O Cernunnos celtibérico

por Dannyel de Castro

Cernunnos é um dos mais conhecidos entre os deuses celtas. É identificado como deus da fertilidade, da abundância, dos bosques, da vida selvagem e da morte, geralmente descrito como uma figura antropomórfica que possui chifres de cervo. Seu culto é principalmente atribuído à parte gaulesa do mundo céltico. Uma das principais referências que temos a ele é a da imagem presente no caldeirão de Gundestrup, famoso artefato celta datado do período La Tène (isto é, século II ou I a.e.c.), encontrado em 1891 na Dinamarca:

800px-Gundestrupkedlen-_00054_(cropped)
Imagem de Cernunnos presente no caldeirão de Gundestrup

Imagens de figuras semelhantes a Cernunnos também foram encontradas em outras localidades célticas, como a Ibéria. Em uma imagem gravada num fragmento de um vaso de cerâmica encontrado na região da cidade de Numância, na Espanha (território anteriormente habitado pelos celtiberos), é possível observar uma entidade que possui semelhanças com o deus Cernunnos, como a presença dos chifres sobre a sua cabeça. A Comissão Executiva responsável pelas escavações que descobriram o fragmento descreveu a imagem presente nele da seguinte forma: “uma figura estilizada, parecida com um ídolo, virada para a frente, com uma veste branca, braços levantados e coroado com galhos de veado”[1]. Muitos estudiosos, como o renomado José Maria Blásquez, ficaram convencidos que a imagem era do deus Cernunnos. Na década de 1950, o autor escreveu: “não há dúvida possível de que a pintura de Numância representa Cernunnos”[2].

CERNUNNOS NUMANCIA
O possível “Cernunnos de Numância”

Apesar dessa relação entre a figura numantina e o deus Cernunnos ter predominado durante algum tempo nos estudos historiográficos, análises mais atuais discordam da ideia e acreditam não ser possível indicar que este deus tenha sido cultuado na Península Ibérica. F. Romero Carnicero, por exemplo, propôs uma outra leitura iconográfica da imagem. Partindo de uma reorientação do fragmento cerâmico de acordo com a direção das linhas do entorno, Romero acredita que a imagem mostra, na verdade, a figura de uma besta que foi desenhada como se estivesse sido vista de cima com as pernas estendidas em cada lado mostrando suas garras e com uma cabeça arredondada com orelhas pontudas e direcionadas para trás, dois olhos e focinho que mostra os maxilares.

O “Cernunnos de Numância” não foi a única referência a uma entidade cornuda encontrada no mundo celta ibérico. Em Peñalba de Villastar (Teruel, Espanha) o teônimo Cornutus Cordonus foi registrado, e alguns estudiosos o relacionaram a Cernunnos, mas a opção parece pouco provável, uma vez que o registro foi feito na região de um antigo santuário do deus Lugus. Outra figura de chifres encontrada na região ibérica faz referência ao teônimo Vestio Alonieco; a imagem, por sua vez, segundo Olivares Pedreño, corresponde a Lugus, principalmente devido aos membros desproporcionais da imagem, similar às representações de Lugus encontradas na Gália, com membros e olhos enormes, e às vezes algum tipo de chifres[3].

cernunnos-vestio-alonieco
Vestio Alonieco

Ou seja, este é um caso em que as evidências disponíveis até o momento não são conclusivas. A historiografia mais atual não descartou totalmente a hipótese de ser Cernunnos no tal vaso de cerâmica numantino. Sim, é possível que Cernunnos tenha sido cultuado entre os celtas ibéricos, assim como também é possível que não o tenha sido. Pode ser que as referências a uma entidade cornuda façam referência a outros deuses ou seres reverenciados pelos celtas locais, não necessariamente o Cernunnos gaulês, uma vez que figuras com chifres associadas à vida selvagem são bastante recorrentes no mundo europeu antigo. De todo modo, esse é mais um entre os mistérios que nos deparamos ao estudar a religião dos celtas da Ibéria.

[1] Fonte: Ibéria Mágica

[2] Fonte: J.M. Blásquez, “Una réplica desconocida al Cernunnos de Val Camonica: el Cernunnos de Numancia”

[3] Fonte: Em el Corazón del Neméton

 

_

23915746_414048655676907_4383740694095192496_nDannyel de Castro é pai, pesquisador, professor e politeísta celta de enfoque ibérico. Possui graduação e mestrado em Ciências da Religião, tendo as diferentes expressões religiosas neopagãs como foco de suas pesquisas. Criador e editor do portal Bosque Ancestral e responsável pela coluna Entre Mundos, que reúne artigos com reflexões, vivências pessoais, material de estudo sobre religião e costumes dos celtas ibéricos, textos devocionais, entre outras coisas.

 

_

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s