A Nona Carta III: O dilema de Arthur

por Llewellyn Mawr

Merlim perguntou a Arthur: “Do que gostas mais, da espada ou da bainha?” “Gosto mais da espada”, respondeu ele. “Então tu não és um sábio”, disse o mago, “pois a bainha vale mais que dez espadas: enquanto usares sobre ti esta bainha, tu nunca perderás sangue se por infelicidade fores ferido”.

(Merlim, o Mago, de Jean Markale)

 

Saudado sejas,

Há algum tempo me deparei com esse pequeno trecho trazido à luz dos nossos olhares por Jean Markale, no seu livro “Merlim, o Mago”. Nesta obra, o autor destrincha a figura de Merlim, com suas diferentes facetas em diversos contos do medievo. Ora um sábio, ora um demônio, a personagem de Merlim permanece encantando a literatura ocidental de forma tão perspicaz que o arquétipo do “velhinho conhecedor das coisas” continua a ressoar plenamente.  Tão atual que sobrevive nas personagens da literatura fantástica como Gandalf, Dumbledore, Mestre Yoda, Aemon, etc. São tão poucos os heróis da literatura ocidental que não dependem de um conselho desse arquétipo encarnado em Merlim, que podemos afirmar o quão relevante é essa personagem na psique do ser constructo do mundo ocidentalizado.

Quem nunca teve a imagem de um avô/avó que fosse o baú dos conselhos de maior sabedoria? Ás vezes nem chega a ser uma pessoa tão experiente em vida, mas sempre estamos desejando o encontro com esse porto seguro poético e ancestral. É normal que nós estejamos à procura desse velho sábio, e, por vezes, gastamos todas as nossas energias correndo atrás dele. Não é difícil de compreender essa questão, já que acreditamos piamente que ao tomarmos as lições e conselhos desse velho sábio, encontraremos a paz e a felicidade que almejamos. Porque por mais engraçado que pareça, depois de corrermos tanto para encontra-lo, nos deparamos com uma figura calma, de passos lentos com sua bengala e sorriso aprazível que pergunta: “Por que corres tanto, se eu estive sempre neste mesmo passo?”.

Recordo-me quando criança da figura de um benzedeiro que morava em meu bairro. Não lembro-me de seu nome em vida. É bem capaz que ninguém se lembre. Quem sabe fosse um nome cabalístico como os dos magos, já que todos o conheciam por “vôzinho”. Ele era bem idoso, usava sempre roupas brancas de alvura impecável, seu olhar era doce, sempre oferecia um sorriso muito agradável que afastava qualquer mal, vivia em uma casa muito simples e de vez em quando o encontrávamos na rua, provavelmente vindo de uma casa onde havia feito benzição. E o mais encantador: eu o tinha como avô, assim como ele me chamava de neto. Jamais encontrei outra pessoa física que substituísse a imagem dele. O “vôzinho” benzedeiro é o Merlim e quem sabe eu era Arthur.

Quando cresci mais um pouco, encontrei-me com as leituras sobre os Druidas. E lá estava o mesmo arquétipo que me causava alegria interior: um velho sábio, vestido de branco, tendo morada simples e sempre ofertando uma palavra de auxílio às pessoas de sua comunidade. Foi o momento que compreendi que o fascínio por esse arquétipo falava mais alto em mim, pelo fato que eu também gostaria de me tornar um deles.  Então entendi outra coisa: a busca também é interna, e devemos encontrar esse mago sábio nas nossas meditações mais profundas. O Druidismo Moderno é um caminho que possibilita essa jornada até o velhinho de barba branca.

Vamos a outro ponto. É preciso entender que todos nós temos um Arthur interno que é rei do nosso ser. Essa é a nossa criança interior, que muitas das vezes é tolhida pelas condições que a vida vai tomando. Precisamos dos conselhos de um professor para compreender qual é a hora certa de dizermos quem somos ao mundo e empunhar a Excalibur. Então buscamos o Merlim, que normalmente, num primeiro instante está fora de nós. Temos com esse mago um aprendizado, capturando cada um dos seus passos e experiências. Infelizmente o velho sábio se ausenta, e a criança interior tem que enfrentar a solidão do amadurecimento, tirando a espada da pedra. Mas, quando tudo parece perdido, nós descobrimos que dentro de nós habita também um Merlim, o eu superior, e então partimos a encontrarmo-nos com seu semblante.

É nesse momento que Merlim pergunta: “Do que gostas mais, da espada ou da bainha?”.

Nós, como o bom Arthur, respondemos que a espada nos enche mais os olhos. Não foi a espada que trouxe a soberania ao nosso ser? Não foi o conhecimento do poder da lâmina que trouxe a diferença? Não foi Excalibur que nos fez reis de nós mesmos?

O Merlim nos chama de tolos por pensar assim. Porque desequilibramos as leis das coisas usando esse tipo de pensamento. Além do mais que resumimos a arma ao metal frio e rijo.

Como se mostra essa apreciação pela espada em nossas vidas? É muito simples de observar: quanto mais ásperos, maior os nossos espinhos. Tornamo-nos pessoas críticas e intransigentes, sem compreender ou respeitar o outro. Acabamos por sermos frios, presunçosos e rabugentos. Somos aquele tipo de pessoa irritadiça e impaciente, chegando a atitudes muito ruins e estressantes. Podemos ser tão rígidos e perfeccionistas, que acabamos destruindo a nós mesmos. Também aqui residem os autoritários, ditadores e tiranos, que acham que podem dominar os outros. O pior tipo, que me preocupa muito na atualidade, é quando somos contaminados pelo fascismo.

O que o mago interior nos recorda é que a arma tem dois lados: a espada e a bainha. A Espada representa o masculino da arma, não só em questão simbólica fálica, mas pelas suas qualidades. A lâmina é o aspecto da arma conectado ao elemento fogo e ar, a ação e o pensamento, que se mau empregados podem gerar um erro sem controle e inconsequente. Já a Bainha representa o feminino da arma. O seu formato de cálice ou vulva que envolve a lâmina lembra-nos aspectos dos elementos terra e água, segurança e sensibilidade. A Bainha da espada de Arthur inclusive é encantada pelas feiticeiras de Avalon, o que confirma sua ligação com o feminino.

Na sociedade céltica a soberania é comumente feminina. Nos diversos mitos e histórias sagradas, os reis só governam por serem casados com a Grande Rainha. Esse arquétipo feminino da mulher soberana é encontrada na simbologia da Égua, da Terra e do Caldeirão, insígnias de poder e magia. Tendo em vista isso, a espada não traz soberania alguma. A bainha é que faz bom rei, já que protege todos nós da discórdia trazendo paz e tranquilidade. E isso se reflete dentro dos rituais druidas modernos, no qual pedimos pela paz simbolicamente embainhando uma lâmina afiada. O acordo pela comunicação, pela voz como instrumento, talvez soe melhor que o torturante som de uma batalha.

Em minha hipótese, quando falamos de curar a nós dentro do druidismo, requer revisitar essa criança interior chamada Arthur e levá-la até seu eu superior, o Merlim. A criança interior ferida e machucada precisa fazer sua jornada até o seu eu superior, para harmonizar o masculino e o feminino sagrados. A sabedoria dos contos Arthurianos, assim como outros mitos celtas, são fontes maravilhosas para esse trabalho de autoconhecimento e fico feliz em dizer que o Druidismo Moderno é um cálice cheio desse conhecimento ancestral.

Sempre recorra a isso: “a bainha vale mais que dez espadas: enquanto usares sobre ti esta bainha, tu nunca perderás sangue se por infelicidade fores ferido”.

/|\ Awen

 

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26175009_1999937056891154_2043891063_nLlewellyn Mawr é historiador, professor, escritor, focalizador, terapeuta, estudioso das culturas tradicionais, dedicado ao panteão galês e ao Druidismo Moderno, administrador e autor do web-site Nawfed Pwer e organizador-palestrante da Reunião Sazonal Druídica que ocorre na cidade brasileira de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Autor da coluna A Nona Carta.

 

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