Seaxnēat e a Wyrd: Reflexões anglo-saxonistas de um heathen nordestino

por Daniel Seaxdēor

Os povos germânicos possuem diversas formas de espiritualidade, tanto no passado como no presente. Algumas seguem influências variadas, como movimentos espirituais pós-guerra do século XX, outros com os pés no romantismo do século XIX, outros em uma espécie de neorromantismo criado pelo metal de temática viking. E existem aqueles que querem entender as mentalidades, as formas de lidar com a vida e os costumes dos povos germânicos, embora, no Brasil, eles sejam absoluta minoria.

Eu sou dessa absoluta minoria, e, portanto, não pretendo falar por toda a comunidade pagã germânica, mas como um pagão germânico que aos poucos tem mudado seu foco dos nórdicos aos anglo-saxões. Vários são os motivos que me levam a isso, mas o principal deles é a importância da wyrd dentro da espiritualidade anglo-saxã antiga.

Gæð a wyrd swa hio scel”, que traduzimos livremente por “a wyrd vai da maneira que ela precisa ir” é uma máxima que está registrada na linha 455 do poema Beowulf. A palavra wyrd nesse poema aparece não menos que nove vezes, e o tema é recorrente na poesia anglo-saxã mesmo após a conversão ao cristianismo. Era uma ideia tão poderosa que nem mesmo o mais pio dos anglo-saxões cristãos conseguia perceber a sua raiz pagã, por estar estabelecida desde remotos tempos tribais.

A wyrd na mentalidade anglo-saxã poderia ser tanto uma das irmãs que tecem o destino, aquela responsável pelo passado, pelo que está designado, quanto a própria lei geral que governa todas as coisas. Na verdade, os dois significados são faces da mesma moeda; doi em nossas mentes acostumadas com o livre-arbítrio moral cristão que as coisas seja determinadas independentemente de nossa vontade, e a partir de nossos atos passados. Apenas a coragem em encarar os desígnios da wyrd é que, ironicamente, pode mudá-la… caso você não já tenha sido condenado por ela. Estranhamente, a wyrd é das poucas coisas impessoais na mentalidade animista dos povos pagãos anglo-saxões.

O herói Beowulf encara a morte sem temor; ele sabe que é apenas uma peça no grande esquema das coisas, e não o ator principal ou fim último de nada. Quando ele se lança contra monstros, que simbolizam o aspecto negativo do mundo fora da tribo, o ūtanġeard, ou “cercamento externo” ao convívio social, ele o faz sabendo que a wyrd já foi decretada, e cabe a ele apenas cumprí-la, ainda que não saiba qual ela seja, encarando a situação posta diante de si com coragem.

Curiosamente, o fatalismo e determinismo da mentalidade anglo-saxã movia as hordas de guerreiros portadoras de seax, a faca que lhes deu nome, não para uma resignação e aceitação passiva de sua condição existencial, mas a atravessar o Mar do Norte até o que viria a ser a Inglaterra, e, sob a liderança de Hengst e Horsa, os lendários heróis da travessia, e a proteção do deus tribal composto de aço de batalha, Seaxnēat, os anglos, saxões, jutos e frísios desbravaram o desconhecido e conquistaram um novo mundo para si: eles aceitaram a wyrd como ela era sem a conhecer; e pela sua coragem foram beneficiados por ela.

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A wyrd, esse destino impessoal, é tão poderoso que submete mesmo a vontade do deus cristão para os anglo-saxões, e na poesia nórdica, no mito da morte de Balder, vemos como foi inútil toda e qualquer tentativa dos ēse (deuses) de modificar o que estava designado para acontecer. Isso a nós geralmente pode passar despercebido, pois estamos acostumados a olhar os ēse como seres onipotentes e oniscientes… com alguma influência da prosa do cristão Sturluson. A wyrd não se conforma às vontades divinas; na verdade ela abertamente as contraria. Isso mostra a necessidade de interpretar os ēse e a vida de outra forma, repensar nossas relações com o divino e nossas responsabilidades em nossas vidas. O paganismo dos germânicos coloca em nossas mãos deveres que geralmente podemos jogar na conta de seres distantes, e os anglo-saxões, como povos germânicos, não são exceção a isso.

A mentalidade pagã, e os costumes dos anglo-saxões têm me ensinado muito. Minha vida mudou radicalmente desde que passei a cultuar Seaxnēat, viver sob os desígnios da wyrd, e eu percebo que, de certa forma, existem mais coisas na wyrd do que eu possa entender agora. Como um nordestino, culturalmente conhecido pela associação com as “peixeiras”, as nossas seaxas, e acostumado a atravessar longas distâncias, como os saxões em busca de novo lar, vivendo sempre dividido, como um saxão com parentes de ambos os lados do mar, eu percebo como o paganismo dos anglo-saxões tem algo a oferecer para nós do Brasil, especialmente aos heathens aqui do nordeste.

É preciso ser derretido e forjado sob o martelo, é preciso ser afiado e testado, inúmeras e dolorosas vezes na vida para permanecer no paganismo dos povos germânicos, em especial no Brasil. Mas aqui, nesse espaço, espero que possamos ver também o outro lado da nossa religião e cultura: o costume da hospitalidade, o respeito ao estrangeiro vagando com algum destino, e que, oferecendo uma boa conversa, tenha um lugar protegido para descansar — costume que nossos distantes ancestrais culturais proto-indo-europeus já tinham, cerca de 8.000 anos atrás.

Se queremos ser pagãos de fato, e honrá-los, creio que nem só de ferro devemos ser feitos, mas também da hospitalidade sagrada ao redor do fogo de nossos lares pagãos. Se estou certo ou errado, a wyrd dirá.

 

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Daniel Seaxdēor é um heathen de tendência anglo-saxã e reconstrucionista, apaixonado por folclore, ervas e plantas, idiomas germânicos, história das palavras e narrativas ancestrais. Idealizador dos projetos Heathenry & Liberdade (anteriormente conhecido como Ásatrú & Liberdade) e Fyrnsidu Brasil, estudante de letras, tradutor e cabra da peste nas horas vagas. Dirige a coluna Seax do Sertão.

 

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2 respostas para “Seaxnēat e a Wyrd: Reflexões anglo-saxonistas de um heathen nordestino”

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