As Leis do Consentimento e o Casamento

por Rowena A. Seneween

“O amor é a natureza da alma.” – John O’Donohue

As antigas leis da Irlanda conhecidas como Lei Brehon ou Senchus Mór, compiladas originalmente no século V, eram um sistema gaélico de direito natural baseado no princípio sustentável do senso comum da tribo (tuath), regulando assim as categorias da sociedade e enumerando seus direitos e privilégios, visando proteger as pessoas e a propriedade através de leis civis, militares e criminais.

As leis evidentemente estavam apoiadas na mítica pagã e os textos jurídicos escritos em verso, numa peculiar menção à poesia irlandesa em forma de rima no dialeto feniano, o Bérla Féini. Dentro deste contexto, o casamento irlandês tinha uma identidade particular a uma série de tradições específicas associadas a elas. O acordo prévio era discutido primeiro entre o clã (clann), com base nos direitos da Cáin Lánamna, a Lei dos Casais. O texto descreve os tipos de uniões e seus termos legais.

Apesar das informações em relação ao matrimônio serem surpreendentemente escassas na época pré-cristã, estima-se que a cerimônia formal geralmente era realizada diante de testemunhas para garantir a proteção dos bens do casal, incluindo sua herança, onde os cônjuges trocavam promessas perante as famílias e, finalmente, quando o contrato de casamento seria acordado. O matrimônio e a dissolução do mesmo eram costumes aparentemente pagãos e não sofreram nenhuma modificação nos tempos cristãos, exceto entre os mais ricos. Além disso, é impossível saber como era avaliada a aplicação dessas leis em uma sociedade que pouco ou quase nada sabemos.

De acordo as Leis Brehon, o homem possuía a chefia no casamento; contudo, ele não era dono da esposa, visto que havia um contrato entre eles e a mulher tinha o direito de ser consultada diante todos os assuntos, pois ela se mantinha emancipada e permanecia responsável por seus bens.

No final da época medieval, na Escócia e no norte da Inglaterra, surgiu o termo Handfasting, palavra de origem anglo-saxônica usada para anunciar o noivado de um casal, ou seja, o momento onde ocorria a troca dos consentimentos futuros ao se firmar o contrato de casamento, com a intenção de honrar o compromisso. Posteriormente, o Handfasting foi devidamente reconhecido como uma cerimônia adequada de união através do ato de juntar as mãos e selar publicamente o acordo entre as partes, por meio de um cordão amarrado em torno das mãos ou dos pulsos dos noivos.

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Celebração druídica de votos – Lívia Biancalana

Atualmente, o costume de atar as mãos acontece no dia da cerimônia do casamento. E, até meados do final do século 20, criou-se o mito do Handfasting como sendo uma antiga “prática celta pagã” de casamento experimental “por um ano e um dia” após o qual, caso não houvesse filhos, o casal poderia optar por se separar livremente ou permanecer casado enquanto existisse o amor. Em alguns grupos neopagãos, esse enlace poderia ser de caráter renovável ou não, independente dos filhos.

E tanto o amor como a paixão podem resultar em caos quando uma união inadequada acontece.

O mito sobre o Lamento de Deirdre, durante o ciclo do Ulster, relata que o druida Cathbad prevê que muitos homens morreriam por causa da sua beleza. O próprio rei Conchobar mac Nessa se apaixona por ela, mas Deirdre se casa com Naois, filho de Usnech. Eles acabam fugindo para Escócia junto com dois irmãos de Naois, mais tarde são atraídos para Irlanda por Conchobar, onde terminam sendo mortos, causando revolta e derramamento de sangue, bem como o fim trágico de Deirdre.

“Alba, através das ondas eu te vejo,

A afastastes-te lentamente de mim,

Choro as tuas florestas e os lagos calmos,

Mas o meu lugar é ao lado daquele que amo

O meu coração está com o meu amado Naois.

 

E os filhos de Ferchar cantaram:

Levantamos a âncora e içamos a vela,

Fizemo-nos seguir o oceano profundo,

Dentro de dois dias, com vento e suave brisa,

Na branca praia de Erin nós saltaremos.”

 

Conforme os mitos, o rei simbolicamente se casava com a deusa da soberania para governar a região e ela lhe ofertava uma bebida de hidromel como reconhecimento ao seu status atual; essa oferta de bebida da noiva ao noivo pode ser uma evidência pré-cristã de origem indo-européia e que se manteve até os dias de hoje. Na Irlanda, costuma-se pendurar fitas coloridas numa grande árvore de espinheiro-branco próxima a um córrego, enquanto, velas seriam acesas e colocadas por entre seus ramos para representar uma nova vida repleta de fertilidade e muita proteção aos futuros noivos.

“A possibilidade é o coração secreto do tempo.” Que assim seja… Sláinte!

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Referências – Sites em inglês:

Leis Brehon – Casamento: http://www.libraryireland.com/Brehon-Laws/Marriage.php

Senchus Mor – Sinopse: http://www.libraryireland.com/Brehon-Laws/Senchus-Mor-1.php

Cáin Lánamna: https://celt.ucc.ie//published/T102030

Handfasting Histórico: http://medievalscotland.org/history/handfasting.shtml

Casamento – Seis partes: http://www.tairis.co.uk/life-passages/marriage-part-one

Ritos de Casamento: http://www.sacred-texts.com/neu/celt/ali/ali063.htm

Mulheres e direito na Irlanda: https://celt.ucc.ie//women_law.html

Site em português:

A Mulher no Mundo Celta: http://www.nawfedpwer.com/site/mulher-mundo-celta

 

Livros em português:

BELLINGHAM, David. Introdução à Mitologia Céltica. Lisboa: Ed. Estampa, 1999.

O´DONOHUE, John. Anam Cara. New York: HarperCollins Publishers, 2000.

 

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24550497_1987849141500993_933871492_nRowena A. Seneween é webdesigner, escritora e oraculista. Atua na área holística há mais de 25 anos. Por entre fontes clássicas e acadêmicas… Busca a natureza como base de inspiração para os seus estudos no paganismo desde 1999. Druidista afiliada à ordem druídica ADF e em treinamento no The Summerlands Druid Seminary, pratica a meditação como forma de autoconhecimento. Idealizadora do site Templo de Avalon : Caer Sidd e do grupo Fidnemed an Síd, autora do livro Brumas do Tempo e integrante do projeto Alma Celta. Responsável pela coluna Cura, Visão e Poesia.

 

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