Vozes do Paganismo #8: entrevista com a reconstrucionista celta Luciana Cavalcanti

Nos últimos meses, a sessão Vozes do Paganismo tem trazido entrevistas com praticantes da espiritualidade céltica e suas diferentes vertentes no Brasil (confira o Vozes #6 e o Vozes #7). Em janeiro, a convidada foi Luciana Cavalcanti, que pratica o Reconstrucionismo Celta e pertence à Ordem Walonom. Luciana tem 40 anos, é carioca, professora de Artes e especialista em estudos culturais e históricos da diáspora e civilização africana. É pagã de enfoque céltico há 20 anos e atualmente coordena o projeto Rodas de Druidismo, de abrangência nacional, que visa levar conhecimento sobre paganismo celta de forma gratuita à comunidade em geral, com rodas do conversa em parques e praças públicas. Mantém o blog reconcelta.wordpress.com e foi uma das tradutoras do CR FAQ, que visa esclarecer as práticas e ideias centrais do Reconstrucionismo Celta.

Luciana Cavalcanti será uma das organizadoras da nona edição do Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta – EBDRC, evento itinerante voltado à comunidade de praticantes brasileiros de espiritualidade céltica, mas aberto aos pagãos de diferentes vertentes. Em 2018, o evento acontecerá pela primeira vez no Rio de Janeiro e os organizadores estão lançando uma campanha de financiamento coletivo com a #vemerynn para trazer a escritora Erynn Rowan Laurie, uma das fundadoras do Reconstrucionismo Celta, para o evento. Informações sobre a campanha podem ser consultadas aqui, e sobre o EBDRC neste link.

Vamos à entrevista.

Como você chegou ao Paganismo? Poderia descrever um pouco de sua experiência espiritual até aqui?

Não sei se a gente chega ao paganismo ou se tem um dia que a gente peneira tudo que a gente aprende de religião e espiritualidade e paganismo é aquilo que fica, porque soa real, faz sentido. Mas eu parti de uma insatisfação constante com as religiões convencionais, dogmas, rituais vazios, isso lá na adolescência, então acho que foi essa desistência de me enquadrar  junto a um encantamento com ciências esotéricas, oráculos, benzedeiras, até Paulo Coelho, qualquer forma de espiritualidade que me desse um papel mais ativo, prático antes ao universo…

Minha jornada foi definida pela morte de um amigo aos 14 anos, eu precisava de respostas, ver mais sentido na vida. Então eu fui ler. Tinha muita feira de livro onde eu morava, e eu fui ler sobre anjos, cabala, cristais, mestres ascencionados, meditação… e fui visitar templos, meus pais me davam essa liberdade de ser e buscar, fui a todas as igrejas da vizinhança buscando “meu lugar”, universal, batista, assembléia, terreiros, hare krishna. Nessa idade o kardecismo era bem sedutor e devo ter frequentado kardecismo uns 2 anos com visitas esporádicas à umbanda, aí veio o auge do Paulo Coelho, Brumas de Avalon e pelos livros de Starhawk e Laurie Cabot achei a Wicca, e foi maravilhoso, um encontro com a Natureza, reconexão com ciclos naturais, uma libertação, é um caminho muito rico. Após alguns anos comecei a pesquisar mais e mais os celtas e ver que algumas coisas não faziam mais sentido pra mim, eu devo ter ficado um ano me denominando bruxa tradicional ou simplesmente politeísta celta porque definitivamente precisava de um novo rótulo e então me deparei com um texto chamado “Aurrad: fé celta no mundo moderno” e assim que surgiu o Reconstrucionsmo vi que era um bom novo rótulo.

Me parece que há uma distinção muito fluída entre o que é Druidismo e o que é Reconstrucionismo Celta. Como você enxerga isso?

Terminologia é o assunto do qual mais fujo na vida. Normalmente dá briga e é infrutífero, mas como é entrevista, posso “escrever e sair correndo” rsrs. Druidismo é um termo extremamente complexo e tenho plena certeza de que 80% das vezes que alguém diz essa palavra, ela chega com outro sentido no ouvido do outro. Há o druidismo original que está datado nas sociedades célticas, há o druidismo meso que veio do renascimento druídico, que fez 300 anos em 2017, que pouco tinha como saber das sociedades célticas, pois não era um estudo consolidado. E só aí já tem ruído porque há os que vão sugerir uma linearidade ininterrupta entre um e outro e os que veem dois eventos paralelos. Há os que dizem que o druidismo é anterior e à parte dos celtas. Muitas dessas ordens mesodruídicas transformaram seus estudos peneirando suas práticas e idéias conforme o conhecimento sobre as sociedades célticas avançou, outras mantém crenças particulares (não célticas) em seus estudos como Atlântida e seguem linhas herméticas que nem posso opinar porque não sei mesmo como são, e não é o objetivo. Só exponho como vejo a complexidade do termo, que não para por aí, há o druidismo mais jovem, talvez mais conectado à cultura celta, e o druidismo que vai se aproximar do xamanismo e religiões da terra (que é exatamente o que o Reconstrucionismo diz, mas eles não usam o termo e enxergam de modo diferente). Acho que só se pode entender druidismo como um termo guarda chuva pra várias práticas distintas inspiradas em outra que acabou deixando resquícios. E dentro desse guarda chuva o Reconstrucionismo é uma prática druídica, como vários grupos druídicos são reconstrucionistas sem deixar explícito ou usar o termo. A “vantagem” do Reconstrucionismo nesse sentido de terminologia é que ele é datado nos Estados Unidos, década de noventa a partir da compilação do Faq, então sua origem é mais pontual. Só lamento o desentendimento que se espalhou do Reconstrucionismo ser uma religião mimética do academicismo, a proposta nem é essa.

Uma prática druídica pode ser também reconstrucionista?

Sem dúvida. Se você ampliar o sentido da palavra Reconstrucionismo, o que aconteceu há 300 anos foi uma reconstrução. Sem acuidade científica? Sim, todos já sabemos das fraudes e livres inspirações, mas ainda assim uma reconstrução. Deram nome de renascimento? Ok. Mas tudo é reconstrução se concordamos que o original se foi.Não tem essa de “milenar tradição” em termos de druidismo. Só resquícios e símbolos milenares que resignificamos numa prática contemporânea que gostamos de pensar que é druídica, que talvez fosse o que eles fariam nesse novo contexto. Quando eu monto um altar hoje dentro de casa os celtas não montavam e acendo uma vela colorida, que eles não tinham, estou reconstruindo.

No caso do Reconstrucionismo Celta, há uma grande ênfase na pesquisa histórica acurada. Qual o peso de validade das gnoses, insights e experiências pessoais com o mundo espiritual nesse caso? 

Eu convido e convidarei todas as pessoas ligadas as espiritualidades célticas no mundo a lerem o CR Faq para entenderem que as gnoses pessoais são tão importantes quanto o estudo e um não faz sentido sem o outro. Essa ideia de que só fazemos o que está comprovado academicamente é absurda, ela nos engessaria a ponto de tornar a prática impossível, seria uma pesquisa acadêmica e não religião. E o paganismo reconstrucionista está longe de ser religião “de gaveta” ou engessada, ela só considera, junto a gnoses, sonhos e práticas tudo o que estudos acadêmicos podem nos fornecer, É um caminho experimental e interpretativo.

Como você vive o Paganismo no seu cotidiano?

Depois de certo tempo o paganismo se torna um modo de vida intrinsecamente ligado a absolutamente tudo que você faz no dia a dia. Eu tenho altar na minha casa, eu acompanho ciclos lunares pra fazer ritual, sigo o calendário e práticas da minha ordem, que é Ordem Walonom. Educo minha filha pra prestar atenção à Natureza e ao mundo espiritual e vivo na constante busca de transformar o conhecimento teórico e ações, atitudes e mudanças objetivas na minha vida.

O que você acha da comunidade pagã nacional? Considera seu desenvolvimento positivo? Há pontos que precisam ser aperfeiçoados?

Não tenho estreita convivência com toda comunidade pagã, tenho amigos das religiões de matriz africana, que considero pagãs. asatruares, wiccas  e claro, de espiritualidade céltica mas é difícil falar da comunidade pagã como um todo, eu fico feliz que cada vez mais pagãos venham surgido, cada vez mais grupos aparecendo e tomando forças, ganhando espaços e fico triste por sempre haver quem queira regular as práticas ou deslegitimar o trabalho e práticas  alheias. Acho que devemos nos aperfeiçoar sempre.

Em 2017, você iniciou o projeto Rodas de Druidismo, uma iniciativa pioneira no que se propõe em relação às expressões de espiritualidade céltica no Brasil. Poderia descrever aos leitores um pouco de sua experiência no projeto e falar sobre a importância de trabalhos públicos voltados para a comunidade?

Eu não me sinto confortável com essa idéia de pioneirismo. Falar numa praça existe desde a Grécia Antiga, ou foi antes? Mayra Faro fazia rodas de conversa sobre druidismo no Acre, foi a primeira iniciativa nesse modelo com assunto exclusivo que me lembro de ter visto, e mesmo assim não sei se era pioneira. O projeto Esp da Helena Friggah leva paganismos gerais pra rua há quase 20 anos. As Rodas de Druidismo nasceram de um certo distanciamento que o druidismo tem do público em geral. Me vi muitas vezes preferindo dizer que não tenho religião do que ter que explicar o que é druidismo. Talvez com as Rodas chegue o dia em que não precisemos explicar rsrsrs! Mas a idéia é bem simples, em um lugar público, de forma gratuita, doar seu tempo pra falar de druidismo, cultura celta, dos Deuses, da mitologia, cosmologia e não apenas de acordo com as práticas da ordem Walonom, isso é muito importante, mas contemplando, a medida do possível, toda a diversidade do druidismo, diferentes panteões, diferentes origens, práticas diversas e abrindo sempre espaço para a arte. O druidismo tem que se conectar com a comunidade, não há comunidade céltica, mas a comunidade. Quando entrei pra ODB me lembro que a ênfase do pensamento do Robert Kaucher era: “ser um druida é antes de tudo fazer a diferença em sua comunidade hoje”. É uma idéia maravilhosa anos depois, e acho que precisamos recuperar esse contato, essa linha direta. A experiência tem sido ótima, não esperávamos que em 6 meses teríamos Rodas acontecendo em 5 lugares diferentes e torcemos pra que continue crescendo de maneira saudável.

 O que achas da relação entre o Paganismo moderno e a política, no caso brasileiro?

Respondendo pelo ponto de vista do druidismo, acho que por mais espinhento que seja se envolver em política, está mais do que na hora dos grupos se posicionarem politicamente. Não a ponto de ter partido, apoiar candidato, mas de se posicionar ideologicamente, de se posicionar ante às causas sociais. Em nome da neutralidade e encenação de diplomacia vejo muita omissões, é aquela velha história: quem se omite em casos de opressão está do lado do opressor. Adoraria ver outra postura. No caso da queima de terreiros por exemplo, adoraria ver todos os pagãos se articulando, se incomodando, aderindo à ações sem que precise ser com alguém do meu paganismo específico pra eu me mobilizar. Mas talvez eu seja sonhadora demais.

Quais iniciativas você gostaria de ver no paganismo brasileiro?

Eu adoraria ver mais diálogo entre grupos e práticas sem censuras ou tentativas de regular, menos preconceito com práticas animistas, mais trocas, mais debates e principalmente mais atuação social, não em causas próprias da religião, mas pensando em curar a comunidade pra quem sabe curar a Terra.

Anúncios

Uma resposta para “Vozes do Paganismo #8: entrevista com a reconstrucionista celta Luciana Cavalcanti”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s