Vozes do Paganismo #6: entrevista com a druidista Jully Basilio

Esse mês a coluna Vozes do Paganismo está de volta ao Bosque Ancestral, e iniciaremos uma série de entrevistas com praticantes do Druidismo, vertente pagã dedicada ao resgate das práticas religiosas dos antigos celtas.

Para começar, conversei com a Jully Basilio, autora do portal “Chamado de Morrigan”, que envolve um blog, uma página do Facebook e um canal no YouTube, onde são divulgados diferentes conteúdos sobre paganismo e espiritualidade celta (deixo os links no final do post). Jully tem 26 anos, mora em Mogi das Cruzes/SP, trabalha como desenvolvedora front end, e atualmente integra o grupo druídico Caer Saille, de São Paulo.

Vamos à entrevista! Espero que gostem 😉

Como você chegou ao Paganismo? Poderia descrever um pouco de sua caminhada espiritual até aqui?

Olá Dannyel, primeiramente agradeço pelo convite.

Meu caminho dentro do paganismo
começou bem cedo. Quando criança, eu mantinha contato com a natureza e com animais de forma bastante intensa. Como toda criança, eu imaginava muitas coisas e criava diversas histórias. Meu quintal, que era cheio de árvores, eu chamava de floresta e lá eu era a bruxa rainha rs. Mas sempre foi tudo na brincadeira, eu não tinha noção de espiritualidade. Mas certamente, foi algo que me marcou e que me levou a buscar uma religião que tivesse contato com a natureza. Aos 11 anos, comecei a me interessar pela Wicca. Na época, eu não tinha conhecimento de nenhum outro caminho pagão, então quando a conheci fiquei extremamente encantada. Fiz amizade com uma senhora que era bruxa solitária, ela se apelidava de Morgana e seu nome era Enerstina Pasquali. Sinto muitas saudades dela. Ela me ensinou muita coisa durante anos. Mas, aconteceram coisas que acabaram me afastando do caminho pagão por alguns anos (eu conto isso num vídeo, lá no canal). Aos 22 anos eu decidi voltar ao paganismo. Comecei a estudar a Wicca novamente. E eu sempre fui apaixonada pelos celtas e em minhas
pesquisas acabei encontrando o site “Templo de Avalon”, da diva Rowenna e ali eu descobri o druidismo. Foi amor à primeira vista. Me identifiquei logo de cara e decidi que queria seguir aquele caminho, pois a Wicca não contemplava mais aquilo que eu buscava. Então, entrei em contato com a Rowenna e ela me indicou o Ramo de Carvalho. E foi lá que minha jornada druídica se iniciou, em 2013. Foi uma caminhada muito boa e de muitos aprendizados. Conheci pessoas incríveis que levarei comigo para toda a vida. Mas como tudo é um ciclo, essa jornada se encerrou este ano, 2017, para que uma nova jornada se iniciasse. E então surgiu o Caer Saille, formado por mim, Juju, Lívia e Lúthien. Estamos com diversos projetos em mente e com mil idéias para florescer a espiritualidade céltica cada vez mais.

No portal “Chamado de Morrigan” fica evidente a sua estreita relação com a deusa Morrigan. Como se dá sua relação com Ela? Como você a conheceu e porque a adotou como
matrona?

Eu costumo dizer que se estou viva e em pé hoje é por culpa da Morrigan rs. Minha relação com Ela é extremamente íntima. De amizade, parceria, ensinamentos. Eu a conheci, de verdade mesmo, no meio de uma crise de depressão. Eu havia chegado num ápice de dor e sofrimento. Estava trancada em meu quarto, no escuro, chorando, em pleno desespero. Fechei meus olhos e comecei a clamar pela morte. Era só isso que eu queria: me deitar e morrer em paz. Então, no momento em que fechei minhas mãos em meu pescoço, numtentativa obviamente vã de me enforcar, eu sumi dali. Quando eu vi, eu estava num local que parecia um vale, tinham algumas pedras montadas, era noite e eu a vi ali parada em minha frente. Ela me disse coisas que eu não imaginava ouvir. Eu conto um pouco dessa experiência no meu blog também, no texto sobre Morrigan. Depois que ela disse tudo, ela me abraçou de tal forma que senti meu
corpo inteiro vibrar e estremecer. Então ela se transformou em corvo e levou embora tudo que estava me matando por dentro. Quando eu abri meus olhos, eu já não estava chorando, estava leve, sentindo paz e vontade de viver. Desse dia em diante. nunca mais tive crises de depressão
como essas que tinha. Obviamente, não sou a pessoa mais feliz do mundo em todos os momentos, a vida é feita de momentos difíceis também, mas certamente, hoje eu tenho um porto seguro. Hoje tenho com quem contar nesses momentos diİceis. Tenho quem me pegue no colo e me console quando preciso, mas que também me bate quando é necessário. Lidar om Morrigan não é tão diİcil quanto pintam, mas também não é brincadeira. Portanto, costumo dizer que ela me adotou e não o contrário. Pois, no momento em que mais precisei, foi Ela quem me estendeu a mão e me tirou do buraco fétido em que eu me encontrava. Então o canal no youtube, a página no face e o blog eu vejo como formas de retribuir de alguma forma o que Ela fez e faz por mim.

Em um dos vídeos do seu canal, você menciona que concilia dois caminhos, Druidismo e Bruxaria; poderia falar um pouco aos leitores do blog sobre como você vivencia essa prática?

Na época em que gravei este vídeo, eu praticava a Bruxaria Sabática junto com um amigo querido que me ensinava a prática. Por um bom tempo eu levei os dois caminhos em conjunto, mas este ano me desliguei dessas práticas, para focar mais na espiritualidade céltica. Mas, ainda em minhas práticas particulares eu uso diversas coisas oriundas de práticas de bruxaria, como o uso de cristais, alguns tipos de feitiços, técnicas de transe, uso de alguns objetos que não necessariamente fazem parte das práticas druídicas e etc. O que eu não falei abertamente ainda é que atualmente faço parte de um terreiro de Umbanda. Muitas pessoas me perguntam como consigo conciliar, mas pra mim é bastante fácil e flui bem naturalmente. Apesar de serem
tradições e práticas diferentes, há diversas coisas que se conciliam e se casam. O que me levou a buscar a Umbanda, foram as “incorporações espontâneas” que começaram a acontecer. Como o Druidismo, no geral, ainda não está preparado para lidar com isso, decidi procurar o terreiro para buscar respostas e aprender com quem sabe o que faz. E está sendo uma experiência maravilhosa.

Para você, qual a importância do resgate das antigas crenças pagãs no mundo em que vivemos?

Quando a gente resgata as crenças antigas, estamos resgatando também a nossa origem. A nossa história, a sacralidade da vida e da natureza. Eu acredito que no paganismo podemos encontrar a cura para nós e para o mundo, pois, vivemos atualmente numa sociedade doente de espírito e focada no mundo material, então se pudermos espalhar um pouco de equilíbrio, através de nossas práticas e forma de ver a vida, acho que já é um bom começo.

Como você vive o paganismo no seu cotidiano?

O paganismo é o ar que eu respiro, é a água que eu bebo, é o Sol que me banha de manhã, é a chuva que molha meus pés, é a árvore que gentilmente me oferece sua sombra, é o vento que alivia o calor, é o calor que aquece o corpo e a alma, é o sono que me regenera, é o alimento que me fortalece, é o amor que me motiva, é a lágrima que escorre pelo rosto, é o arrepio na nuca quando a Divindade se aproxima, é a terra que eu piso com pés descalços, é a nuvem em formato de cervo, é a cachoeira que me lava e é o mar que me abraça com suas ondas.

Eu vivo o paganismo em todos os momentos da vida. Não vejo apenas como um conjunto de práticas e crenças, mas como um estilo de vida, uma forma diferente ver e sentir o mundo que torna tudo em volta mais inspirador. É basicamente o que me move.

O que achas da comunidade druídica brasileira?

Eu acho que a comunidade druídica ainda é um pouco complicada. Um dia se amam, outro dia se odeiam. Mas, apesar dos pesares, eu tenho visto muita gente nova e dedicada surgindo no meio. Isso é lindo, pois mostra uma outra face dessa comunidade. Mostra que ainda há esperanças e que ainda vale a pena estar no meio dela. Eu já pensei diversas vezes em me isolar de todos e viver meu caminho de forma solitária. Mas, graças a algumas pessoas maravilhosas que encontrei no caminho, permaneço firme e forte, contribuindo da forma que posso.

Existe algum tema que você veja como polêmico, ou mesmo como tabu, dentro do Druidismo brasileiro?

Vários, mas certamente nenhum é mais polêmico do que “incorporação/canalização” de divindades e entidades. Esse assunto já rendeu diversas tretas e dores de cabeça. Há algumas pessoas que não gostam nem de citar o assunto. Não estão preparados ou interessados em falar sobre. Fingem que nada está acontecendo, quando na realidade já houveram diversas manifestações, mas a maioria prefere criticar, julgar, abafar o caso, ou pior ainda, zombar com piadas infelizes. Mas, apesar de tudo, entendo que o medo causa esse tipo de reação. Isso não significa que toda a comunidade druídica deva ser adepta desse tipo de manifestação. Cada bosque possui suas práticas eseu conjunto de crenças e é isso que torna a espiritualidade céltica linda. O que não dá é pra ficar inspecionando e zombando da prática do amiguinho, né? Esse e outros assuntos em alguns outros grupos são tratados como tabu, mas no Caer Saille não temos isso. Prezamos pela liberdade de expressão e manifestação, e exploramos de mente aberta tudo que a Espiritualidade tiver para nos oferecer.

Quais tipos de iniciativas você gostaria de ver no paganismo brasileiro?

– Uma atividade maravilhosa que começou a ser desenvolvida pela Ordem Walonom, é o “Rodas de Druidismo”. Seria muito legal que esse projeto se espalhasse por todo o Brasil e até pra fora. Coisas assim ajudam a nos dar visibilidade e é disso que precisamos nesse momento. Precisamos ser vistos para que assim consigamos conquistar cada vez mais espaço.
– Projetos que envolvam a “cura da comunidade”, como atendimentos espirituais.

– Juntar a galera e fazer um multirão de coleta de lixo de locais naturais, ou de plantio de árvores, sabe, coisas que ajudem a natureza. Eu não vejo esse tipo de coisa acontecendo, pode ser que exista, mas eu não fiqueisabendo de nenhum.
– Ah, e ecovilas pagãs! Ai, ainda sonho com isso! hahaha

Muito obrigado pela entrevista inspiradora, Jully! 😀

Para conferir o trabalho da Jully, acesse:

Página Chamado de Morrigan

Canal Chamado de Morrigan

Blog Chamado de Morrigan

Blog do Caer Saille

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