Uma tríade de três: o Sagrado no Druidismo

por Dartagnan Abdias

Toda religião possui sua relação e sua compreensão do que podemos chamar de Sagrado, e junto com ela temos a forma com que enxergamos o mundo. A isso, podemos chamar, respectivamente, de “cosmologia” e “cosmovisão”. O Druidismo não é diferente.

Para os antigos povos celtas, o número três era profundamente sagrado. Temos três reinos de existência, três povos a quem honrar, três caldeirões a trabalhar.

O que apresento a seguir é um pequeno resumo dessa cosmologia de acordo com as interpretações a que meus estudos me conduziram, pois o saber celta se fragmentou ao longo dos anos, e remontar esse quebra-cabeças é tarefa que todo druidista carrega com honra, e, apesar de haver uma diversidade de interpretações de cada uma dessas peças, o nicho comum delas é que nos torna unidade em crença nessa maravilhosa polissemia chamada de Druidismo.

 

  • Três Reinos de Existência:

Três reinos existem no mundo, interligados pela grande Árvore do Mundo, o Freixo Eterno, localizada no centro do Mundo, onde queima o Imbas ou Awen, o fogo, a luz do mundo. Acima, tocado pela copa da árvore, está o Céu, de onde vem a inspiração e sabedoria. Ao centro, onde encontramos o robusto e sólido tronco, está a Terra, lugar de solidez e desafios. Abaixo, junto às raízes, está o Mar, as águas, onde encontramos nossa jornada pela vida e a morte, nos conduzindo às várias ilhas da existência.

Dessa forma, três elementos podem ser associados: Nwyfre ao Céu, Calas à Terra, e Gwyar ao Mar. Apesar de esses nomes serem possivelmente modernos, sua utilização me faz total sentido em um uso conceitual. Nwyfre é o sopro de vida e inspiração, a força que move todas as coisas, associado portanto ao “Ar que nos move”. Calas é a terra firme que nos permite viver sobre ela, sendo palco de nossos testes e aprendizados, ou seja “é a Terra que nos dá sustento”. Gwyar, é a fluidez que nos guia, envolve e vitaliza, é nosso sangue, nossa corrente fluída de vitalidade e renovação, portanto é “a Água que nos dá vida”.

Possivelmente um conhecedor das correntes modernas do Paganismo perguntaria “e cadê o fogo?”. Pois o fogo é Imbas ou Awen, o poder transformador, o espírito, a luz do mundo, a magia universal. O fogo não é um elemento, ele é a manifestação pura do Imbas, da inspiração e do poder criador. Pois os pássaros podem habitar o céu, os peixes, a água, e os animais, a terra, mas nenhum ser habita o fogo; entretanto, o fogo habita (como espírito) em todo ser em mais ou menos intensidade. Por outro lado, o fogo é a energia transformadora que manipula os demais elementos: ele liquefaz o sólido e vaporiza o líquido.

 

  • Três Povos a serem honrados:

No Druidismo se prestam honras e reverências a três povos sagrados: os Ancestrais, nossos antepassados, que desbravaram o mundo e nos ensinaram tudo o que sabemos. Sem eles nossa existência não seria possível, nem nada do que temos ou possuímos existiria. Todo nosso avanço é possível pois podemos prosseguir de onde nossos antepassados pararam, podemos aprender com seus erros e nos beneficiar com seus acertos. Da mesma forma, nosso conhecimento, nossa fé e honraria foi ensinada por eles, e certamente eles estão, junto aos outros dois povos, no centro de nossa fé.

Uma tríade, talvez moderna, diz que devemos honrar três ancestrais: os de sangue, que nos deram a vida; os de terra, que nos ensinaram sobre o mundo a nossa volta; e os de alma, que nos ensinam a tradição a que seguimos e honramos. Apesar dessa tríade linda parecer algo extremamente simples, ela é ainda mais profunda e complexa quando compreendida: ela não limita nossa fé, não restringe nossos dogmas nem nossas práticas. Pois é preciso honrar o que herdamos em nosso sangue, tanto o aprendizado quanto os Deuses de nossos ancestrais são também nossos aprendizados e Deuses, as dívidas, vitórias e os débitos deixados pelos nossos ancestrais também são nossos. Por outro lado, habitamos uma terra que já era habitada antes de nós, assim o saber, o conhecimento e também os Deuses que também já habitavam essa terra antes de nós, também são nossos Deuses. Mas dedicamos nossa devoção aos ancestrais que também reconhecemos em nossa alma como nossos ancestrais – seja por uma saudade, um impulso ou um inexplicável reconhecimento. A esses, dedicamos nossa tradição espiritual e religiosa, é com o saber e tradição deixado por eles (no nosso caso o Druidismo) que vamos ordenar todo esse saber, dívida, conhecimento, vitórias, aprendizados e deveres deixados por nossos tantos ancestrais.

Ou seja, ordenamos nosso culto de acordo com as tradições de nossos ancestrais de alma, mas em nosso culto também devemos reconhecer e honrar nossos ancestrais de sangue e de terra. Dessa forma, a grande máxima que aprendemos com o Druidismo é a honra e o respeito a tudo que nos é antigo, ancestral; aprendemos a inclusão a partir do respeito e o respeito pelas diferenças de culto e de ver o mundo. O Druidismo é certamente uma religião baseada na ancestralidade.

O segundo povo é o povo feérico, o nobre povo mágico, os seres da natureza (os Encantados segundo usual no Norte e Nordeste do Brasil), que para nós são reais, vivendo nesse ou em outros mundos, o povo dos sidhe[1], também chamados de “não-deuses” (e talvez essa seja sua melhor definição), são seres imortais, profundamente geniosos que habitam esse mundo e outras ilhas no Outro Mundo, geralmente atribuídos aos poderes da natureza, fazem parte do folclore vivo das tradições da terra. Podem ser excelentes aliados quando tratados com o devido respeito, ou inimigos mortais quando se sentem desrespeitados. São seres com poder divino que compartilham a existência conosco e a quem também prestamos honras e devoção. De fato, nem todo ser dos sidhe são bons ou amigáveis,[2] mas muito se pode aprender com aqueles que o são.

A relação com esse segundo povo depende muito de cada praticante ou grupo druidista, mas não se pode negar que eles são parte intrínseca de nosso culto e devoção, pois nosso principal templo é a natureza, e ela é morada desses seres. Assim, adentrar numa mata, bosque ou mesmo jardim, é entrar num espaço possivelmente cuidado por esse povo, e a boa cortesia nos manda prestar sempre respeito e reverência aos donos da casa. Assim, a fim de garantir nossa segurança e boa estadia, é sempre costume deixar agrados e oferendas ao Nobre Povo.

O terceiro povo honrado são os Deuses, nossos soberanos e guias. São eles os responsáveis por guiar e governar o mundo, por manter a ordem (invisível talvez). São a eles que prestamos nossa grande referência como mestres de nosso caminho espiritual e religioso, como condutores de nossa espiritualidade. Mas também são eles nossos protetores, aqueles que intercedem por nós quando o momento chega.

E sim, somos politeístas, temos vários Deuses, reconhecemos incontáveis Deuses de cada grande tradição cultural (irlandesa, escocesa, galesa, gaulesa, britânica), além de reconhecer os demais Deuses do culto dos outros que nos cercam, e herdarmos os Deuses de nossos ancestrais. Mas certamente não prestamos reverência a todos esses Deuses. Reconhecemos com respeito sua soberania, mas cada um escolhe (por chamado ou escolha racional) os Deuses a quem entregam sua devoção, montando o que podemos chamar de panteão pessoal (uns com muitos outros com poucos Deuses); alguns ainda escolhem por adotar os Deuses reverenciados por seus grupos, ordens ou clãs. E talvez esse seja o grande segredo da polissemia desse caminho, costumo dizer: “onde há apenas um Deus só pode haver apenas uma verdade e um caminho. Onde há vários Deuses, certamente existem várias verdades e vários caminhos possíveis e todos são indiscutivelmente verdadeiros e plenos”.

 

  • Três Caldeirões da Poesia completam nossa jornada:

Os Coiri Filidechta, os Três Caldeirões da Poesia, podem ser rudemente comparados aos Chacras da tradição hindu. Rudemente, pois essa é apenas uma comparação ilustrativa, não há que se fundir as duas ideias ou associar um ao outro, é preciso respeitar suas respectivas tradições de origem. Assim, o que nos importa, é que na visão irlandesa, temos três caldeirões que completam nosso destino, nossa poesia. Nossa missão é mantes esses caldeirões desvirados, cheios e borbulhantes, mas obviamente essa não é missão para uma só vida humana.[3]

Coíre Goiriath, o Caldeirão do Aquecimento, fica localizado no ventre, ou na barriga, é o caldeirão que serve de receptáculo de Dán (nosso dom, destino, nossa canção ou poesia interior é o Dán que confere Brí ao indivíduo). Graças a esse caldeirão estamos vivos e atuantes. Ele nasce em todos os indivíduos virado para cima e cheio. Mantê-lo cheio e virado é o que nos mantém vivos, por isso está vinculado ao mundo físico e a nossa saúde.

Coíre Érmai, o Caldeirão do Movimento, fica localizado no peito, é o caldeirão que serve de receptáculo para o Brí (nossa essência, nosso vigor, nossa energia). Esse caldeirão está ligado a nossa missão terrena, aos nossos sentimentos, nossas sensações. É aquilo que devemos lidar e aprimorar. Afinal, Brí é um poder inerente que pode ser aprimorado ou atrofiado. Essa caldeirão nasce lateralmente, parcialmente preenchido por Brí. É nossa missão desvirá-lo para a posição correta e enchê-lo totalmente.

Coíre Sois, o Caldeirão da Sabedoria, fica localizado sobre a cabeça, é o receptáculo de Bua (nossa vitória, mérito, honra, dignidade e sabedoria). Esse caldeirão está ligado a evolução ou aprimoramento que devemos buscar alcançar. Ele representa nossa elevação humana e espiritual, nossa sabedoria muito mais que conhecimento. Bua pode ser ganhado ou perdido de acordo com nossas ações. Esse caldeirão nasce totalmente de cabeça para baixo e vazio, é nossa função desvirá-lo totalmente e enchê-lo.

Coíre Goiriath está, portanto, relacionado ao nosso físico primordial, o que nos forma como seres viventes desse mundo. Trabalhamos ele ao mantermos nossos ossos firmes, nossa carne sadia e forte e nosso cabelo e pele saudáveis e atuantes como antenas, como sensores. Ele nos confere nosso dom inicial, nosso poder pessoal, nossa força vital, nosso Dán; e fabrica nosso Brí, nossa energia. Esse caldeirão precisa ser mantido corretamente virado e cheio.

Coíre Érmai está relacionado ao nosso lado fluído, mas essencial a vida. Por isso é regido pelas nossas emoções e fala de nossa tarefa nesse mundo. Nos ensina que precisamos nos aprofundar em nossa sensação, em nosso eu interior, nas nossas emoções. Sua indicação como movimento é a ideia da fluidez das coisas. Precisamos manter nossa mente sã, nossas emoções compreendidas e não omitidas, e ter cuidado com o que absorvemos e enviamos. Esse caldeirão precisa ser colocado na posição certa e completado.

E o Coíre Sois está relacionado a nossa meta, nosso objetivo, nossa iluminação, por assim dizer. É a aquisição de sabedoria. Está relacionado com nossas decisões, nossa personalidade, nosso foco. É preciso entendermos mais sobre nós mesmos e desenvolver mais da capacidade que temos em todo o conjunto que chamamos de cabeça. Esse caldeirão precisa ser totalmente desvirado e enchido.

 

De maneira simples podemos resumir assim: No centro do mundo está o Freixo Eterno (a Árvore do Mundo) conectando Céu, Terra e Mar, a sua frente queima o Imbas. Em nossa espiritualidade honramos a três povos sagrados: os Ancestrais, que nos deram a tradição e nos conduziram até onde nos encontramos; o povo dos Sidhe, que partilham esse mundo conosco; e os Deuses, nossos mestres e guias, os grandes soberanos. Em nossa jornada buscamos alinhar os três caldeirões de nossa poesia, mantendo a saúde, as emoções e a honra sempre em dia e dessa forma buscando a sabedoria e o aprimoramento espiritual que nos cabe. Tudo isso faz parte da Oran Mór (A Grande Canção), que nada mais seria do que a canção a vibração total que conduz todas as coisas. Tudo é parte dessa canção que ordena nosso cosmos, e nós, a natureza e todas as existências são partes, uma nota vibracional nessa Música, ecoando pelo tempo e espaço.

Essa cosmologia orienta, portanto, nossa cosmovisão que direciona nossas práticas e percepções terrenas (religiosas ou não) sempre e direção a nossa espiritualidade, impossibilitando que não sejamos puramente devotos, ainda que não manifestemos nossa devoção a todo momento. Essa é para mim a beleza do Druidismo, pois quando você realmente percebe, está de fato, tudo ordenado na Grande Canção.

 

Bibliografia base:

CORR, Rafael. Os Sídhe [palestra] in VI EBDRC. Circulação interna. Curitiba, 2015.

ENDOVELICON. A Jornada de Máel Dúin in Ramo de Carvalho. Disponível em: <http://www.ramodecarvalho.com.br/mitologia/mitologia-gaelica/a-jornada-de-mael-duin/>, acessado em 15 de fevereiro de 2018.

ENDOVELICON. Usando as Emoções para mover os Caldeirões [palestra] in VI EBDRC. Circulação interna. Curitiba, 2015.

MATTHEWS, John. Xamanismo Celta. São Paulo: Hi-Brasil, 2002.

PASCHOALIN, Marcelo. A Semente da Bétula: minha prática druídica brighidina. Santo André: Letra Impressa, 2017.

SENEWEEN, Rowena A. Aspectos histórico-mitológicos in MOREIRA, Marcelo. Alma Celta: uma jornada Fantasy Rock. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2014, pp. 17-46.

SENEWEEN, Roweena A. Meditação dos Caldeirões in Templo de Avalon. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=45>, acessado em: 15 de fevereiro de 2018.

SENEWEEN, Rowena A.. Os Três Caldeirões in Três Reinos Celtas [blog]. Disponível em: <http://tresreinosceltas.blogspot.com.br/2011/04/os-tres-caldeiroes.html>, acessado em 15 de fevereiro de 2018.

UBERTI, João Eduardo Schleich. Elementos Místicos do Druidismo e sua interconexão e uso prático [palestra] IN VI EBDRC. Circulação interna. Curitiba, 2015.

 

[1] Sidhe (plural de Sidh) é uma palavra gaélica que faz referência aos montes, colinas e cavernas sagradas, aos locais sagrados de grande emanação de poder, para onde os Tuatha dé Danann (tribo dos Deuses irlandeses) foram após a batalha contra os Milesianos. Local que já era habitado pelos seres feéricos antes da chegada dos Tuatha dé.

[2] Apesar de ser um filme infantil sem nenhum compromisso com a realidade, o filme “As Crônicas de Spiderwick” apresentam uma das melhores referências ao povo dos Sidhe que já vi. Mas para conhece-los de fato, só lendo os mitos e lendas do folclore, não apenas celta, mas de todo folclore, pois, muda-se a terra, mas todos podem ser considerados como seres feéricos, celtas ou não.

[3] Celtas eram reencarnacionistas, e assim também são os druidistas.

 

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