Deuses da Ibéria Celta #3: Bandua

Este texto corresponde à tradução parcial da terceira parte do artigo “Celtic Gods of the Iberian Peninsula”, de Juan Carlos Olivares Pedreño, disponível na íntegra no seguinte endereço: https://www4.uwm.edu/celtic/ekeltoi/volumes/vol6/6_12/olivares_6_12.pdf // Tradutor: Dannyel de Castro

 

Uma vez que, como foi explicado anteriormente, o esboço mais claro do panteão religioso nativo da Península Ibérica aparece na área centro-leste da Lusitânia, podemos considerar esta a área mais adequada para começar a descrição das características das diferentes divindades célticas. Isso ocorre porque uma visão geral desses deuses nos permitiria estabelecer com mais precisão as diferentes características da estrutura do panteão.

Começamos com Bandua, uma das principais deidades adoradas nesta área, cujo culto também se estendeu à Callaecia. Bandua é a versão mais tradicional de seu nome, embora Pedrero (1997: 540) tenha recentemente proposto que o nome mais provável fosse Bandu (veja também Prósper [2002: 268]). Devemos salientar que esta divindade não foi registrada em nenhuma cidade com evidências de um alto grau de romanização. Altares para Bandua estão localizados a uma certa distância dessas cidades e, em vários casos, em pequenos enclaves fortificados como o Castro do Mau Vizinho, Sul e S. Pedro do Sul, Viseu, dedicado a Bandua Oce… (García 1991: n. ° 27). Outros exemplos incluem três altares dedicados a Bandua Roudaeco encontrados perto do assentamento de Villavieja, Trujillo, Cáceres, um altar de Eirás, San Amaro, Orense na área em torno dos assentamentos de Eirás e A Cibdá muito perto de San Ciprián de Lás; (Beltrán 1975-76: n. ° 59, 60 e 61); dois achados do castelo de Vila da Feira, Arlindo de Sousa, Aveiro (Sousa 1947: 52 ss.), e um altar encontrado na colina de Murqueira, Esmolafe, Penalva do Castelo, Viseu (Alarcão 1988: 307). Associado a esses locais está o fato de que vários de seus teônimos se referem a esses tipos de assentamentos através do sufixo -briga. Exemplos são Etobrico (Ferreira et al., 1976: 139-142; Encarnação 1976: 142-146); Brialeacui (Almeida 1965: 24-25); Isibraiegui, gravado em vários altares em Bemposta, Penamacor, Castelo Branco (Albertos e Bento 1975: 1208; Almeida 1965: 19-22, 31, n. 1; Leitão e Barata, 1980: 632-633) e em Freixo de Numão, Vila Nova de Foz Côa, Guarda, (Coixão e Encarnação 1997: 4, n. 3); Longobricu, que foi gravado na área de Longroiva, Meda, Guarda, e de onde a cidade deriva seu nome (Curado 1985: n. 44); Virubrico ou Verubrico (Lorenzo e Bouza 1965: 153-154, n. 84; Taboada 1949: 55 ss.); Veigebreaego, encontrado em Rairiz de Veiga, Orense, de onde pode derivar o nome da cidade moderna (Lorenzo e Bouza, ibid .: 154-155, n. 85) e Lansbricae, de Santa Eugenia de Eirás, S. Amaro, Orense (Rivas 1973: 85-91). Este último altar foi encontrado perto de dois assentamentos, um dos quais estava em San Ciprián de Las. De acordo com Rivas, a relação entre este toponimo e o epíteto Lansbricae poderia ser reforçada pela referência em um documento de 1458 para este lugar como Laans (Rivas 1973: 91).

Ara_de_Eiras_ bandua
Ara votiva a Bandua encontrada na região de San Ciprián de Lás.

Além dos teônimos que derivam de um topônimo com o sufixo -briga, existem outros epítetos de Bandua que se referem a centros populacionais. Roudaeco, registrado em uma inscrição encontrada em Casar de Cáceres, refere-se a uma aldeia Rouda (Encarnação 1976: 144) que provavelmente estava localizada em torno da convergência dos rios Tozo e Almonte, onde, como já vimos, três inscrições dedicadas a Bandua Roudaeco foram achadas. Em outra inscrição de Sul, S. Pedro do Sul, Viseu (Vasconcelos 1905: 316), apenas uma parte do teônimo, Oce…, que Encarnação interpretou como sendo lido Ocel (ensi) ou Ocel (aeco) (1987: 20), e que poderia se referir a um topônimo, já que vários topônimos tomam essa raiz.

Para os dez epítetos que mencionam diretamente cidades com o sufixo –briga, explanados acima, devemos adicionar outros três que aludem aos assentamentos urbanos lusitanos. Além destes treze epítetos, conhecemos mais dez prováveis cujo significado é desconhecido: Apolosego, com suas formas alternativas, Arbariaico, Bolecco, Cadiego, Oilienaico, Picio, Tatibeaicui, Tueraeo, Velugo, Toiraeco e Vortiaecio (com todas as suas formas alternativas). Portanto, de um total de 23 epítetos do deus Bandua, 56,5% são derivados de nomes de lugares antigos, mas esta porcentagem diminui para 43,5% se os três teônimos mais duvidosos ligados a centros populacionais, Oce…, Saisabro e Malunrico, são excluídos. Este número é, em nossa opinião, altamente significativo e pode ser usado para fazer comparações com algumas outras áreas.

Portanto, podemos estabelecer que no território lusitano-galego, Bandua é a deidade nativa mais frequentemente citada juntamente com epítetos referentes a aldeias e pagos, de modo que se pode concluir que houve uma relação muito especial entre esse deus e as comunidades indígenas de baixo status. Em relação à grande proporção de dedicações a Bandua com epítetos que caracterizam a divindade como associada a diferentes assentamentos, existe uma ausência total de teônimos desta divindade em relação a grupos familiares, clãs ou tribais. Além disso, um grande número de epítetos de Bandua são desconhecidos, e entre eles podem ser encontrados alguns teônimos relacionados a grupos familiares; isto, é claro, não pode ser confirmado pela evidência disponível atualmente (De Hoz 1986: 41).

Ao investigar o significado religioso de Bandua, é muito importante ressaltar o fato de que nas províncias gaulesas, onde as divindades nativas estavam associadas com deuses romanos, a deidade que está mais intimamente relacionada com seus epítetos aos centros populacionais é Marte. Além disso, os teônimos indígenas deste tipo na Hispania representam 24% do número total referente a esse deus. Isso representa uma proporção bastante alta, muito diferente das percentagens registradas para as demais deidades. Esses números refletem o fato de que Bandua na Hispania e o deus indígena Marte na Gália são as divindades menos frequentemente adoradas por mulheres. Na Hispania, de todas as dedicações em que se conhece o sexo do adorador, apenas uma das 34 (3%) das dedicações conhecidas a Bandua pode ser atribuída a uma mulher, enquanto ao norte dos Pirenéus, apenas 10 dedicações (5 %) de um total de 199 inscrições para Marte foram dedicadas por mulheres (Spickermann 1994: 393). Essas figuras são muito menores em relação àquelas que temos para o resto das divindades, algo que pode ser devido ao caráter dessas deidades: eram deuses protetores das comunidades locais, aldeias e pagos (Derks 1998: 96- 97).

bandua
Provável imagem do deus Bandua achada no concelho de Bande

A polarização religiosa que pode ser identificada entre os diferentes lugares mostra uma relação direta com o status (normalmente administrativo) desses lugares. Como já vimos, nenhum teônimo de Bandua se refere a municípios ou capitais de cidades. Portanto, concentrando-se nas áreas onde a evidência desta deidade foi claramente registrada, pode-se ver que praticamente todos os achados provêm de lugares, muitas vezes aldeias, localizados relativamente longe das cidades principais e/ou mais romanizadas (Olivares 2002a : 164-166). Pensa-se que Bandua, como defensor das comunidades locais, tinha um caráter guerreiro. No entanto, com o declínio do poder político da castella e a centralização deste poder nas oppidas romanizadas, o caráter público e guerreiro e o significado de deidades como Bandua começaram a ser perdidos e esses deuses apenas mantiveram sua função de deuses protetores para as pessoas das aldeias e pagos, que agora se tornaram identificadas como grupos sociais por direito próprio. Em resumo, é em comunidades como aldeias e pagos que os habitantes nativos continuaram a confiar sua proteção às divindades de seus antepassados, enquanto que no novo município ou nas capitais das cidades as deidades guardiãs romanas tornaram-se cada vez mais estabelecidas através do patrocínio das elites nativas.

 

Continua

 

Veja aqui a primeira parte do texto, “Deuses da Ibéria Celta #1 – em busca do panteão hispânico“;

Veja aqui a segunda parte do texto, “Deuses da Ibéria Celta #2 – deidades, grupos étnicos e territórios”.

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