O Que os Deuses Requerem de Nós?

por Wallace William de Sousa

“O que os Deuses requerem de nós?”

Ele já havia ouvido essa pergunta muitas vezes. Normalmente, ela era feita após uma cerimônia ou celebração. Nos festejos sagrados, os habitantes do mundo invisível eram convidados ao banquete de seu povo. Era o momento de honrar os Deuses e os não-deuses, bem como de ouvir o que eles tinham a dizer à Tribo. Mas não só.

“O que os Deuses requerem de nós?”

Ele pensava sobre a pergunta enquanto caminhava através das árvores. Olhou ao redor. Muitas mudas e brotos surgiam no Nemeton. Árvores mais velhas os cercavam, hoje já firmes. Elas já tinham passado por muita coisa, mas ainda estavam ali. O jovem broto, embora frágil, era belo e trazia esperança, mas a velha árvore trazia a experiência de quem havia resistido a inúmeras tempestades. Ele se abaixou ao perceber algo. Com uma faca, cortou uma erva daninha. Elas cresciam rápido. Podiam ameaçar o restante do bosque com sua proliferação. É apenas por isso que as cortava. Porém, ainda assim, não usaria a sua foice com elas. A face bastava. Ele se levantou e continuou o caminho.

“O que os Deuses requerem de nós?”

Essa pergunta podia assumir muitas formas diferentes quando ditas por pessoas diferentes. “O que devo fazer com o marido que me trai?” “Devo dizer aos meus pais que sou homossexual?” “Devo aceitar a proposta de emprego?” “O que devo fazer da minha vida?” Formas diferentes de se perguntar “O que os Deuses requerem de nós?” Formas tão diversas quanto os métodos utilizados para se ouvir a voz dos Deuses. Muitas formas para se ouvir as mesmas vozes, muitas formas de se fazer a mesma pergunta.

“O que os Deuses requerem de nós?”

Ele chegou até a árvore mais velha do Nemeton. Ela estava ali muito antes de todas as outras. Sobrevivente de décadas, ela se mostrou a majestade do local. Alta e exuberante, ela tinha parte da sua beleza prejudicada pela perda das folhas que a adornavam, e que agora formavam um grande carpete de castanho e rubro sobre o solo. Ele se sentou às raízes da árvore, entre o monte de folhas.

“O que os Deuses requerem de nós?”

Abaixo da terra estavam as raízes da árvore. Elas desciam até grande profundidade, trazendo firmeza e nutrição a ela. Das raízes subia o tronco, agora largo e resistente, mas que um dia havia sido um simples e frágil caule. Do tronco surgiam os galhos, muitos, cada qual se dividindo ainda em ramos do qual brotavam folhas e frutos. Frutos que guardavam as sementes. Agora, no momento do outono, era o momento em que folhas e frutos caíam das alturas em direção ao solo. Após o seu período de vida no reino celeste, o período do morrer os levava a retornar à Terra.

“O que os Deuses requerem de nós?”

Tudo o que se eleva um dia volta para baixo. É o ciclo da vida e da morte. O mundo inferior, o reino do Dis Pater gaulês, o Mar da tradição gaélica, é o reino dos Ancestrais. São os domínios de Manannán, as terras além das nove ondas, o interior das colinas do Síd (uma palavra gaélica que significa literalmente “paz”), onde os mortais se encontram com o Divino. O nosso destino é retornar a esse mundo, uma vez que nenhum de nós há de escapar da morte. Ancestrais que nos legaram a vida que temos, a terra em que vivemos, a tradição em que nos inspiramos. Os Ancestrais são as raízes da nossa árvore pessoal. São a fonte do nosso ser, tanto em parte física, quanto em social e espiritual.

“O que os Deuses requerem de nós?”

Quantas vezes repetimos essa pergunta? Quantas vezes nos debruçamos perante os oráculos na busca da voz dos Deuses, buscando a resposta para as muitas variações dessa pergunta? É como se cada vez que nos perguntamos isso, uma folha caísse em busca de retornar ao mundo dos Ancestrais. É no outono das nossas almas que nos voltamos ao Outro Mundo em busca de orientação. Não há nada de errado com isso. Os Antigos nos proveram com muitas formas para fazer isso, bem como muitas outras foram desenvolvidas ou descobertas ao longo dos muitos outonos que se passaram. Mas ainda assim, continuamos nos perguntando.

“O que os Deuses requerem de nós?”

As folhas e frutos caem das alturas em direção ao solo. Nós nos voltamos para o Outro Mundo, para além das intermináveis ondas que ocultam as grandes profundidades. Mas o quanto realmente olhamos para o mundo dos Ancestrais? O quanto aprendemos com eles? Quando buscamos respostas, o quanto realmente buscamos entender o que os Ancestrais teriam a dizer? O quanto aprendemos da sabedoria e do incentivo a coragem de Ambicatus? O quanto aprendemos da generosidade de Louernius? O que aprendemos com o orgulho e a tenacidade de Boudicca? Quantas vezes nos debruçamos sobre as Instruções do Rei Cormac em busca de alguma orientação? Ou sobre o Testamento de Morann, quantas vezes nos perguntamos sobre o valor da verdade que ele expressa? E quanto à mitologia? Quanta sabedoria não se esconde nela? Quantas dúvidas não poderiam ser respondidas se meditássemos um pouco sobre seus velhos contos? Os Deuses e Ancestrais já não nos legaram o maior de seus presentes, as lições que deles nos aproximam?

“O que os Deuses requerem de nós?”

Então nosso objetivo é retornar aos Ancestrais? É seguir seus caminhos e trazer seu mundo de volta. Não, não é. A Grande Canção só segue em uma direção, e não é para trás. Imagino que não é motivo de orgulho para os Ancestrais que aqueles que se lembram de seus caminhos hoje sejam suas cópias. A beleza da natureza está na diversidade. Mesmo árvores da mesma espécie nunca são iguais às outras. Aprender com os Ancestrais não quer dizer copiá-los. Podemos, inclusive, aprender com seus erros (e reconhecer que cometeram erros). E sementes de uma árvore ainda precisarão se adaptar ao seu próprio terreno. Uma árvore pode crescer ao lado de uma pedra, um dos seus frutos que caia ao lado terá que levar essa pedra em consideração antes de se tornar uma nova árvore, podendo ser tão bela quanto a sua “mãe”.

“O que os Deuses requerem de nós?”

Do cume das árvores caem folhas, galhos, frutos. Folhas e galhos alimentarão o solo, tornando-o mais rico e fértil. Na natureza, nada é perdido. Quando nos perguntamos “o que os Deuses requerem de nós?”, na maioria das vezes estaremos fazendo o mesmo. Adubando o solo, buscando as orientações para as nossas dúvidas de agora. Mas ainda precisaremos repetir essa pergunta mais e mais vezes. Quando buscamos a transformação dentro de nós, contudo, tentando nos transformar em pessoas melhores através daquilo que os Antigos nos legaram em ensinamento, não damos origem a folhas apenas. Damos origem a frutos. E estes alimentarão não apenas um, mas dois, talvez três dos Reinos. Podem alimentar animais terrestres, nutrindo a Terra, o reino dos espíritos da natureza, as fadas e Sídhe. Podem alimentar os pássaros, emissários do reino do Céu, morada dos Deuses Celestes. E as sementes que serão deixadas nutrirão o reino abaixo, mas podendo gerar uma nova árvore. Ao ser abençoados pelos Três Reinos, utilizando-nos do aprendizado para a nossa própria transformação enquanto indivíduos, fortalecemos o Nemeton. E através das raízes dessa nova árvore, tornamo-nos os próprios Ancestrais, aqueles que poderão servir de inspiração no futuro.

“O que os Deuses requerem de nós?”

A pergunta provavelmente nunca deixará de ser feita. Sempre buscaremos essa resposta. Em muitos momentos, precisaremos realmente de folhas, que fertilizem o nosso solo e permitam o nosso crescimento como parte da árvore. Mas se buscarmos ir mais fundo nas raízes, e através dela trazermos as mudanças apropriadas para o terreno em que vivemos, nossa terra e nosso tempo, mudanças reais sobre quem somos e sobre como atuamos no mundo, podemos brotar como sementes em uma nova árvore.

Ele se levantou. Agradeceu a árvore e ao Nemeton pela lição. Ele sabia que em breve o questionamento retornaria. Mas naquele momento ele acreditava saber o que os Deuses requeriam dele.

 

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22405632_10213879239958723_4028262480933991077_nWallace William de Sousa, é professor, tradutor e escritor. Druida, fundador da Ordem Druídica Ramo de Carvalho e um dos fundadores do Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Céltico. Anda pelos caminhos da espiritualidade céltica desde os dezoito anos, desenvolvendo um trabalho que é baseado em fontes sólidas sobre o mundo antigo, mas sem nunca negar o papel da Inspiração e do aprendizado próprio para o estabelecimento do Druidismo no mundo moderno. Foi um dos laureados com a 1ª Honraria ao Mérito Pagão, no dia 30 de Outubro de 2017.
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