O que acontecerá com a nossa história fonográfica?

por Fábio Stern

É de amplo conhecimento que algumas religiões se afirmam por suas músicas. A cultura gospel entre os evangélicos, os mantras nas religiões indianas, os pontos nos terreiros de umbanda e candomblé são alguns exemplos bastante óbvios entre brasileiros de que música e religião podem ter uma relação bastante íntima. No caso do neopaganismo, e em especial da wicca, os cantos também exercem grande importância ritualística. Porém, diferente dessas outras religiões, não parece haver grande preocupação dos pagãos em escrever as partituras de nossas músicas.

A partitura musical é, de fato, uma invenção católica. Criada durante a Idade Média para padronizar o canto coral gregoriano, tornou-se uma revolução por permitir o registro histórico de fontes musicais. Com isso, não demorou muito tempo para que se emancipasse dos muros dos mosteiros, e hoje é algo difundido e utilizado universalmente, inclusive por religiões e culturas não cristãs. A escrita musical se tornou uma ciência tão avançada que é possível, inclusive, criar notações para instrumentos de percussão, apontar a dinâmica musical (mudanças de velocidade da música ou de intensidade dos volumes), a forma mais correta de interpretação das notas e quais passagens devem ou não ser enfatizadas em uma peça.

Mas no que diz respeito ao cânticos pagãos, os poucos que tendem a ter suas partituras difundidas são aqueles que chegaram até nós da Idade Média (p. ex. um conjunto de partituras apresentadas por Raymond Buckland em seus livros de wicca). Apesar do meio pagão ser extremamente musical (movimentos como o rock pagão são apenas a ponta desse iceberg), quase sempre apenas as letras de nossos cânticos são registradas. Se para quem faz parte do grupo esse registro é suficiente, ele dificulta uma maior difusão e popularização de nossa identidade musical para outras regiões, limitando o acesso a esse pedaço importante da cultura ritualística das religiões neopagãs.

Para entender o que faço, podemos pegar como exemplo um site de letras musicais. Você já tentou aprender a melodia de uma música que você não conhece apenas lendo as suas letras? É impossível. O mesmo acontece com nossas músicas: se não documentarmos, de alguma forma, as melodias de nossos cânticos, aumentamos muito as possibilidades de que eles não sobrevivam às próximas gerações de neopagãos.

Entendo que há questões importantes que estimulam essa dificuldade de registro musical. O primeiro ponto é que as músicas neopagãs possuem, quase todas, direitos autorais restritos. Diferentes de músicas tradicionais de outras religiões, os cânticos neopagãos mais populares são criações comerciais, cujos autores pretendem manter os direitos de cópia (mesmo que apenas de modo parcial). Até quando o autor do cântico já faleceu, o movimento pagão moderno não possui idade suficiente para que suas produções intelectuais entrem em domínio público ainda. Isso, evidentemente, dificulta a difusão das partituras, por motivos legais.

O segundo ponto é que parte considerável dos cânticos pagãos modernos é oriunda ou influenciada por música indígena. As tradições xamânicas, no geral, se caracterizam pela oralidade. O popular cântico “Moon, Sister Moon” (traduzido no Brasil como “Lua, Mãe Lua”) era originalmente um cântico indígena cantado por mulheres de determinadas etnias xamânicas nos Estados Unidos, e foi adotado por wiccanos para celebrar os esbás. E evidentemente, esse cântico não possui notação musical em sua fonte original.

No caso de países de extensão continental, como ocorre com o Brasil, há outra questão que também se apresenta: muitas vezes grupos neopagãos de uma região acabam não estabelecendo um intercâmbio cultural com os grupos de outras regiões. Com isso, os próprios cânticos acabam sendo cantados de formas diferentes dependendo da região. Todavia essa pluralidade, que poderia ser amplamente registrada para criar um corpus cultural-artístico importante de identidade neopagã brasileira, acaba simplesmente se perdendo pela carência de registro musical.

Acredito que a criação de um registro de nossas partituras se faça necessária no meio neopagão do Brasil. E isso não precisa ser algo ultraelaborado: podemos compartilhar partituras simplificadas, apenas com a melodia das canções, que isso já seria suficientemente profícuo na preservação de nossa memória musical. Visando estimular esse movimento, anexo à minha coluna desse mês alguns exemplos de como isso pode ser algo simples – e lindo –, convidando outros neopagãos brasileiros que conheçam um pouquinho de música a fazer o mesmo.

Nissa Nissa Nissa

In Aeternum

Elevaremos Com O Fogo

Eurínome

Amazona Indomável (Rhiannon)

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Fábio Stern é wiccano desde 2000, e alto sacerdote da tradição adulariana, na qual ingressou em 2011. É também cientista das religiões, com foco em pesquisas sobre o movimento da Nova Era. Autor da coluna Comunidade Pagã.

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