Relações entre o 1º de abril e ritos pagãos de ano novo

por Fábio Stern

Pode ser surpresa para muitas pessoas, mas a padronização do ano novo em 1º de janeiro é um fenômeno recente na história das religiões. Em diversas tradições antigas, encontram-se muitas variações para a demarcação do início do ano. Pela popularidade da wicca e das tradições de origem céltica no meio neopagão, é comum haver uma maior consciência de que o solstício de inverno é uma data que usualmente marca algo similar ao que podemos hoje chamar de “ano novo”. Menos evidente, porém, é o fato de que existem variações dessa data para, virtualmente, todas as épocas do ano, quando outras tradições pagãs antigas são estudadas. E nos rituais de ano novo celebrados entre o final de março (p. ex. ano novo astrológico) e início de abril (p. ex. ano novo assírio) podem estar as origens do que hoje conhecemos como o “dia da mentira”.

Segundo Marsha Groves, especialista em Idade Média, pela popularidade da astrologia entre os medievais, até o século XV quase todos os países do oeste europeu celebravam o ano novo na entrada do sol em Áries, o que ocorre por volta do dia 23 de março. Na França, grandes festivais de mais uma semana eram observados. E às vezes as festas se estendiam, e o clímax das festividades, o último dia das celebrações, caia em 1º de abril.

Na entrada do século XVI, porém, começou a haver uma pluralidade de celebrações ao ano novo nas diferentes dioceses da França. Embora o ano novo litúrgico estivesse padronizado desde o império romano como sendo o dia 1º de setembro, incomodava a igreja católica francesa que algumas das comemorações populares fossem pautadas em calendários não cristãos. Com isso, em 1564 a França decretou, através do édito de Roussillon, que o ano novo deveria ser celebrado em todo o país no dia 1º de janeiro. O resultado disso, como discutido por Jack Santino, é que os franceses passaram a caçoar dos camponeses que celebravam o ano novo em outras datas, dizendo que eles comemoravam uma mentira.

A passagem do século XVI para o século XVII marcou uma popularização do 1º de abril como o dia da mentira em outros países da Europa, como a Holanda, a Polônia, os países escandinavos e a Inglaterra. As relações pagãs com a data se perderam, contudo o estudo da história demonstra uma origem pela suplantação do paganismo pelo cristianismo, através de um apagamento e deslegitimação do folclore rural. Isso, é evidente, não significa necessariamente que os neopagãos não podem pregar peças no dia 1º de abril como todas as outras pessoas costumam fazer hoje. As culturas são plásticas e se modificam com o passar do tempo. Mas termos consciência dessa história pode servir como um convite a honrarmos os povos antigos que tiveram seu calendário religioso reduzido a uma mentira pelo regime de poderes dominante durante a Alta Idade Média.

 

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25360846_1538706246206126_625785573_nFábio Stern é wiccano desde 2000, e alto sacerdote da tradição adulariana, na qual ingressou em 2011. É também cientista das religiões, com foco em pesquisas sobre o movimento da Nova Era. Autor da coluna Comunidade Pagã, na qual escreve comentários sobre notícias do cenário pagão.

 

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