Vozes do Paganismo #7: entrevista com Mayra Faro

Esse mês o Bosque Ancestral traz uma entrevista com Mayra Faro, que é praticante da espiritualidade celta e espiritualidade feminina. Natural de Belém, Pará, Mayra vem atuando na comunidade pagã da cidade, sobretudo à frente do grupo druídico Clann an Samaúma, com o qual organizou a edição paraense do Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta, em 2016. Mayra é professora e possui formação na área de Ciências da Religião, tendo em sua trajetória acadêmica se dedicado a uma pesquisa sobre mulheres curandeiras na Amazônia, em especial na Ilha do Marajó, onde ela investigou as práticas e as cosmovisões religiosas dessas mulheres.

Vamos então conhecer algumas das ideias da Mayra:

​Como você chegou ao Paganismo? Poderia descrever um pouco de sua caminhada espiritual até aqui?

Comecei estudando a Wicca e a Magia Natural, quando tinha mais ou menos 15 anos. Me dediquei à essa religião por alguns anos, e depois iniciei no caminho do Druidismo. Hoje sinto minha Espiritualidade mais ligada à natureza e conectada a minha própria jornada de vida… Não me identifico apenas ao caminho celta, mas também às tradições da Terra e ao Sagrado Feminino.

Você desenvolve um trabalho na comunidade pagã voltado para o Sagrado Feminino. Poderia falar um pouco aos leitores do blog sobre como você concilia o Sagrado Feminino e o Druidismo na sua prática? Existem desafios ou é um processo mais natural?

No começo era um desafio para encontrar leituras sobre ambos os temas ou até mesmo pessoas que vissem esses caminhos interligados…  Havia (e ainda há) um pouco de preconceito em relacionar esses temas ou caminhos. Mas hoje consigo compreender e vivenciar isso sem nenhum problema na minha prática pessoal. Entendo que a Espiritualidade Feminina e a Celta estão profundamente interligadas… 

Alguns autores dizem que o Druidismo é uma religião de predominância masculina. O que você, como mulher, tem observado sobre isso na sua caminhada?

O Druidismo se tornou uma religião de predominância masculina sim… Mas no sentido de estrutura organizacional (com as Ordens, Groves, etc.) e a grande visibilidade que foi dada a figura do “druida”. Mas, no meu ponto de vista e a partir de minhas vivências e intuições, a Espiritualidade Celta tem uma força feminina muito grande. Mas com o tempo foi sendo esquecida ou ignorada, assim como aconteceu em várias culturas e tradições. Hoje já se tem um outro olhar sobre a mulher e o feminino dentro do Druidismo, mas ainda precisa melhorar em muitos aspectos. Se aprofundar mais nisso… As pessoas (digo, druidistas e reconstrucionistas celtas) tem certo receio de abordar esse tema, pois associam com outras religiões (como a Wicca), como se fosse algo ruim ou depreciativo… Quanta bobagem… 

Como você vive o Paganismo no seu cotidiano?

Busco viver… Não gosto de explicar muito sobre minha espiritualidade, eu a vivo (rs). Honro meus ancestrais, meus familiares, amigos… Honro minha palavra, minhas ações, meus votos. Aprecio a natureza e os seres que me rodeiam… Gosto de admirar o pôr-do-sol, a lua e o céu estrelado… As árvores que vejo pelo caminho, os pássaros… Sinto tudo isso como parte de mim, e eu parte de tudo isso. Reconheço que estou em constante aprendizado, não me vejo melhor nem pior do que ninguém… Enfim, e vou seguindo rs.

A sua ligação com os ancestrais da terra é bastante visível e admirável. Como você se relaciona com essa ancestralidade de forma prática? Poderia sugerir algo para quem está começando a desenvolver uma relação com a sua ancestralidade da terra?

Busco me relacionar de forma respeitosa com essa terra que me gerou e me nutre. Amo a terra da Irlanda e dos países célticos… Mas amo também a terra amazônica, e brasileira. É daqui que vem meu alimento, a água que bebo, a cultura que vivo, e a língua que falo… Em minha alma há espaço para honrar todos os ancestrais. Não é muito difícil se relacionar com a ancestralidade da terra, basta começar a conhecer a história e memória dos que vieram antes de nós, a respeitar a natureza do local e ver sua beleza, conhecer as tradições indígenas que existem no Brasil e aprender com elas. Nos rituais, nas meditações ou orações, buscar honrar essa sabedoria. É simples… A natureza é simples, a gente é que complica (rs).

Para você, qual a importância do resgate de crenças e valores do mundo antigo no atual momento em que vivemos?

Vejo como algo muito importante e urgente… Nossa sociedade parece caminhar sem rumo e sem raízes, acredito que é fundamental voltar a respeitar, a amar a Natureza, os ancestrais e os Seres Divinos, e assim curar a nossa relação com eles e com nós mesmos. 

Quais tipos de iniciativas você gostaria de ver no Paganismo brasileiro?

Não estou inteirada no que acontece no contexto pagão em geral no Brasil, sinceramente. E atualmente estou até pouco inteirada no que rola no druidismo (rsrs), mas vejo que há muita movimentação… Os Encontros Brasileiros de Druidismo e RC vêm crescendo a cada ano, mais grupos vem surgindo, pessoas se reencontrando nos clãs e bosques druídicos. Claro que ainda falta amadurecimento e humildade entre a comunidade, ainda tem muita disputa de ego e poder, mas, meu amigo… isso é um sintoma geral do ser humano e temos que saber lidar e transformar isso né verdade? rs

Gratidão pelo convite! Me sinto honrada e feliz por participar dessa entrevista e contribuir com o seu trabalho no blogue.

Eu que agradeço, Mayra! 🙂

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