Druidismo é minha religião

por Dartagnan Abdias

Imagem em Destaque: Foto de Joab Nascimento (2016)

Há um tempo, pouco menos de um mês, me deparei com uma leitura realmente interessante e reflexiva, um texto intitulado “Druidry is not my religion” do druida John Beckett, publicado em seu blog em fevereiro de 2016 e brilhantemente traduzido para o português por Jully Basílio em dezembro de 2017. E é em resposta a esse texto que escrevo.

Não há que se negar a brilhante mente de Beckett, muito menos pretendo invalidar o texto. Ele traz um misto de reflexões que me fez por semanas pensar e repensar muitos assuntos. Sim, o texto é realmente muito bom e traz muitas coisas que assumo concordar, mas discordo profundamente da ideia central apontada pelo autor.

O texto começa lucidamente falando da história do Druidismo, mencionando o Reavivamento Druídico na Europa e deixa bastante claro que nesse início não havia pretensão em reviver de fato a religiosidade ou a “antiga religião céltica”, como sugere o autor. “Eles eram cristãos vivendo em um mundo completamente cristão. Em vez disso, eles tentaram conciliar o que sabiam e o que achavam que sabiam sobre os celtas antigos com o Cristianismo e a Bíblia, e tentaram tornar os Druidas na versão britânica dos patriarcas Hebreus – os precursores de Cristo.” (Beckett, tradução de Basílio, 2017). Talvez esse seja um dos textos mais sinceros sobre o surgimento do Druidismo que já tenha lido, histórico e preciso quanto a fundação do Druidismo.

Eventualmente as coisas foram evoluindo e os caminhos do esoterismo europeu levou às bandeiras do reavivamento pagão que hoje já se espalhou pelo mundo todo de diversas formas. Conduzido por esse processo lento e profundamente acentuado desde o século passado. O Druidismo é hoje um dos maiores movimentos pagãos, em sua maioria profundamente apartado do cristianismo e com grande interesse em reviver a religiosidade céltica de outrora. E é aqui que minhas divergências começam.

Na defesa de que Druidismo é um ofício e que, portanto, não faria sentido denomina-lo religião, Beckett discorre um texto muito profundo, falando de suas múltiplas pertenças, da pluralidade dentro do Druidismo e do Paganismo e as múltiplas interpretações sobre ser ou não religião. Em momento algum, o autor é taxativo e generalista, deixa bem claro que “para ele druidismo não é sua religião”, e assume que outros podem ter visões diferentes. Pois bem, eis minha visão do cenário.

De fato, os povos antigos não falavam em religião, esse conceito não existia para eles, e não havia necessidade de existir. A religião, ou a fé, não estava distante ou separada do mundo comum, era amplamente vivenciada, aceita, fazia parte da cultura viva compartilhada e vivenciada por todos. Se distinguiam não por religiões diferentes, mas por povos ou culturas diferentes, entre quais deuses celebravam e como o faziam. Religião era algo de nascimento, não de conversão ou escolha. Ou seja, era desnecessário nomeá-la. Assim, celtas não eram druidistas, gregos não eram helênicos e por aí vai…

A necessidade de distinção vem, sobretudo, com a cristianização, a conversão em Cristo da Europa, e foram exatamente os padres e místicos católicos a cunharem o conceito de religião que conhecemos hoje em toda sua complexa definição. Etimologicamente, a palavra “religião” poderia ter vindo de dois verbos latinos: “religare” (com conjugação na primeira pessoa do presente do indicativo “religo”), significando uma reconexão entre o homem e o Sagrado (Deus); ou “religere” (com conjugação na primeira pessoa do presente do indicativo “religio”), significando a regência de regras morais ou de dogmas para a condução de uma vida espiritual ou santa. Modernamente, a escolha mais comum com a qual compactuo é a atribuição ao “religare”.

Pensando por esse caminho, podem ser consideradas religião as instituições filosóficas, espirituais e sociais que pretendem reconectar o homem ao Sagrado, e, tendo eu a interpretar, que essas instituições ditem de maneira mais ou menos flexível a ética ou os dogmas com os quais seus seguidores interpretam e vivem o mundo. Portanto, aponto para o fato de que os dois verbos aparentemente se fundem quando nos deparamos com alguma religião. Por outro lado, as filosofias espirituais ou filosofias de mundo abarcam o que podemos entender por religiosidade: uma base de pensamento comum às religiões pertencentes a essa ou aquela filosofia espiritual ou de mundo. Nesse contexto, podemos dizer que o Catolicismo é uma religião e que o Cristianismo é uma religiosidade. Sigo a mesma linha em dizer que Druidismo é uma religião (ou ao menos o é hoje) enquanto Paganismo é uma religiosidade.

Mas há grupos profundamente diferentes em suas interpretações acerca da fé dos antigos celtas, como podemos falar de “uma religião”? Vamos entender primeiro que haviam muitos povos célticos diferentes com vivências de sua fé e espiritualidade bastante diferentes, então não dá para exigir uma unidade de algo que sempre foi plural, mesmo que hoje esteja sendo revivido. Segundo, não existe unidade pura e simples em nenhuma religião. Pegando novamente de exemplo a Igreja Católica, há vários catolicismos diferentes, várias ordens monásticas com interpretações diferentes das escrituras, ênfases diferentes em determinadas práticas e, eventualmente, práticas profundamente diferentes entre si. Ainda que a unidade ritual e a unidade de escritura exista. Dessa forma, ser uma religião não é necessariamente possuir uma unidade estreita, mas defender uma mesma fé ainda que os métodos e crenças pontuais sejam polissêmicos.

Se o Druidismo nasceu cristão, hoje ele é pagão. Se ele nasceu filosófico, hoje ele é religioso.

Quando Beckett diz “pra mim, a definição de religião é lidar com as Grandes questões da Vida: por que estamos aqui? Qual a natureza da vida? O que acontece depois da morte? Essas questões podem levar o questionador em muitas direções diferentes – elas levaram-me na direção da Natureza e dos Deuses.” (idem) ele define uma das responsabilidades que atribuímos às religiões hoje em dia: explicar aquilo que não é dado ou explicado, aquilo que não encontramos resposta nem na ciência. Mas ai eu deixo uma pergunta: o Druidismo não faz exatamente isso? Não responde a essas questões (ainda que hajam respostas plurais), não nos conduz em fé e filosoficamente em direção a Natureza (que consideramos sagrada) e aos Deuses a quem nós prestamos nossa devoção? Portanto, não é o Druidismo uma religião?

Mais a diante, o autor vai definindo uma série de buscas e respostas que atribuímos às religiões e que também encontro no Druidismo. E aí ele fala um ponto que me ressalta os olhos: “Algumas pessoas precisam de limites claramente definidos de uma tradição específica. Algumas pessoas encontram tudo que precisam em uma tradição específica. Se sua religião é o Druidismo da OBOD, ou a Wicca Gardneriana ou o Catolicismo Romano, então que seja”. Primeiramente, retomo que o autor reconhece a possibilidade do Druidismo ser uma religião, mas talvez seja aqui o ponto de confusão de muitas pessoas. Para mim, o Druidismo de fato não é uma tradição fechada. Mas uma religião que abarca inúmeras tradições, fechadas, abertas ou mais ou menos fechadas. E a polissemia que ele descreve como parte de sua religião, ou o sincretismo que ele mesmo faz em sua vida e religiosidade, não excluiria ou deterioraria a confissão de que “o Druidismo é minha religião”. Os celtas não viviam fechados em suas práticas religiosas e culturais, havia muito câmbio entre culturas e obviamente bastante sincretismo e importação cultural, no mundo globalizado de hoje isso se intensifica, mas ainda assim não se descredibiliza.

Eu posso ser um druidista religioso, de confissão e de fé, praticar Yoga, cantar mantras hinduístas, frequentar um Terreiro de Umbanda ou Candomblé, participar de um ritual xamânico. Toda essa complexa teia das minhas relações pessoais, sociais, filosóficas e espirituais não se negam se fizerem sentido pra mim e, igualmente, não negam que o Druidismo seja minha religião, pois o mesmo se aplicaria a um católico, espírita, wiccano, ou quem quer que seja. O fato é que posso praticar ou seguir uma tradição espiritual coletiva, mas ainda assim minha prática seria só minha, isso faz parte do mistério da minha fé, da minha crença. Eu direciono minha vida sob a cosmologia de minhas práticas e das filosofias druídicas de que compartilho, como um católico o faz em relação ao Catolicismo. Contudo, meu caminhar nesse mundo me leva constantemente a ampliar meu horizonte e, por mais longe que eu ande, minha casa ainda será minha casa, a menos que eu me mude. Meu religere é a druidaria (ainda que ela seja polissêmica e difícil de definir) e meu religare é feito através do Druidismo.

Discordo de Beckett, pois meu Druidismo é religioso, pois Druidismo é minha casa, minha religião, minha fé. Mas concordo com ele quando diz:

Algumas pessoas dizem que “rótulos apenas nos dividem”. Eu não concordo. O Druidismo da OBOD e o Druidismo da ADF são compatíveis e complementares, porém são duas coisas diferentes e é necessário entender essas diferenças se quisermos praticá-las autenticamente. Todos os nossos conceitos religiosos, crenças e identidades nos auxiliam a aprofundar e refinar nossas práticas. Nos ajudam a entender que fazer coisas diferentes de maneiras diferentes nos trará resultados diferentes, e se não gostarmos dos resultados, precisamos mudar nossas crenças e práticas. (idem)

Bibliografia base:

BECKETT, John. “Druidry is not my religion” in Under the ancient oaks in Patheos. Publicado em: 14 feb. 2016. Disponível em: <http://www.patheos.com/blogs/johnbeckett/2016/02/druidry-is-not-my-religion.html >, acessado em: 29 dez. 2017.

BECKETT, John. Druidismo não é minha religião (tradução livre de Jully Basílio) in Chamado de Morrigan. Publicado em: 29 dez. 2017. Disponível em: <https://chamadodemorrigan.blogspot.com.br/2017/12/traducao-druidismo-nao-e-minha-religiao.html >, acessado em: 29 dez. 2017.

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

ELIADE, Mircea. Tratado de História das Religiões. São Paulo: Martins Fontes, 4ª ed., 2010.

OTTO, Rudolf. O Sagrado. São Leopoldo: Sinodal/EST, Petrópolis: Vozes, 3ª ed., 2014.

SARAIVA, F. R. dos Santos. Novíssimo dicionário Latino-Português. Belo Horizonte: Garnier, 12ª ed., 2006.

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Dartagnan Abdias, natural e residente em Juiz de Fora / MG, é professor, antropólogo (UFJF-2013) e mestre em Ciência da Religião (UFJF-2017). Em sua jornada acadêmica se debruça a estudar os meandros da Bruxaria Moderna, realizando um recorte sobre os movimentos Pagãos e mais acentuadamente sobre a Wicca no Brasil. Mas também tem envolvimento com pesquisas, dinâmicas e palestras envolvendo trabalhos acerca de Bullying, gênero e sexualidade. Religiosamente, é pagão desde 2002 e, por confissão, druidista desde 2009, adotando o nome religioso Ávillys d’Avalon, Mundi Tempus. É fundador, sumo sacerdote e druida do Leanaí an Ghealach Clann em Juiz de Fora / MG, grupo druidista filiado ao Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta (CBDRC), e também é membro do Fidnemed an Síd de Jundiaí / SP, coordenado por Rowena A. Seneween, também filiado ao mesmo Conselho. Também gerencia a marca Mundi Tempus, na qual divulga seus trabalhos e produtos mágicos, e exerce a função de oraculista, tendo o Ogham (oráculo celta) como seu carro chefe.

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Uma resposta para “Druidismo é minha religião”

  1. Eu vou deixar aqui um fragmento de um texto que gosto bastante, e creio que contrasta a posição do autor, mas pode lhe fornecer um outro ângulo de visão:

    “Nos EUA há dois grandes exemplos de espiritualidade, aparentemente muito diferentes, que são resultados de um mesmo contexto. Se por um lado há a teologia da prosperidade, que se empenha na obtenção de riquezas materiais por meios espirituais (melhor emprego, melhores bens, saúde física, etc.), por outro há os que buscam as religiões que lhes parecem mais exóticas, a fim de tentar preencher o espaço deixado pela visão religiosa anterior.

    Ambas as atitudes são próprias de sociedades de consumo.

    Aquele que busca riquezas materiais é explicitamente materialista, não é necessário discorrer sobre isso. O buscador de religiões exóticas também o é, por comportar-se como um colecionador de experiências, um perseguidor de sensações. Elementos de culturas ancestrais servem-lhe como produtos de consumo dispostos como pratos em um cardápio: hoje ele aprende reiki, amanhã massagem ayurvédica, depois de amanhã experimentará alguma forma de xamanismo.

    Tal indivíduo espiritualista não busca um caminho espiritual. Ele crê ser capaz de construir o próprio caminho, completamente livre de rótulos e padrões, com um pouco de tudo o que conseguir juntar.

    Por experimentar diversas sendas, mas não se aprofundar em nenhuma; por viver experiências espirituais como “sensações” de um cardápio de sabores, sem uma base que lhes dê significado; por não ter uma cosmovisão sólida e consolidada, mas uma colcha de retalhos de cosmovisões tiradas completamente de seus contextos originais, o espiritualista segue tonto, sem um caminho definido e sem saber muito bem para onde vai. Ele tenta construir sua própria estrada para a “transcendência”, “próximo passo evolutivo” ou “despertar da consciência” sem fazer a menor ideia do que isso seja e sem dispor de ninguém que já tenha alcançado tal estado para lhe guiar. Esvaziadas de ethos, as práticas espiritualistas também são esvaziadas de espírito.

    Ao querer abraçar tudo, o espiritualista crê ser capaz de se estender indefinidamente. Delimitar-se, para ele, significa limitar-se, estar preso a uma forma estática. Entretanto, ao se estender, o espiritualista agrava a sua perda de identidade, pois o pouco que lhe resta se dissolve numa realidade muito maior e mais poderosa. Delimitar-se, de fato, significa dar forma a um conteúdo bem definido. Significa dar contornos a uma identidade forte e bem construída.

    Tanto o espiritualista quanto o extremista são resultados de uma crise espiritual resultante do enfraquecimento de sua relação com seu ethos. Essas pessoas buscam constantemente construir uma identidade própria, mas carecem dos referenciais mais básicos.

    Sem saber de onde viemos, não conseguiremos ir a lugar algum. Sem uma identidade como base, não sabemos quem somos. Sem sabermos quem somos, nunca descobriremos quem podemos ser.”

    Fonte: http://athenaion.hellenismo.net/blog/2017/12/28/a-perda-de-identidade-e-a-crise-do-espirito-no-seculo-xxi/

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