Esclarecimento sobre as tradições diânicas oriundas da genealogia de Morgan McFarland em vista da recente polêmica envolvendo a wicca diânica de Brasília

por Fábio Stern

Nas últimas semanas, a Tradição Diânica do Brasil (TDB) foi palco de uma grande polêmica. Uma notícia publicada originalmente no Jornal Metrópoles no dia 2 de dezembro acusava a lider do grupo, Mavesper Cy Ceridwen, de manipulação, assédio moral e sexual e de impor ritos sexuais, orgias e um modo de vida poliamoroso aos seus membros. Não é a primeira vez que as tradições diânicas são alvo de denúncias desse tipo no Brasil, e por isso é importante debatermos esse tipo de acusação, por manchar a imagem não apenas do grupo da Mavesper, mas dos wiccanos em um contexto mais amplo da sociedade brasileira.

Vivemos em um país cujas denúncias de assédio sexual se voltam contra as próprias vítimas. Nesse sentido, deixo claro que não nego a possibilidade de que possam ter acontecido. Eu não estava lá para desmentí-las. Mas se ocorreram, devemos ter claro que orgias rituais ou o poliamor não constituem o ethos da wicca diânica. Embora não haja nada de errado com um relacionamento poliamoroso ou em se participar de orgias, se isso for da vontade dos envolvidos, ninguém é obrigado a nada disso para ser considerado um bruxo diânico.

Muitas das coisas que foram denunciadas na reportagem do Jornal Metrópoles eu vi acontecerem também na Tradição Diânica Nemorensis (TDN) em São Paulo, uma tradição dissidente da TDB. Mas se o assédio moral de sacerdotes sobre seus dedicados era algo que eu próprio presenciei, eu sempre tive claro que isso não é uma regra da tradição, mas sim uma postura pessoal e inapropriada dessas pessoas, que por estarem em uma posição de liderança em uma religião que não possui poder centralizado, acabavam por abusar de seu poder.

Deixo claro que nunca, em toda a minha vida, vi algo tão grave quanto impor a uma pessoa que fizesse sexo contra a sua vontade no meio diânico. Muito menos impor a um homossexual que transasse com mulheres, como foi descrito na reportagem. Isso sequer faz sentido pela própria história da TDB, visto que essa tradição foi criada por um homossexual, quem com certeza não exigiria esse tipo de conduta como rito constitutivo de sua tradição.

Além disso, nunca presenciei a imposição do poliamor aos participantes dos covens e groves que transirei, visto que grande parte das pessoas que constituíam o núcleo mais duro da TDN e da TDB em São Paulo ou eram casadas, ou estavam em relacionamentos monogâmicos. O próprio “grande rito” nunca foi performado na forma de coito sexual na frente de outras pessoas, mas sempre de forma simbólica, pela inserção do athame no caldeirão. O próprio termo “ritos de Afrodite” eu nunca sequer ouvi. Se ocorre em Brasília, como descrito na matéria, é uma criação dos wiccanos dessa cidade, mas não é um constitutivo do dianismo brasileiro.

Tanto a TDB quanto a TDN compartilham da mesma genealogia: são uma transplantação ao Brasil da McFarland Dianic Tradition, tradição feminista alguns meses mais antiga que a de Z. Budapest. Diferente da wicca diânica de Budapest, a McFarland Dianic Tradition aceita a participação de homens em seus grupos, mas mantém a centralidade das decisões nas alta sacerdotisas. Sua teologia é amplamente baseada nos textos de Robert Graves, em especial em seu livro “A Deusa Branca”, cuja teoria central é a de que a religião primordial da Europa teria sido um culto matriarcal à Grande Deusa. O calendário de esbás da McFarland Dianic Wicca é baseado no calendário de ogham inventado por Graves, e a leitura de diversas divindades cultuadas e mitos dessa tradição são também releituras de Graves que não aparecem necessariamente em outras tradições de wicca. O mito de criação da McFaland Dianic Wicca é, nada mais nada menos, que uma transposição do mito de Eurínome criado por Robert Graves, que cria o mundo através da dança, separando o mar dos céus. Vejam por conta própria (conferir o Apêndice I, ao final desse artigo) que o mito de criação não fala nada de ritos sexuais na criação do mundo. O êxtase descrito é o êxtase da criação, que é algo muito mais transcendente e sublime que simplesmente o orgasmo sexual. Se tem wiccanos interpretando o êxtase da criação apenas como gozo sexual, então eu realmente lamento pela falta de profundidade de vivência da religião que essa pessoa deve ter na sua própria tradição.

O segundo ponto que gostaria de deixar muito claro é que como as tradições diânicas advindas de McFarland não possuem um poder centralizado, muitas pessoas falam barbaridades em seu nome. Como um grupo iniciático, e sob a égide “isso é um mistério, quando você for elder você saberá”, os abusos e assédios morais dos quais eu me referi anteriormente são muitas vezes justificados nessa tradição, porque é difícil aos neófitos e dedicados conseguirem encontrar fontes para checar se o que os sacerdotes lhes estão mandado fazer é verídico ou não. Nesse sentido, fiz questão de anexar ao final desse artigo também o código de direitos dos que buscam a Tradição Diânica McFarland, disponibilizado on-line no próprio site dessa tradição para consulta, e do qual automaticamente a TDB e a TDN são devedoras, visto serem elas próprias braços dessa mesma genealogia. Notem que há itens ao direito à liberdade sexual e também itens que garantem o direito ao desligamento sem perseguições. Se isso está acontecendo em Brasília, é algo muito grave do qual os bruxos diânicos do Brasil precisarão se debruçar. Se não fizerem isso, estarão desonrando as próprias raízes de sua religião.

E aos outros wiccanos e neopagãos do país, é importante sabermos que por mais que talvez as denúncias sejam reais e tenham acontecido, isso não constitui sequer o ethos e a teologia das wiccas diânicas de origem em Morgan McFarland, permitindo um questionamento para que possamos enfrentar, de frente, o problema e solucioná-lo. Se um dos poucos dogmas wiccanos diz que todos façamos o que desejamos, desde que não prejudiquemos ninguém, com que direito um sacerdote pode impor determinado estilo de vida a seus dedicados, simplesmente porque lhe parece apropriado para si mesmo?

 

 

APÊNDICE I:

O MITO DE CRIAÇÃO DIÂNICO

Morgan McFarland

 

ORIGINAL TRADUÇÃO
In the infinite moment before all time

the Goddess arose from chaos

and gave birth to Herself.

 

No momento infinito antes de todo tempo

a Deusa se ergueu do caos

e deu à luz a Ela mesma.

This was before anything else had been born… not even Herself.

And when She separated the skies from the waters

She danced upon them.

 

Isso foi antes de qualquer coisa ter nascido… inclusive Ela mesma.

E quando Ela separou os céus das águas

Ela dançou sobre eles.

As She danced, so did Her ecstasy increase.

In Her ecstasy She created everything that is.

Conforme ela dançava, seu êxtase aumentava.

Em seu êxtase, ela criou tudo o que existe.

 

Her movements made the wind and the element Air was born and did breathe.

And the Goddess named Herself:

Arianrhod, Cardea, Astarte

 

Seus movimentos geraram o vento e o elemento Ar nasceu e ela respirou.

E a Deusa nomeou a Si mesma:

Arianrhod, Cardeia, Astarte

And sparks were struck from Her dancing feet so that She shone forth as the Sun, and the stars were caught in Her hair. Comets raced about Her,

and the element Fire was born.

And the Goddess named Herself:

Sunna, Vesta, Pele

 

E faíscas saltaram de Seus pés dançantes de modo que Ela brilhou como o Sol, e as estrelas prendiam-se em Seus cabelos. Os cometas corriam sobre Ela, e o elemento Fogo nasceu.

E a Deusa nomeou a Si mesma:

Sunna, Vesta, Pele

 

About Her feet swirled the waters in tidal wave and river, and flowing stream.

The element Water did move.

And She named Herself:

Binah, Mari Morgaine, Lakshmi

 

Sobre Seus pés espiralavam as águas nas marés, ondas, rios e córregos.

O elemento Água se moveu.

E Ela nomeou a Si mesma:

Biná, Mari Morgaine, Lakshmi

And She sought to rest her feet from their dance, and She brought forth the Earth so that the shores were Her footstool, the fertile lands Her womb, the mountains Her full breasts, and Her streaming hair the growing things.

And the Goddess named Herself:

Cerridwen, Demeter, the Corn Mother

 

E Ela desejou descansar seus pés de sua dança, e Ela deu à luz a Terra de modo que as margens foram Seu escabelo; as terras férteis, Seu útero; as montanhas, Seus seios fartos; e Seus cabelos, as coisas crescendo.

E a Deusa nomeou a Si mesma:

Ceridwen, Deméter, a Mãe-Milho

She saw that which was and is and will be,

born of Her sacred dance and cosmic delight,

and infinite joy.

 

Ela viu aquilo que foi, que é e que será,

nascidos de Sua dança sagrada e prazer cósmico, e infinita alegria.

She laughed, and the Goddess created Woman in Her own image,

to be the Priestess of the Great Mother.

 

Ela riu, e a Deusa criou a Mulher a sua imagem e semelhança,

para ser a Sacerdotisa da Grande Mãe.

From Her Elements; Earth, Air, Fire and Water,

the Goddess created for Herself a Consort

for love, pleasure, companionship and sharing.

 

De seus elementos: Terra, Ar, Fogo e Água,

a Deusa criou para si mesma um Consorte para amor, prazer, companhia e para compartilhar.

The Goddess then spoke to Her daughters, saying:

“I am the Moon to light your path and to speak to your rhythms.

 

A Deusa então falou a suas filhas, dizendo:

“Eu sou a Lua para iluminar seu caminho e falar com seus ritmos.

I am the Dancer and the Dance.

I whirl without motion.

 

Eu sou a Dançarina e a Dança.

Eu giro sem movimento.

I am the Sun who gives you warmth in which to stretch and grow.

I am All that will Be.

 

Eu sou o Sol que lhe dá o calor para se alongar e crescer.

Eu sou Tudo o que Será.

I am the Wind to blow at your call and the sparkling Waters that offer joy.

 

Sou o Vento a soprar ao seu chamado e as Águas cintilantes que oferecem alegria.
I am the Fire of the Dance of Life,

and I am the Earth beneath your dancing feet.

 

Eu sou o Fogo da Dança da Vida,

e eu sou a Terra abaixo de seus pés dançantes.

I give to all my priestesses three aspects that are Mine:

 

Eu dou a todas as minhas sacerdotisas os três aspectos que são Meus:
I am Artemis, the Maiden of the Animals, the Virgin of the Hunt.

I am Isis, the Great Mother.

I am Ngame, the Ancient One who winds the shroud.

 

Eu sou Ártemis, a Donzela dos Animais, a Virgem da Caça.

Eu sou Ísis, a Grande Mãe.

Eu sou Ngame, a Velha que sopra a mortalha.

I shall be called a million names.

 

Serei chamada por um milhão de nomes.
Call unto me, daughters, and know that I am Nemesis.

We are Virgins, Mothers, Old Ones – All.

 

Chamem por mim, filhas, e saibam que eu sou Nêmeses.

Nós somos Virgens, Mães, Velhas – Tudo.

We offer our created energy:

to the Spirit of Women Past,

to the Spirit of Women yet to Come,

to Woman Spirit Present and Growing.

Behold, we move forward together.”

Oferecemos nossa energia criada:

ao Espírito das Mulheres que Foram,

ao Espírito das Mulheres que Virão,

ao Espírito das Mulheres Presentes e que Crescem.

Eis que juntas evoluiremos.”

 

 

APÊNDICE II:

CÓDIGO DE DIREITOS DOS QUE BUSCAM A TRADIÇÃO DIÂNICA MCFARLAND

Charles Mars, 1997

 

 

ORIGINAL TRADUÇÃO
Seekers on the pagan path are in an extremely vulnerable position. In their quest for fellowship and teaching, they risk encountering those who use our faith to prey on others. To empower the Seekers of our community, a SEEKER’S BILL OF RIGHTS has been drafted. This tool will help to alert Seekers of a problem if a group or teacher violates any of the ten rights described. It will also serve to remind Seekers that while they do not have “degrees”, they are still human beings with rights and dignity.

 

(Charles Mars, 1997)

Quem busca pelo caminho pagão está em uma posição extremamente vulnerável. Em sua procura por associação e ensinamento, corre o risco de encontrar aqueles que usam nossa fé para enganar os outros. Para empoderar os que buscam por nossa comunidade, redigiu-se um CÓDIGO DE DIREITOS DOS QUE BUSCAM. Essa ferramenta os ajudará a se alertarem a um problema se um grupo ou professor violar qualquer um dos dez direitos descritos. Também servirá para lembrá-los que embora não possuam “graus”, eles ainda são seres humanos com direitos e dignidade.

 

 

THE RIGHT TO VERIFY CREDENTIALS

Seekers shall not be obstructed from substantiating claims made by a teacher or a group. In the case of Elders that were inspired to create a new tradition, the Seeker has the right to know the circumstances surrounding the inception of that tradition.

 

O DIREITO DE VERIFICAR CREDENCIAIS

Quem busca não pode ser impedido de confirmar as alegações feitas por um professor ou grupo. No caso dos elders que foram inspirados a criar uma nova tradição, quem procura tem o direito de saber as circunstâncias do início dessa tradição.

 

THE RIGHT TO ANONYMITY

Seekers have the right to keep their involvement in the occult a secret to preserve their personal and professional lives.

 

O DIREITO AO ANONIMATO

Quem busca tem o direito de manter seu envolvimento com o oculto um segredo para preservar sua vida pessoal e profissional.

THE RIGHT TO FINANCIAL STABILITY

Seekers shall not be required or coerced into taking on any financial burdens on behalf of a teacher or group.

 

O DIREITO A ESTABILIDADE FINANCEIRA

Quem procura não pode ser exigido ou coagido a assumir qualquer ônus financeiro em nome de um professor ou grupo.

 

THE RIGHT TO COMPENSATION FOR PROFESSIONAL GOODS AND SERVICES

Seekers have the right to be paid for goods produced and/or skilled labor from which they would normally receive an income. Seekers shall not be required or coerced into providing discounts or “freebies” on behalf of a teacher or group.

 

O DIREITO A COMPENSAÇÃO POR BENS E SERVIÇOS PROFISSIONAIS

Quem procura tem o direito de ser pago por bens produzidos e/ou mão de obra qualificada da qual iriam normalmente receber rendimentos. Quem procura não pode ser exigido ou coagido a dar descontos ou “brindes” em nome de um professor ou grupo.

 

THE RIGHT TO SEXUAL FREEDOM

Seekers shall not be required or coerced into sexual relations with unwanted persons, nor shall Seekers be restricted from sexual relations with consenting adults.

 

O DIREITO A LIBERDADE SEXUAL

Quem procura não pode ser exigido ou coagido a fazer sexo com pessoas indesejadas, nem pode ser restringido de ter relações sexuais com adultos que assim consentiram.

THE RIGHT TO PHYSICAL WELL BEING

Seekers shall not be required or coerced into submitting to any form of physical injury or abuse.

 

O DIREITO AO BEM-ESTAR FÍSICO

Quem procura não pode ser exigido ou coagido a se submeter a qualquer forma de ferimento ou maltrato físico.

THE RIGHT TO ABIDE BY THE LAW

Seekers shall not be required or coerced into committing any illegal act.

 

O DIREITO DE CUMPRIR A LEI

Quem procura não pode ser exigido ou coagido a cometer qualquer ato ilegal.

THE RIGHT TO CONSISTENCY

Seekers have the right to expect consistency in policies by a teacher or group. Seekers should be formally informed in a timely manner of any policy changes.

 

O DIREITO A COERÊNCIA

Quem procura tem o direito de esperar a coerência nas políticas de um professor ou grupo. Quem procura deve ser formalmente informado de tempos em tempos sobre quaisquer mudanças.

THE RIGHT TO SEPARATION WITH IMPUNITY

Seekers have the right to discontinue association with any teacher or group

without fear of harassment or reprisal.

 

O DIREITO DE DESLIGAMENTO SEM PUNIÇÃO

Quem procura tem o direito de descontinuar sua associação com qualquer professor ou grupo sem temer perseguição ou represálias.

 

THE RIGHT TO BE AT PEACE WITH ONE’S CONSCIENCE

Seekers shall not be required or coerced into committing any action contrary to their own sense of ethics and morality.

O DIREITO DE ESTAR EM PAZ COM A PRÓPRIA CONSCIÊNCIA

Quem procura não pode ser exigido ou coagido a cometer qualquer ato contra o seu próprio senso de ética e moralidade.

 

 

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25360846_1538706246206126_625785573_nFábio Stern é wiccano desde 2000, e alto sacerdote da tradição adulariana, na qual ingressou em 2011. É também cientista das religiões, com foco em pesquisas sobre o movimento da Nova Era. Autor da coluna Comunidade Pagã, na qual escreve comentários sobre notícias do cenário pagão.

 

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