A bruxaria anda esquecida de suas origens

por Petrucia Finkler

“Este é o Evangelho das Bruxas:

Diana, muito amada por seu irmão Lúcifer, deus do Sol e da Lua, o deus do Esplendor, que era tão orgulhoso de sua beleza, e por tamanho orgulho foi expulso do Paraíso.

Diana teve, com seu irmão, uma filha, a quem chamaram Aradia.

Diana um dia disse à sua filha Aradia:

 

E vero che tu sei uno spirito,
Ma tu sei nata per essere ancora.
Mortale, e tu devi andare
Sulla terra e fare da maestra
A donne e a’ uomini che avranno
Volentà di inparare la tua scuola

(…)Tu sarai (sempre) la prima strega,
La prima strega divenuta nel mondo (…)’”

 

Assim começa Aradia: O Evangelho das Bruxas, escrito por Charles G. Leland e publicado em 1899. No livro – que o folclorista americano acreditava ser um texto religioso genuíno usado por um grupo de bruxas pagãs da Toscana – Aradia é retratada como uma figura messiânica, enviada à Terra por sua mãe Diana, para ensinar as artes mágicas aos seres humanos. A bruxaria que Aradia ensinou teria como objetivo libertar a população oprimida do jugo da nobreza e da Igreja.

É indiferente se esse evangelho que Leland teria recebido de uma bruxa chamada Madalena é verdadeiro ou não. O fato é que essa história especificamente é o cerne de boa parte da cosmologia do surgimento da bruxaria no mundo, e Aradia é celebrada e cultuada por várias vertentes, tanto da bruxaria antiga quanto da mais moderna.

Assim, fico chocada e acho até risível quando pessoas que se dizem bruxas demonstram nervosismo e temor quando alguém menciona Lúcifer, como se essa figura luminosa e polêmica não fosse parte constitutiva de tudo a que se denomina bruxaria, como se esse nome fosse criar uma mácula e manchar a boa imagem que estão tentando construir de uma bruxaria que é toda fofa e vê seus membros com lentes cor-de-rosa. É um total desconhecimento do próprio folclore que deu origem à Arte.

Aradia, essa filha de Lúcifer com Diana, aparece desde sempre como uma figura sobrenatural do folclore italiano – mesmo quando aparece fusionada com outras, como afirma a folclorista Sabina Magliocco, ou então seria o nome (Arada ou Irodiada) usado na Romênia para a Rainha das Fadas, como descreve o historiador Mircea Eliade. Eliade acreditava que ela seria uma espécie de “metamorfose” de Diana”.

O Evangelho das Bruxas é central no movimento neopagão. Aradia é um dos nomes da Grande Deusa em algumas tradições. Ela também é chamada de Rainha das Bruxas, seja em algumas vertentes da Wicca ou da Bruxaria Tradicional Moderna.

Há muitos wiccanos nas redes sociais por aí que parecem morrer de medo do nome do mensageiro da luz e pelo visto desconhecem que o livro de Leland foi uma das obras usadas por Gerald Gardner para compor seu Livro das Sombras, e a própria Carga (ou Instrução) da Deusa é baseada nas palavras ditas por Aradia dentro do Evangelho: “Quando necessitar de alguma coisa, uma vez no mês, e é melhor que seja quando a lua estiver cheia, deverá reunir-se em algum local secreto…”. Alex Sanders teria invocado Aradia como uma deusa da lua na década de 60 (me corrijam os alexandrinos se isso estiver errado), na Bíblia das Bruxas, de Janet & Stewart Farrar, o casal menciona Aradia. Ela é invocada também por outros autores modernos em diferentes publicações, indo de Z. Budapest até Aidan Kelly, passando por Raven Grimassi.

A bruxaria tem nessa história, relatada na coletânea de mitos que constitui o Evangelho uma das versões mais famosas de sua provável origem mítica. Nenhum desses autores supracitados se esquiva disso, podem não falar com todas as letras, mas para bom entendedor meia palavra deveria bastar, não é? Oras, Diana, a Deusa da Lua, teve essa filha com seu irmão, o solar Lúcifer, que recebe a missão de ensinar feitiçaria a homens e mulheres. Aradia então desce à Terra, tornando-se a primeira de todas as bruxas e prometendo a seus pupilos que “todos serão livres da escravidão e, portanto, livres em tudo”.

E desde sempre a bruxaria é retratada como algo fora das normas, basta observar as crenças todas da população e da Igreja sobre o caráter sobrenatural e pervertido das bruxas, que foi causa maior da inquisição que matou milhares de pessoas no tempo das fogueiras.

Leland declarou crer que o Evangelho das Bruxas continha uma doutrina confiável de ritos para serem observados nos encontros chamados de Sabbats, onde as bruxas adoravam divindades proibidas e praticavam atos proibidos, “inspirados pela rebelião à sociedade como também por suas próprias paixões”.

Some-se a isso o ensaio político do historiador francês, Jules Michelet, “A Feiticeira” de 1862. No ensaio, Michelet discorre sobre a bruxa como uma emissária do demônio, mas o demônio como o espírito da revolta contra o Estado, a nobreza e a Igreja. Assim temos mais uma confirmação dessa visão herege e libertária de quem pratica a bruxaria, mas uma heresia socialmente libertadora, para fugir da opressão, não para necessariamente praticar malefício.

Mas sim, a figura de Lúcifer é presente e parte integral dessa história, assim como falar no Diabo. E não adianta adoçar os fatos dizendo que não é o mesmo diabo da Bíblia ou do cristianismo. Sim, o Deus de chifres da Bruxaria é uma entidade outra, e é das florestas e da virilidade, dentre seus tantos nomes temos Pã, Cernunnos, Green Man, Bucca, Dionísio, mas, no tempo das fogueiras, muita gente foi morta por admitir que dançava, flertava e fornicava com o diabo mesmo.

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Galeria de arte em Évora, Portugal, cujo prédio fora anteriormente um palácio da inquisição.

A figura do diabo sempre foi de contestação, é uma figura de rebeldia contra a imposição e dominação religiosa exercida pela Igreja. As figuras chifrudas que apareciam nos contatos com o plano espiritual eram entendidas pelos praticantes como sendo o diabo cristão, e a situação daquela gente era tão ruim, que mesmo diante do que pensavam ser o diabo da Bíblia, essa gente não tinha medo, tinha fascínio e aceitava comungar com tal entidade em nome de uma vida melhor e mais saborosa. Assim como Black Philip pergunta para Thomasin no filme “The VVitch”, “– Gostaríeis de viver deliciosamente?”, e ela aceita, claro.

Então é preciso que a gente pare de tentar deixar a bruxaria asséptica, porque ela não é asséptica. Vamos resgatar com alegria e orgulho os nomes dos nossos mestres. Milhares de pessoas não morreram queimadas para que os bruxos do futuro ostentassem covardia de se assumir quem são e julgassem o plano espiritual pela peneira melindrosa do cristianismo.

Claro que posso ser pagão sem ser bruxo, e celebrar lindamente os ciclos da natureza, da Deusa e do Deus, e não me envolver com nada além dessa parte devocional que é mais palatável mesmo para quem está de fora. No entanto, quem se denomina e se entende por bruxo não deveria gastar tanta energia com todo tipo de esforço para parecer tão benigno socialmente e não provocar desconforto. Há um terror em imaginar que podemos dar a impressão de sermos mesmo tudo aquilo que sempre falaram de nós: que comungamos com o diabo, que mexemos na realidade, que enviamos maldições. Não, jamais! Precisamos que todos acreditem que somos uma religião só do bem, que louvamos a Terra e a Grande Mãe. Precisamos repetir isso ad nauseam até que todos acreditem nisso, até nós.

Sim, porque estamos esquecendo nossas origens. Em geral (embora nunca todo mundo, e isso se aplica a todas as religiões), somos, a princípio, do bem mesmo, vivendo em harmonia com a Terra, com os Deuses, com nossos irmãos não humanos que habitam o visível e o invisível, mas essa religião e essa Arte é desconfortável sempre para quem não é dela, pois partilha de realidades muito estranhas ao mundo comum, não é feijão com arroz. Por isso mesmo não é um caminho para todo mundo.

Vamos parar de amenizar para que o que a gente faz caiba no universo diminuto do outro. Não precisamos sair bradando, mas se perguntados, que sejamos sinceros. Se católicos estão tendo seus santos destruídos, quem sou eu para tentar explicar a um evangélico os méritos da minha crença que difere em absolutamente tudo da dele. Se automaticamente só de ler tarô eu serei colocada na condição de encarnação do mal, para que perder energia elucidando se nosso deus cornífero é ou não o diabo?

Não seremos destruídos, pois sabemos sobreviver, nos apoiando nas alianças eternas que sempre estiveram conosco.

Vamos honrar a chama que arde dentro de nós, a chama dada pelos anjos, alimentada por Aradia. Sem medo, vamos relembrar que somos de uma espiritualidade herege. Herege porque tira o foco do céu e da vida após a vida e traz o foco para cá; herege porque traz o poder para o corpo como ferramenta sagrada e de prazer; herege porque valoriza e glorifica a mulher, herege porque dá força e alternativas aos despossuídos e herege porque uma de nossas primeiras professoras era filha de Diana com Lúcifer.

E ao se despedir, Aradia disse a seus pupilos humanos:

“Quando io saro partita da questo mondo,
Qualunque cosa che avrete bisogna,
Una volta al mese quando la luna
E piena…
Dovete venire in luogo deserto,

In una selva tutte insieme,
E adorare lo spirito potente
Di mia madre Diana, e chi vorra
Imparare la stregonerie,
Che non la sopra,
Mia madre le insegnera,
Tutte cose….”

 

Aradia é uma das figuras mais importantes a quem devemos nossas origens bruxas. E é a Ela a quem dedico esta coluna e peço inspiração para os escritos que virão neste espaço que me está sendo confiado pelo Bosque Ancestral.

Aradia! Aradia!

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Petrucia Finkler é praticante de Bruxaria Tradicional Moderna além de ser astróloga, taróloga, Moon Mother e Parteira da Morte. Ela é fundadora do Conclave da Rosa e do Espinho em São Paulo e tem o blog Elemento Chão. Site: www.petruciafinkler.com. Dirige a coluna Templo de Aradia.

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