A Nona Carta: Calennig e as mensagens do próximo ciclo

por Llewellyn Mawr

Saudações,

Antes de tudo, gostaria de dizer quem está por trás da coluna A Nona Carta. Sou praticante do Druidismo Moderno, uma crença espiritual e filosófica viva. Dedico-me a Nawfed Pwer* e ao panteão Galês*, do qual devoto-me em especial a matrona Blodeuwedd* com meu respeito, estudo e culto. Como buscador, tenho me debruçado a conhecimentos diversos no sentido de encontrar minhas respostas: História, Antropologia, Druidismo, Florais de Bach, Eneagrama, Dança Circular, Oráculos, entre outros. Ofereço no formato de carta aberta uma maneira de ver o caminho interior do druida. Não sou um mestre, guru, líder, coach, sei lá o quê… Apenas sou mais um, igual a você, fluindo e experimentando o mundo. Não lhe peço que concorde ou discorde. Mas se puder convide-se a abrir seu olhar para o Ser Interior – nutrindo mente, corpo e alma.

Dia 31 de Dezembro, véspera de Ano Novo, Virada do Ano, Réveillon. No Brasil as pessoas se reúnem com seus familiares, vestem roupas com cores que tragam boa sorte, pulam as ondas no mar, oferecem flores para seus santos, brindam com muitos fogos e alegria. Essa simbiose de festas eufóricas se repete pelo globo de formas e razões diferentes, tomando a ideia e conceito das culturas locais. Há questões históricas que envolvem a imposição cultural, social e econômica do ocidente sobre o mundo através do calendário gregoriano que não podem ser negadas. Contudo, percebe-se que cada região do planeta, norte ou sul, parecem convergir em uma egrégora que para além de festivas, encontram em suas culturas formas de congregar e emanar um tipo de Nwyfre* planetária.

Isso não é diferente entre as nações célticas. O Calennig (pronuncia-se KEL-Ê-NIG) é um costume festivo tradicional no País de Gales que comemora o giro do ciclo do calendário comum, fazendo parte das comemorações de finalização do ano. O termo em galês tem um significado singelo: “Presente” ou “Primeiro Dia”. Nos centros urbanos é realizada do dia 31 de Dezembro para o dia 1 de Janeiro e normalmente segue os ritos atuais com famílias reunidas, a ceia e os fogos. Mas em regiões mais rurais observa-se uma possível sobrevivência de cultos pagãos que fazem referência à cultura celta e ao calendário Juliano, ocorrendo no dia 13 de Janeiro. E onde encontramos as famosas Maças de Calennig, que podem ser confundidas como meros enfeites natalinos na casa.

É muito simples de fazer a sua. Vou anotar o que você precisará:

– 1 Maça.

– Cravos (quantos quiser).

– 3 Gravetos.

– 1 Ramo Verde.

O costume se resume a cravejar a sua maça com os cravos, fazendo pedidos para o ano que está chegando: saúde, prosperidade, amor, união, paz, etc.. Após esse ato de meditação profunda com seus desejos, você tomará os três gravetos de madeira e fincará em três pontos abaixo da maçã, formando um tripé que sustenta seus pedidos. Por fim, o ramo verde é embutido na parte superior da sua maçã, criando uma ligação com o crescimento ao mundo celeste.

Pode ser apenas uma tradição boba para os que não veem o significado mágico. A Maça representa o Outro Mundo, já que em vários mitos célticos esse fruto aparece como uma fonte de inspiração, juventude e poder, além de estar associado à Ynys Afallach* e as deusas e deuses do mundo além das nona onda.  Os cravos representam o plantio de nossos desejos para o próximo ano, que são colocados na Terra fértil do Outro Mundo para que sejam ouvidos e realizados enquanto nosso mundo dorme no Solstício de Inverno. O tripé feito com os gravetos representa o poder sagrado do número três, que elevam todos os pedidos e sustentam sob o juramento dos três mundos as fortunas solicitadas. Por fim, o ramo verde simboliza a ligação com o plano celeste e o crescimento inevitável e pleno das sementes/cravos.

Outra questão importante a se dizer é que tradicionalmente é no Calennig que as pessoas se presenteiam, e não no Natal. As Maças são inclusive um tipo de presente em algumas ocasiões. As crianças levavam as maças de casa em casa, batendo de porta em porta, cantando pequenos versos poéticos em agradecimento e desejando a família daquele lar um ano novo de prosperidade. Em troca recebiam singelos presentes, na sua maioria alimentos. Os pães e os queijos são na sua maioria os prêmios mais oferecidos.

A raiz simbólica do Calennig denota a celebração do aqui e agora, do que é e do que não é, um momento universal de comunhão. Não importa se você segue pelo Norte ou pelo Sul, o Calennig nos une numa mesma confluência de energia planetária. É um momento de decisão e mudança, de nos perguntarmos: Que caminho me levará mais rapidamente e de forma concisa aos meus objetivos? Por isso me atrevi em minhas práticas druídicas modernas exaltar sua importância e colocá-la entre os oito festivais solares e tradicionais célticos, como uma nona celebração.

Por isso o Ano novo é um momento de reflexão para mim: o que fizemos em 2017? O número do ano que passou foi o 1 (2+0+1+7=10=1), sendo que dentro da numerologia druídica da Nawfed Pwer esse número representa a energia primordial e a flor da  Prímula. O ano foi regido pela Ira, um sentimento de irritabilidade e caos. A personalidade do Revolucionário apareceu de forma plena. Foram comuns os conflitos, os protestos, as violências. Isso porque o 1 é o impulso e sua esfera de manifestação é a existência. O ultimo ciclo havia terminado e o ano pediu que algo fosse transformado, que as máscaras caíssem no chão, que a desordem fosse instalada, que os sistemas passados desmoronassem. Uma nova base surgiu e é esta que encararemos no ciclo atual. Aqueles que compreenderam que a Ira é uma força criativa ou grito que te leva a libertação na calma e serenidade estão se sentindo em transição.

Não é por acaso! Em 2018 o número será o 2 (2+0+1+8=11=2). A força do 1 emana a Ira porquê ele está sozinho e no caos. Já a força do 2 emana o Orgulho, porque há uma disputa entre dois polos que estão tentando decidir quem será mais adulado. Esse número representa a terra debaixo dos nossos pés e sua flor é a Giesta. Será um ano regido pela personalidade daqueles que se doam demais e não sabem dizer não. O grande problema é que um dos lados quer dar mais que o outro, muitas vezes trazendo desiquilíbrio. Lembrando que teremos no Brasil um ano de Eleições em um momento de crise política e essas questões devem ser consideradas. As pessoas, grupos, lugares, nações estarão em busca do respeito e do seu espaço no mundo. E no momento dos embates, será hora de se perguntar: quem eu sou? Também será um ano para estudos, viagens, de construir relações, trabalhar em grupo, de aperfeiçoamento e amadurecimento interno. O grande aprendizado terá fertilidade quando soubermos lidar com o Orgulho de uma forma positiva, onde a humildade relembre a essência do caminho de estar vivo.

Desejo a você e aos seus um Feliz Calennig!

Que o poder do nove nos traga boa fortuna!

Vida longa a Nona Carta!

/|\ Awen

 

Notas:

* Nawfed Pwer (Nona Potência) é um tipo de força mágico religiosa traduzida em um sistema baseado na numerologia do 9 presente em mitos, poesia, símbolos e história das populações célticas. Conheça o site Nawfed Pwer.

* Tenho me centrado a leitura e análise espiritual do Mabinogion, um conjunto de contos e histórias do País de Gales.

* Blodeuwedd é uma divindade que aparece no Quarto Ramo do Mabinogion. Foi criada por Gwydion e Math para se casar com Llew Llaw Gyffes, através da união de Nove Flores e Nove Poderes, sendo também a senhora da Nona Onda do Mar.

* Nwyfre pode se traduzir do galês médio “Vigor” ou “Força Essencial”. Denota uma energia que interliga todo potencial de vida que existe e permeia o universo. Pode ser comparado ao Chi da cultura tradicional chinesa.

* Ynys Afallac (Avalon) significa literalmente “A Ilha das Maçãs”.

 

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26175009_1999937056891154_2043891063_nLlewellyn Mawr é historiador, professor, escritor, focalizador, terapeuta, estudioso das culturas tradicionais, dedicado ao panteão galês e ao Druidismo Moderno, administrador e autor do web-site Nawfed Pwer e organizador-palestrante da Reunião Sazonal Druídica que ocorre na cidade brasileira de Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

 

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