Entre reflexões e orações: qual o sentido do Neopaganismo?

por Álex Hylaios

Desde sempre a humanidade busca respostas. Nossa incessante habilidade em buscar, nos levou a questionamentos dos mais variáveis: De onde viemos? Para onde vamos? Quem somos? O que vem depois da vida? E na prática religiosa neopagã, isso não é nada diferente. Muito pelo contrário, é muito mais diverso e também profundo do que vemos nos longos debates de marketing e promoção de egos que temos de lidar em grupos brasileiros nos últimos tempos, principalmente na internet.

Porém hoje no Brasil estamos caminhando para um cenário de pluralidade da religiosidade neopagã e profunda difusão do conhecimento mágico, jamais vista em outra época na nossa juvenil história nessa estrada. Cada vez mais grupos de magia e de vertentes neopagãs com abordagens profundamente distintas surgem e fora o contexto da seriedade e segurança[1] de um grupo mágico, isso é apenas e unicamente positivo. Qualquer um que diga o contrário estará apenas mascarando seu conservadorismo e dogmatismo num discurso raso e sem muito embasamento além do “eu acho!”. O Paganismo sempre foi um caminho da união e respeito das diversidades religiosas; mesmo numa perspectiva histórica onde essa afirmação não tem nada de “mar de rosas” (talvez um mar vermelho, com corpos boiando e algumas vilas e populações varridas do mapa, com o perdão do trocadilho), numa perspectiva contemporânea o Neopaganismo representa social e politicamente exatamente isso: um convite para se admirar e porque não vivenciar, o outro, o estranho, o marginal e o diferente.

É comum ouvir também que os caminhos neopagãos são caminhos de autoconhecimento. Afinal, lidar com a observância na/da Natureza sob um viés espiritual, não poderia ser diferente. Não temos um bode para expiar nossa responsabilidade, não temos um inimigo supremo que nos tenta para nos desviar do único caminho da salvação, não temos nada, no fim, além de um grande e enorme lago espelhado refletindo sem piedade, sob a luz do Sol ou da Lua, cada escolha que assumimos e cada ato que realizamos a partir dela. E isso dói; dói tanto que a maioria das pessoas ao encararem a si mesmos, ou ao outro, o estranho, o marginal e o diferente, simplesmente surtam, esperneiam ou ignoram, assumindo a falsa premissa da zona de conforto. Nossa realidade é simples: a Natureza não é boa, ou má ou confortável. Assim como a vida, a Natureza simplesmente é. E a religiosidade neopagã revela esse terrível e majestoso convite: um convite a Ser, e não a simplesmente Estar nessa vida.

A Noite Escura da Alma. A Via Tortuosa. O Caminho da Bruxa. Seja qual for a nomenclatura, a profundidade da espiritualidade neopagã nos faz enxergar a beleza de ser diferente, dentro de si, fora de si, frente ao(s) outro(s) e a vida. Sua maior prova de algo ter real sentido, aquela paixão sonhadora que impele seus sonhos e os concretiza em ação, vem apenas e unicamente de dentro, do seu ser. E ao ser, você deixa simplesmente de estar; estar para si, e ser para si, estar para o outro, e ser para o outro, estar para o mundo, e ser para o mundo.

Se seu sentido de praticar sua espiritualidade neopagã encontra-se mutável, instável, volátil, você certamente está num caminho certo, no Seu caminho certo, sendo um verdadeiro neopagão vivenciando sua espiritualidade, como deve ser. Assim como as ondas do mar nunca são as mesmas, assim como o vento que traz a chuva, a seca ou a brisa refrescante nunca é o mesmo, assim como cada minuto na Natureza nunca será a mesma coisa; sua vida também muda, ela cresce, se transforma, por vezes imperceptível, mas sempre em movimento. Como a Natureza. E se você crê que sua zona de (des)conforto é o ideal, sua crença é sólida e inabalável, se você busca um ideal de perfeição iluminada, uma espiritualidade baseada nos ritmos desse planeta certamente não é o seu caminho. Pois assim como o falso-idealismo da iluminação mascara o puro dogmatismo estéril, uma ode ao egocentrismo, por fim isso nada mais é do que um terreno infértil, superficial e vazio. E se tem algo que nunca é tolerado na Natureza, no Universo, são espaços vazios.

E quando houver aprendido a ser para si, seja para o outro. Leve esse estado de espírito para o o outro, para sua tribo, para seu mundo. Mova-se. Seja como brisa, onda, ou tempestade. Pois sua prática sempre terá para onde crescer, sempre encontrará algo novo para descobrir, sempre surgirá um novo caminho por onde andar. O Neopaganismo é movimento, mudança, Vida.

Assim como tudo na Natureza.

[1] Leia mais sobre a ética, segurança e perigos de um grupo, aqui: https://goo.gl/hk5UjF

 

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Álex Hylaios é bruxo, iniciado da Tradição Caminhos das Sombras e iniciante da Tradição Wanen. Tem suas práticas devocionais focadas no Deus Pan e na vivência e aprendizado acerca do Sagrado Masculino. Autor da coluna Um Sátiro na Cidade

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