São João Galego: Resquícios do Solstício de Verão Galaico

por Karla Alves Barbosa

Durante a antiguidade, o momento do Solstício de Verão era visto de uma forma extremamente mágica e sagrada para diversas civilizações que seguiam os ciclos da natureza. Neste texto, buscaremos resgatar o possível significado e as práticas do Solstício de Verão do povo celta galaíco, partindo de uma observação de sobrevivências existentes na festa de São João na Galícia.

Os Galaicos foram um povo celta que ocupou o noroeste da Península Ibérica, desde Braga (Portugal) até à Galícia (Espanha). Muitas de suas características diferiam dos outros povos célticos, pois não foram encontrados entre eles resquícios das culturas Hallstat ou La Téne, o que, por muitos anos, levou arqueólogos a contestarem a “celticidade” desse povo. Porém, a arqueologia e o historiografia atual, com estudos da cultura e da língua, enxergam uma possível chegada dessa tribo na Península Ibérica anterior aos períodos Hallstat e La Téne, considerando-os “proto-celtas”, e criando um termo próprio para defini-los: Cultura Castreja.

O estudo enfocará exclusivamente o festejo São João na Galícia, devido aos imensos resquícios antigos nele existentes, e à sua permanência, em alguns pontos, até a atualidade, não negando que muitos aspectos podem ter sido perdidos.

A época de São João na Galícia é o momento mais mágico de todo o seu folclore. É o instante em que todas as simpatias de cura são realizadas, seja essa a cura de algo físico ou espiritual. O uso sacro das forças naturais em busca dessa cura é que nos faz perceber a proximidade com tradições muito mais antigas do que o cristianismo, anteriores até mesmo à invasão romana na Península. Sabemos que estes acabavam por incorporar as práticas dos seus dominados em sua cultura, enquanto o primeiro cristianizava os costumes ao perceber que não podia vencê-los. Então, por detrás do mascaramento cristão, podemos chegar ao sentido do antigo Solstício de Verão.

Em um primeiro momento, antes de detalhar alguns desses costumes, é bom salientar que os Galaicos originalmente não tinham templos. Como praticantes de uma religião animista, tinham as suas crenças voltadas para a natureza e seus mistérios, e suas relações com ela eram de equilíbrio e comunhão. Era nela que encontravam o seu templo. E o mais importante: eram muitas tribos e com muitas formas de celebrações diferentes, principalmente nos equinócios e solstícios.

Dito isso, podemos analisar como seria visto o Solstício de Verão para os Galaicos. Podemos dividi-lo em dois significados principalmente: era tanto um momento de abertura de passagens para os seres encantados, quanto um momento de cura.

Comecemos com o primeiro significado: fogueiras são acesas nos montes durante a noite para que os espíritos da natureza não tragam má-sorte ou para que as Meigas (bruxas do folclore galego) não surjam lançando feitiços. Segunda a lenda, esta é a noite em que elas se reúnem para planejarem as maldades que cometerão durante o ano. Estes costumes no São João parecem estar envoltos pela demonização do Cristianismo, mas se retirarmos esse manto, podemos ver uma semelhança com a festividade dedicada às fadas e aos deuses do verão em Knockáine, na Irlanda. Ou seja, a noite de Solstício de Verão é a noite dos seres encantados, quando eles podem nos levar para o seu mundo, pois também é a noite em que algum jovem desavisado poderia ser seduzido por uma lavandera (mulher encantada, jovem ou velha, que lava as roupas dos mortos no rio) e ser levado por ela, de acordo com o folclore galego.  Lembrando que, durante os tempos mais antigos, os camponeses galegos ofereciam pão e vinho à águas, pois acreditavam que os espíritos que ali viviam poderiam trazer bênçãos e fertilidade.

Então, podemos imaginar nesse aspecto que o Solstício de Verão dos Galaicos possuía alguma semelhança com as cerimônias na colina de Knockaine na Irlanda, principalmente a crença na magia do Outro Mundo. Não só na Galícia, como em toda a Espanha, no dia de São João se enfeitavam as varandas com flores e ervas. A igreja acabou por proibir tais costumes. Também podemos inferir, por essa ser a noite das Meigas, as bruxas poderosas que se reúnem no Monte Pindo (esse considerado monte dos deuses e heróis celtas) ou no Monte Neme (onde um antigo círculo de pedras existia, antes de ser destruído pela mineração, e foi lugar de dedicação ao deus celta Nemet), o caráter solar desses montes e, portanto, celestial; assim sendo, após se lavarem nesses montes, as meigas tem os seus poderes mágicos renovados pelas águas e sol para o próximo ano.

E entramos agora no segundo aspecto do Solstício de Verão: a cura. Acredita-se que pular nove ondas nessa noite pode trazer muita saúde, bem como a cura de qualquer mal anterior, e que as mulheres inférteis serão agraciadas com a fertilidade. Também saltar nove vezes a fogueira trará a proteção de todos os males e muita sorte.

O número nove, as águas, o fogo, as árvores e ervas são as forças curadoras do Solstício. Passar nove vezes pela erva que recebeu o orvalho da noite solsticial curaria os males da pele e concederia beleza, bem como tocar por nove vezes um carvalho que foi atingido por um raio na noite de Solstício traria a cura para qualquer enfermidade. Saltar a fogueira jogando um monte formado por nove folhas colhidas de uma erva chamada planta de la envidia (“erva da inveja”, que podemos assemelhar a nossa arruda ou samambaia ou espada de São Jorge), nove de ervas chamada de bruxa, bem como de alho e sal grosso, recitando um encantamento específico durante os saltos, curaria e preveniria a inveja. Ervas de cura são colhidas nessa noite e colocadas sob luz da lua e usadas para lavar o rosto na manhã seguinte com poder curativo. Como também, para se ter boa sorte e saúde, na noite de Solstício era comum beber a água de nove fontes diferentes.

Adicionalmente, no passado ou presente, percebemos que a noite solsticial é propícia para toda sorte de magia e adivinhações. As moças por toda Galícia fazem suas simpatias para adivinhar seus futuros maridos ou a proximidade do casamento.

Hoje não estamos mais nos tempos dos antepassados, e muitos de nós somos filhos da cidade grande, não tendo a natureza tão próxima. Porém, não é difícil deixarmos ervas de cura em nossos quintais durante a noite de solstício e usá-las para nossas doenças espirituais e materiais, bem como fazer oferendas aos Bons-Vizinhos, os seres encantados, para que tenhamos suas bênçãos e vivamos em paz e comunhão com eles.

 

BIBLIOGRAFIA:

ALBERRO, Manuel – El Agua, los Árboles, lo Montes y las Piedras – En Culto, Creencia y Mitología de Galicia y las Regiones Célticas del Noroeste Europeo – Anuário Brigantino, nº 25, p.11 a 38, Betanzos, 2002;

_____________ El paradigma Céltico de las Nueve Olas – Anuário Brigantino, nº 22, p.47 a 64, Betanzos, 2005;

RODRÍGUES, Manuel Corsilhas – Leyendas y Tradicioness de la Noche de San Juan en la Provincia Coruñesa – GAROZA nº 1. 47 a 65, A Coruña, 2001

 

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24550451_1903625499669558_1284226239_nKarla Alves Barbosa. Professora. Vate da Ordem Druídica Ramo de Carvalho, na qual é membro há um pouco mais de 3 anos e estudante de Druidismo há 4. Se dedicou nos últimos 2 anos ao estudo e devoção dos deuses celtas da Península Ibérica. Autora da coluna Na Fogueira Ancestral, que reúne conteúdo histórico, folclórico, religioso e filosófico sobre os Iberos Celtas.

 

 

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