Tribalismo e os valores, parte I

por Valmir Júnior

Uma das partes mais incompreendidas do heathenismo moderno são as virtudes. As discussões que eu tenho visto mais acaloradas têm sido acerca da legitimidade das nove virtudes nobres. Elas seriam tradicionais ou não?

A verdade é que temos que nos perguntar: o que é a tradição?

Este é um termo que tem sido muito mal definido em diversos grupos em que há discussão sobre o que é tradicional. Nos termos modernos, tradicionalismo é na maioria das vezes confundido com conservadorismo social. O que é, na verdade, um erro gritante. Se formos analisar a estrutura social dos antigos povos germânicos, bem como de celtas, eslavos, ou mesmo os povos autóctones da América (aqueles que aprendemos a chamar de indígenas), suas sociedades estavam, na maioria das vezes, organizadas de forma que havia bem pouca, ou nenhuma desigualdade social. Esta é uma outra discussão, que pode ficar para um texto futuro. Mas podemos fazer uma rápida passagem por esta questão.

O historiador inglês Perry Anderson, demonstrou em seu trabalho denominado Passagens da Antiguidade para o feudalismo, [1] que a sociedade germânica era um tipo de sociedade com pouquíssimas desigualdades sociais e sem classes. Você pode se perguntar “ah, mas havia o thrall, o karll e o jarl”, sim, mas estes eram estamentos sociais e não classes – e não me cabe aqui explicar a diferença entre uma sociedade de classes e uma sociedade estamental, me desculpem, este não é um site de história, mas o Google está ai – e para haver classe é preciso haver propriedade privada.

Aqui estamos diante de um dos principais valores dos germânicos pré-cristãos (e nesse caso, posso acrescentar, pré-romanos), o comunitarismo. Porque eu afirmo que não havia propriedade privada e o Jarl é mais rico que o Karl que é mais rico que o Thrall? Aqui estamos diante de um outro problema da mentalidade moderna, a riqueza é um conceito que não cabe a sociedades antigas. É de se espantar, mas nas sociedades antigas, era muito comum os escravos terem propriedade, às vezes mais que o seu senhor, mas ele continuava a ser um escravo, porque o Tralldom não estava relacionado à propriedade mas era um estamento, isto é, ele seria escravo independente de suas posses. Mas a ideia germânica de propriedade era diferente.

Imagine que você seja parte de um grupo seminômade, seu grupo é formado por uma família, como um ancestral em comum, esta família alargara (tios, primos etc, liderados pelo mais velho ainda vivo) seja chamada de clã, este clã pertence a uma família ainda maior chamada Theod (tribo). Assim eram os germânicos. Periodicamente as terras da tribo eram redivididas, ou seja, os clãs trocavam de territórios, era como se fosse assim: depois da migração você ficou com uma terra ruim, mas seu vizinho ficou com uma terra boa e produtiva, Depois de um ano, o líder da tribo chamava vocês dois e trocava a terra de cada um, assim você ficaria o próximo ano com a terra melhor, e seu vizinho com a outra em que você estava. Isso impedia que algum clã se tornasse mais abastado que o outro. Como na sociedade germânica a terra era o principal meio de produção (era uma sociedade agrária), podemos dizer que não havia propriedade privada, mas uma propriedade comunitária, ou melhor dizendo tribal. Isso só viria a mudar futuramente com o contato com os romanos.

Podemos ver que os valores dos germânicos não eram baseados no indivíduo, mas na comunidade, a terra pertencia à tribo, e era dividida entre os clãs e não entre os indivíduos.

O clã era o corpo central, a tribo era a família do clã. Quando um indivíduo causava dano a outro de um outro clã, era dever de todo o clã do criminoso pagar o Wergeld (compensação de um dano causado, significa “o preço do homem”), e quando o dano era infligido a alguém de outra tribo, ou a tribo inteira pagava o wergeld ou haveria guerra, o que era mais provável.

A virtudes modernas

Toda essa explicação sobre o comunitarismo dos germânicos é para esclarecer sobre as codificações de virtudes que se criaram atualmente. Tem se debatido muito sobre a validade das nove virtudes nobres. Uns dizem que são legítimas, outros que são apenas criações modernas, e o são, mas até que ponto não podem haver criações modernas desde que tenham base na tradição?

Mas o que seria tradição? Segundo o Dicionário Online de Português, tradição é

Transmissão de doutrinas, de lendas, de costumes etc., durante longo espaço de tempo, especialmente pela palavra: a tradição é o laço do passado com o presente; é tradição deles festejar os aniversários. Transmissão oral, às vezes registrada por escrito, dos fatos ou das doutrinas religiosas.[2]

Ou seja, tradição não é aquilo que era feito no séc. XX, mas aquilo que me foi passado. O filósofo tradicionalista italiano Julius Evola, citando António Sardinha em nota que consta de sua obra “Os homens e as ruínas”, salienta que o pensador português acertou ao afirmar que a Tradição não é apenas o Passado, mas, antes, a “permanência no desenvolvimento”, a “permanência na continuidade'”.[3] Isto é tradição, é aquilo que permanece e se desenvolve e continua.

Infelizmente, nossa tradição não foi continuada, não nos foi entregue por várias gerações onde possamos traçar a linha genealógica de quem nos passou, como acontece no budismo ou outras religiões orientais. Podemos dizer que nossa tradição foi recontinuada, ou recriada nos dias atuais e muitos grupos heathens criam fórmulas ou listas que codifiquem os valores ancestrais. As nove virtudes nobres caem nesse ramo.

Mas elas não são as únicas. Existem pelo menos mais três codificações modernas. As Nove Virtudes Nobres são normalmente seguidas por asatruares e odinistas, mas muitas vezes também por theodistas, mas os theodistas também criaram outras codificações. Isso acontece porque o theod é uma crença tribal, comunitária, e as NNV são virtudes individuais que foram criadas na década de oitenta pela Odinic Rite. Para criar uma codificação moral que tivesse base em valores comunitários, os theodistas criaram várias listas de “Thews” as quais explorarei mais à frente.

É preciso falar que apesar de haver várias tentativas de consolidação em uma lista, os princípios ou as virtudes que os antigos heathens germânicos seguiram. Isso provavelmente não é possível. A antiga religião nunca dependia de coisas como listas de thews. Em vez disso, estas virtudes estavam implícitas em suas leis, máximas e versos folclóricos. Muitos deles podem ser vistos no “Hávamál” da Edda, e outros nas sagas e contos. No entanto, para os heathens modernos estas listas são úteis.

 

[1] ANDERSON, Perry. Passagens da antiguidade ao feudalismo. Porto, Afrontamento, 1982

[2] Disponível em: https://www.dicio.com.br/tradicao/

[3] António Sardinha e o Integralismo Lusitano.

 

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26114093_1978610038823765_5564215317686912865_nValmir Júnior é Gudja do clã Draka, um dos representantes brasileiros da Irmandade Odinista do Sagrado Fogo. estudante de história com pesquisa em escandinavística medieval. Sacerdote, Galdramadhur, Seidhmadhur e vivenciador dos mistérios da antiga fé do norte.

 

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