Encontro com Danu

por Máh Búadach Ingen Ecnai

 

De olhos fechados, ouço o ritmo compassado do tambor. O som que me leva para outra Era, outro momento. Este é o mesmo som que escutamos quando ainda estamos imersos no ventre de nossa mãe. Percebo que o som do tambor se funde ao som do mar. O som rítmico das ondas que sempre me servem de ponte e me guiam até o mar.

 

Abro os olhos e me vejo diante um barqueiro. Embarco em sua canoa, pronta para partir em busca do lugar onde encontrarei com Ela: Danu.

 

O mar sempre foi símbolo de saudade. De outras épocas, de outras pessoas, de quando éramos rio. Navego nas águas das emoções. Suas águas são os suores e lágrimas de todos os que viveram antes de mim. São estas águas que formaram meu corpo e o percorrem, onde cada gota de sangue é o sangue dos antepassados em minhas veias.

 

Navego, saindo do mar e subindo meu rio ancestral. A canoa é pequena, para passar tranquila pelos caminhos tortuosos da minha corrente sanguínea. Busco a cura das relações com aquela que me nutre corpo e alma, minha mãe. Hoje eu busco um lugar onde eu possa encontrar abrigo e acolhimento, meu chackra verde brilhante pulsando como um sol: meu coração, minha ilha esmeralda.

 

Lá eu encontro Danu.

 

Não sei se ela veste a pele de minha mãe ou minha mãe transborda o amor dela, mas é assim que ela se apresenta: uma amável Vênus  de Willendorf com as cicatrizes de vida da minha mãe. Ela me acolhe e abraça, me aninha em seu colo como quando eu era criança. Passa os dedos em meus cabelos lisos, os cabelos da família, a marca das minhas ancestrais. Então chega minha avó, abraçando a nós duas, apertando-nos junto ao peito para que nosso amor passe e continue a fluir, de uma para outra. Minha bisa abraça minha avó e pouco a pouco as mulheres da família se transformam numa longa trança de amor e cura.

 

Tudo isso é muito maior do que imaginei encontrar quando parti nessa viagem.

 

A trança vai se desfazendo aos poucos e os lisos cabelos, soltos ao vento se transformam nas águas dos rios das minhas veias. Já na canoa, voltando pra casa, extasiada e completa, certa do caminho que escolhi seguir, abençoada por todas as minhas ancestrais, as de sangue e a divina.

 

 

Esse texto é baseado na minha vivência com Danu na Ciranda das Deusas Celtas facilitada por Mayra Faro e é com ele que inicio minha coluna “Dançando minha lua – contos do sagrado feminino” no Bosque Ancestral.

Danu é a matriarca e grande mãe ancestral da tribo tuatha de danann, o povo mítico que povoou a Irlanda. Em seu mito ela sonha com uma ilha esmeralda onde seu povo será feliz e próspero e os guia seguindo o rio Danúbio até a ilha da Irlanda. Ao chegar a terra prometida, ela se deita na terra e faz a passagem para o além vida, fundindo-se para sempre aquela paisagem pois seus seios se tornaram as colinas gêmeas Paps of Anu no Condado de Kerry.

 

Revisão por Gabriele Paschoalin

 

 

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29547697_202903166970112_317694771_nMáh Búadach Ingen Ecnai foi o nome que recebi de meu pai quando iniciei aos 17 anos meus estudos sobre espiritualidades da terra. Passando pela bruxaria e o druidismo, hoje pesquiso sobre sagrado feminino. Escrevo para o blog www.olivrodebuadach.wordpress.com e agora para o Bosque Ancestral.

 

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