes caminhos, mesmo com pessoas que tenham ideias e verdades muitos diferentes entre si, na hora de cooperar e participar isso foi colocado de lado e tornou tudo muito positivo.

Não pretendo tecer críticas, porque vejo um futuro positivo, lógico que tem problemas, mas como disse uma vez, aquilo que nos une é muito maior do que o que nos separa.

Para você, qual é a importância do regate de crenças e valores antigos, politeístas e/ou animistas no contexto atual em que vivemos?

Penso que é algo fantástico, muito importante como resgate da essência do ser humano. Muitas pessoas percebem que algo falta dentro delas, que muitas respostas nunca chegaram porque as perguntas já estão prontas como receitas de bolo e essa busca por novos/velhos caminhos religiosos é uma corrente contra as falhas dessa sociedade atual.

O conformismo não é algo que satisfaz muito, hoje em dia é difícil manter todos presos em parelhas sem questionar. O que me deixa assustado é que ao mesmo tempo que as religiões antigas ressurgem e crescem as atuais e controladoras também crescem e tomam espaços de forma violenta, haja vista que a maioria das guerras no mundo envolvem disputas entre cristãos, judeus e islâmicos, e aqueles que não fazem parte desses grupos acabam sendo vítimas sem força de lutar por serem minorias (yazidis, parsis, grupos étnicos africanos, maoris, aborígenes, etc)

Também existe o contato com a natureza e a luta pelo meio ambiente que proporciona esse contato e o aumento de pessoas que descobrem os velhos caminhos e acabam aderindo pela filosofia de integração, o que é muito bem vindo e positivo.

Acho que escrevi demais.

Obrigado pela oportunidade.

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Eu que agradeço, Tyrfang!

 

© Dannyel de Castro

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