Encontro com Brighid

por Máh Búadach Ingen Ecnai

O cheiro da Mata Atlântica é exuberante e pungente, como meu cheiro de mulher. Nua, caminhando pela floresta, reconheço nela diversas características minhas: o emaranhado dos cipós e galhos, o mormaço quente e a umidade que evapora no ar a medida que adentro a mata escura. Ela é orgulhosa das sensações que causa e oprimem os sentidos dos mais inocentes, revelando toda sua exuberância somente numa relação de confiança e troca.

É preciso dar para receber.

O substrato de folhas e terra molhada por onde caminho vai se abrindo e mostrando a trilha por entre as árvores, onde devo seguir. Eu e ela somos uma, e não há qualquer estranhamento de minha parte por estar ali ou da floresta por ter uma mulher andando por ela. Somos natureza selvagem e nos reconhecemos.

A trilha me leva a uma clareira onde arde uma grande fogueira sobre um altar de pedra. Me aproximo do fogo e vejo Brigid dentro dele. Sua mão é labareda viva e quando toca meu coração, eu ardo – o corpo todo em chamas – de amor pela vida. O fogo sagrado que queima dentro de nós foi o presente dela pra mim e eu danço ao redor do altar.

Mulheres chegam aos poucos, recebendo suas bênçãos. Tão logo somos muitas que dançam entregues ao êxtase. Não nos reconhecemos mais como boas moças da sociedade, profissionais ou mães guerreiras.

Somos fêmeas, animais. Somos instinto, ritmo, sons e cheiros. Somos feiticeiras.

Somos sangue que grita: VIDA!

Somos clarão de luz do amanhecer, somos fogo do sol!

Somos luz!

Aos poucos vamos nos separamos. Voltamos á mata escura. A separação dói um pouco quando olhamos umas para as outras, mas nesse mesmo olhar vemos o fogo ardente e a missão de espalhá-lo.

Ofereço a Brigid o tesouro mais bem guardado dentro de mim: meus medos.

Entro na mata e me deito sobre a terra.

Sou livre de novo. Sou nova.

Sou semente.

 

Este conto foi baseado na minha vivência com Brigid durante a Ciranda das Deusas Celtas facilitada por Mayra Faro.

Brigid é provavelmente a deusa celta mais conhecida, inclusive acredita-se que seu culto sobreviveu ao cristianismo ao converter-se a ele, Santa Brígida da Irlanda seria o sincretismo cristão de uma deusa pagã. Seu mito conta que no dia que nasceu um clarão tão forte irrompeu da casa onde estava que parecia que haviam dois sóis no céu, um a leste e outro a oeste.

 

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29547697_202903166970112_317694771_nMáh Búadach Ingen Ecnai foi o nome que recebi de meu pai quando iniciei aos 17 anos meus estudos sobre espiritualidades da terra. Passando pela bruxaria e o druidismo, hoje pesquiso sobre sagrado feminino. Escrevo para o blog  www.olivrodebuadach.wordpress.com e agora na coluna Dançando Minha Lua, do Bosque Ancestral.

 

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