Supere o seu medo de religião!

Texto escrito por John Beckett, traduzido para o português por Dannyel de Castro com a autorização do autor. Para conferir a versão original, acesse: http://www.patheos.com/blogs/johnbeckett/2018/03/get-fear-religion.html

 

Algumas semanas atrás, fiz um comentário na publicação de um amigo no Facebook sobre as diferenças entre religião cristã e religião pagã. Em resposta, outra pessoa (que eu não conheço e, portanto, não nomearei) disse:

“Não nos interessamos pela RELIGIÃO e pelas correntes que as religiões colocam em nossas almas, estamos interessados em nossas relações pessoais e em experiências numinosas com a natureza, elementais e avatares como o Cristo.”

Isso é tão errado.

Também é bastante comum. Há a citação de Deepak Chopra que ocasionalmente vem à tona:

“Religião é a crença na experiência de outra pessoa. Espiritualidade é ter sua própria experiência.”

Também está errado.

Se uma postagem no blog tiver “bruxaria” no título, posso ter certeza de que será amplamente compartilhada. Se tiver “Paganismo” no título, ela irá bem. Se tem “religião” no título, não vai a lugar nenhum. Muitas pessoas têm medo da religião.

Vemos isso em todo o movimento “espiritual, mas não religioso”. Parte disso é uma reação compreensível contra a religião negativa, mas muito é uma evitação do trabalho necessário para construir qualquer profundidade espiritual ou religiosa real.

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Por um lado, eu entendo. Muitas coisas desagradáveis e malignas foram feitas em nome da religião ao longo dos séculos. Ainda está acontecendo hoje, seja com o Daesh[1] explodindo estátuas e decapitando “infiéis” no Oriente Médio ou com fundamentalistas cristãos atacando os direitos LGBT nos Estados Unidos. Claro, isso ignora os muitos mais muçulmanos que querem apenas viver em paz e ajudar os pobres, e os cristãos que querem apenas amar a seus vizinhos como a si próprios. Os estereótipos nunca são úteis.

Se tudo o que quiser é alguma espiritualidade vaga e banal que faz você se sentir bem e diz que tudo vai ficar bem (independente de ficar ou não), vá ouvir uma pregação de Joel Osteen [autor de best-sellers e pastor norte-americano]. Mas se você quer uma prática espiritual profunda que o ajude a lidar com os desafios da vida, te auxilie a criar relacionamentos profundos e significativos, e que mude você mesmo e o mundo, você precisará de religião.

 

As religiões são a sabedoria acumulada de nossos antepassados e predecessores

Então você quer ter experiências com o sagrado? Como você pode fazer isso? “Apenas vá para fora e esteja aberto!”

OK, a que horas do dia devo sair? Onde devo me posicionar? Devo sentar? Eu tenho que adentrar a floresta ou apenas em meu quintal está bom? Existe algo que devo dizer? Algo que eu devo fazer? Quanto tempo eu tenho que ficar lá?

O que eu faço se nada acontecer?

Talvez, mais importante: o que eu faço se algo acontecer?

Experiências numinosas (com o sagrado) não podem ser forçadas, e às vezes elas ocorrem repentinamente. Esses momentos são mágicos e sagrados. Mas se contamos com chances aleatórias para trazê-las para nós, podemos ter que esperar por muito tempo.

Felizmente, não precisamos aprender isso por nós mesmos pela tentativa e erro. As religiões do mundo possuem práticas que facilitam experiências numinosas. Algumas têm poucos anos e outras podem ser rastreadas até a aurora da humanidade. Alguns de nós aprendemos com livros e outros precisam ser ensinados face a face. Mas, aproveitando a experiência coletiva daqueles que vieram antes de nós, podemos pegar de onde pararam sem começar do zero.

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E quando algo acontece, como podemos descobrir o que significa? As religiões fornecem estruturas para a compreensão de nossas experiências e para interpretá-las no contexto de ideias específicas sobre o mundo, como ele funciona e o nosso lugar nele. A desafortunada tendência de assumir que tudo é uma “mensagem” ou uma “lição” é o resultado natural da interpretação das experiências espirituais no contexto da extrema individualidade. Sem um contexto mais amplo, muitas pessoas assumem que é tudo sobre eles, mesmo que não seja. As religiões fornecem contexto.

 

Religiões forjam relacionamentos

A palavra “religião” tem suas raízes no latim “religare”, que significa “unir-se”. Uma religião comum liga pessoas em comunidades com experiências compartilhadas, tradições comuns e apoio mútuo. As religiões fornecem práticas para nos unir com nossos deuses e outros seres espirituais, e viver juntos em respeito e reciprocidade.

A boa religião mostra como nossos destinos estão inseparavelmente interligados com o destino de todas as outras espécies e ecossistemas da Terra, e nos encoraja a cuidar deles respeitosamente, seja por vê-los como companheiros, como as criações de uma divindade todo-poderosa, ou simplesmente porque a Terra é o único planeta que temos.

Ter uma experiência numinosa é excelente. Mas com a estrutura e o conhecimento acumulado de uma religião, podemos determinar que nossa experiência numinosa foi um encontro com uma deidade particular. Podemos então aprender sobre essa deidade através das histórias de nossos antepassados e das experiências dos devotos contemporâneos. Isso nos ajuda a conhecer os Deuses, permitindo que formemos um relacionamento a nível pessoal, ao invés de apenas “esse maravilhoso sentimento que eu tive na floresta um dia”.

 

Religiões promovem valores

Sobre os abusos da religião por pessoas malignas e manipuladoras, acho que é por isso que tantas pessoas têm uma opinião tão negativa quanto à religião. Uma religião é mais que um conjunto de ideias sobre o mundo e um conjunto de práticas espirituais. Uma religião é um modo de vida. Nós gostamos de dizer “mantenham a religião fora da política”, mas como podemos? Se nossa religião contém nossos valores mais profundos e mais sagrados, como podemos não expressar esses valores em nossas atividades políticas? Não tenho absolutamente nenhum desejo de forçar o culto a Muitos Deuses a qualquer um. Mas eu faço o meu melhor para votar em candidatos que refletem minha crença pagã de que a Natureza é sagrada e deve ter nosso cuidado e reverência, e não a nossa exploração. Minha política decorre da minha religião (e não o contrário).

As religiões têm valores e esses valores são frequentemente expressos em códigos morais. E os códigos morais muitas vezes provocam respostas negativas. Às vezes, é uma reação adolescente do tipo “você não pode me dizer o que fazer!”. Mas em outros casos é um desentendimento sincero sobre o que é certo e errado, como com os católicos que amam as tradições de sua igreja, mas discordam de seus ensinamentos sobre sexualidade e reprodução.

Quais os códigos morais que devem ser observados, quais são opcionais e quais devem ser alterados? Essa é uma questão que cada religião e cada seguidor devem responder por si mesmos. Se o acordo não puder ser alcançado, a cisão não é algo ruim – os reformadores religiosos têm feito isso há milênios. É melhor separar-se em paz e respeito do que lutar continuamente.

A boa religião é também uma coleção de valores que nos ensinam a viver uma vida boa e virtuosa.

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As religiões são sistemas completos

Mesmo antes de chegar à questão dos valores e códigos morais, existe o fato de que uma religião é um sistema completo. Inclui ideias sobre o mundo e a forma como funciona, práticas espirituais, ritos e cerimônias, dias sagrados e várias rubricas sobre o modo como as coisas são feitas – e a maneira como elas não devem ser feitas. Inclui restrições sobre quem pode executar quais ritos e em que circunstâncias.

Alguns desses elementos têm razões práticas por trás deles. Alguns têm suas raízes em normas culturais de muito tempo atrás. E alguns são as exigências dos deuses e espíritos patronos que podem não ter qualquer sentido para nós, mas, ainda assim, devem ser observadas se queremos que os relacionamentos sejam mantidos.

Isso pode ser difícil para os ocidentais contemporâneos que acreditam que a autonomia absoluta do indivíduo é o bem maior, e que estão acostumados a buscarem a espiritualidade como nos buffets. E, para ser justo, algumas religiões têm muito poucas exigências difíceis.

Mas outras têm, em particular as religiões tribais indígenas restantes no mundo. Se você tirar pedaços desses sistemas, eles não funcionarão da mesma forma que se seria se o todo fosse levado em consideração, da maneira que isso requer. Se você pega pedaços e afirma que está praticando a religião, você não somente não é autêntico, como também está insultando e possivelmente danificando a tradição e seus praticantes devotos.

As religiões são sistemas completos, e eles funcionam melhor quando você assume o todo.

 

As religiões promovem a profundidade

Estar debaixo da lua cheia e aproveitar seu poder e beleza é uma experiência espiritual maravilhosa. Mas então voltamos para dentro e essa experiência começa a desaparecer, e logo voltaremos a cozinhar o jantar, gritando para Donald Trump e assistindo Dancing With The Stars. Para que nossas experiências sejam mais do que momentos fugazes, é preciso prática e trabalho.

Nossas muitas religiões fornecem contexto e estrutura para essas práticas e trabalho. Elas nos ensinam a sabedoria acumulada de nossos antepassados para que não tenhamos que descobrir tudo por nós mesmos. Elas promovem valores que nos ajudam a viver vidas de honra e integridade. Elas nos aproximam de nossos deuses e espíritos, de nossos correligionários e de muitas outras pessoas com quem compartilhamos este mundo.

As religiões oferecem padrões e promovem a responsabilização. Na nossa cultura hiper-individualista, os padrões e a responsabilidade não são particularmente populares. Mas eles ajudam a nos impedir de ficar tão atolados no mundo cotidiano, o que nos faz esquecer do que é mais importante para nós.

Esta profundidade nos ajuda a superar os tempos difíceis que afetam a nós todos: doenças, dor, perda e morte. Isso nos inspira a construir um mundo melhor para nós mesmos e para nossas famílias, e para todos os outros.

E promove as mesmas experiências numinosas que o meu amigo anti-religioso tanto deseja. À medida que minha devoção aumentou, à medida que minhas crenças sobre o mundo se tornaram mais fortes e conforme minha dedicação a essa religião pagã-politeísta que eu pratico aumentou, minhas experiências em primeira mão com os deuses e espíritos tornaram-se mais frequentes e mais poderosas.

Elas não foram todas divertidas. Algumas têm sido assustadoras, e muitas carregaram tarefas difíceis.

E eu não as trocaria por nada.

Então, supere o seu medo de religião. Escolha um caminho, aprenda com aqueles que vieram antes de você e veja o quão longe você pode ir.

[1] Nota do Tradutor: Daesh é “a expressão literal não traduzida do auto-denominado Estado Islâmico ou ISIS” (fonte: https://www.tsf.pt/internacional/interior/por-que-devemos-dizer-daesh-em-vez-de-estado-islamico-4890071.html ).

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2 respostas para “Supere o seu medo de religião!”

  1. Muito boa a tradução.
    Infelizmente muitas vezes é difícil que as pessoas entendam a complexidade que as religiões pagãs/tribais/indígenas têm, e a necessidade de entender e assimilar o seu sistema completamente. Têm mesmo a dificuldade de entender que religião, em si, não é algo pejorativo.
    Muito obrigado por trazer pra nosso idioma essas reflexões ^^

    Curtido por 2 pessoas

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