Celebração da Primavera entre os Celtas Ibéricos

No que diz respeito às tribos célticas que habitaram a Península Ibérica, temos pouquíssimas informações de sua religião e seus deuses. Contudo, há uma quantidade considerável de registros achados em aras votivas (datadas, principalmente, do período inicial da ocupação romana nesses territórios) que nos permite ao menos saber o nome de algumas das divindades indígenas e suas principais atribuições. Sobre isso, alguns estudiosos e pesquisadores acadêmicos têm se empenhado na investigação dos achados epigráficos, e um texto de Juan Carlos Olivares Pedreños sobre o tema está sendo traduzido por mim em diferentes seções aqui no blog.

Uma das celebrações religiosas do celtas ibéricos de que mais dispomos de informações é a da Primavera. Isso se deve ao registro da Ara de Marecos, encontrada na região de Penafiel, Porto, norte de Portugal, datada de aproximadamente 9 de abril do ano 147 da era comum (veja aqui a ficha epigráfica). A inscrição encontrada na ara cita o nome de algumas divindades indígenas e suas respectivas oferendas, em uma oferta celebrativa aparentemente primaveril.

Ara de Marecos-NABIA
Ara de Marecos

Na inscrição, os religiosos registraram o sacrifício de uma vaca e um boi à deusa Nábia, em seu aspecto soberano e elevado, caracterizado pelo epíteto Corona, assim como também a ofereceram um cordeiro, mas dessa vez mencionando o nome da deusa sem nenhum epíteto (simplesmente “Nábia“, e não mais “Nábia Corona“, como escrevem anteriormente). Essa dupla menção à deusa Nábia na inscrição é bastante interessante e não pode passar despercebida. Ao rogarem por Nábia Corona e lhe oferecerem uma vaca e um boi, os religiosos escreveram ainda que a deusa é a “Ótima Virgem Conservatriz e Ninfa dos Danigos” (tradução de Marcílio Diniz), uma descrição que invoca a face primaveril da deusa, isto é, de Nábia como a dama da Primavera que corre pelos bosques silvestres despertando a natureza e todos os seres após o Inverno, mas que também se mostra como elevada, coroada, soberana, do alto dos montes e montanhas (associada também ao céu e fertilidade de origem celeste). Já a menção ao sacrifício de um cordeiro apenas para Nábia, sem a adição de epítetos, parece ser uma reverência à deusa em sua totalidade, a divindade em si, englobando todos os seus epítetos e diferentes atribuições; aqui, cabe lembrar, Nábia é descrita como uma deusa triforme, e sua polifuncionalidade pode ser resumida pelas suas três faces, “Nábia Corona”, “Guardiã da Tribo” e “Nábia das águas” (Barbosa, 2016).

Outra divindade mencionada na Ara de Marecos é Júpiter, deus supremo dos romanos. Como já vimos em um outro texto, o sincretismo entre divindades célticas e romanas foi um processo natural após a invasão romana no território ibérico. O deus celta galaico Reue, associado ao céu, ao alto das montanhas, às chuvas, trovões e também aos rios, foi identificado como Júpiter na interpretatio romana. Na inscrição, os religiosos registraram que foram sacrificados um cordeiro e um vitelo (bezerro) ao deus. Uma outra divindade também é mencionada na inscrição, a deusa Lida (ou Ida), possivelmente associada também à primavera, a qual o objeto ofertado foi uma coroa (provavelmente de flores). A inscrição menciona ainda a data dos sacrifícios – V APR(ilis) – que poderá fazer referência ou ao dia 5 de abril, ou ao quinto dia dos idos de abril (pelo calendário romano), isto é, o dia 9 de abril. Ou seja, a oferta celebrativa não foi realizada exatamente na ocasião do Equinócio de Primavera (que no hemisfério norte ocorre entre 21 e 23 de março), mas alguns dias depois, o que poderá estar relacionado ao calendário lunar, observado pelos celtas galaicos.

A relação de Nábia e Reue com a primavera no universo celta galaico parece perfeitamente cabível. Ambos são deuses de muita importância na religião desses povos, com Nábia sendo como uma “grande mãe”, e Reue sendo “o deus celeste”. Sendo assim, a deusa e o deus possuem participação fundamental na fertilidade dos campos e pastos, sendo responsáveis por assegurar que as sementes germinem, cresçam e tragam fartas colheitas para a tribo. Nábia foi ainda relacionada à deusa Diana pelos romanos, devido ao seu aspecto de ninfa e protetora dos bosques e da natureza como um todo. Além disso, uma das relações fundamentais atribuídas à deusa é a regência de rios e ribeiras, o que faz dela também uma deusa nutridora e fertilizadora. Já Reue rege as águas celestes, as tempestades que caem do céu para fertilizar a vida na Terra (mas que também provocam inundações e demais catástrofes). Ambos, Reue e Nábia, são também relacionados ao alto das montanhas e ao próprio céu, o que evidencia suas condições de elevados e soberanos. É possível, inclusive, que formem uma espécie de casal divino, mas a falta de um corpo mitológico não nos permite afirmar isso com precisão. O que me parece claro e evidente é a função das duas divindades, conjuntamente, na renovação da natureza na Primavera.

(Observação: todas as fontes consultadas foram citadas ao longo do texto)

© Dannyel de Castro

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