As Mouras: Soberania na Ibéria Celta

por Karla Alves Barbosa

Parto do pressuposto que o ser soberano é aquele que buscou conhecer profundamente suas claridades e escuridões. Esta é uma busca constante e o buscar por si só já é soberano. O ser conhecedor de si sabe suas limitações e até onde pode levar sua palavra.

Com essa premissa, passo a explicar o porquê de, ao meu ver, as lendas das Mouras estão atreladas ao conceito de Soberania.

Mouras são mulheres encantadas do norte da Península Ibérica, especialmente Galícia e Astúrias. Não se sabe quais nomes elas tiveram antes da chegada dos romanos e, posteriormente, dos cristãos e mulçumanos. Sabemos, pela sua localização e características, que são anteriores a eles e sobreviveram à sua chegada. Não podemos afirmar a pureza celta das Mouras, pois algumas de suas características nos lembram a deusa basca Mari. Uma vez que a chegada dos bascos é anterior à dos celtas na Ibéria, não é de se estranhar tal semelhança, bem como o fato de intercâmbio cultural ser muito comum na Antiguidade. Desse modo, a ligação das Mouras a símbolos celtas de entrada ao Outro Mundo, assim como suas lendas ao território galaico, só nos faz ver que, possivelmente, os celtas dessa região mesclaram o seu mito de mulher encantada (sidhe) com algumas características próximas dos povos anteriores.

Depois desses esclarecimentos podemos ir às lendas: as Mouras aparecem para os homens em entradas de cavernas, dolmens (covas funerárias neolíticas) e fontes d’água. Dizem que são mulheres encantadas, presas a aquela localidade, e estão ali esperando ser desencantadas para que possam estar livres do local. Carregam consigo imensos tesouros e aqueles que as encontram, e mostram o seu valor, podem ser seus beneficiários. Elas aparecem pastoreando rebanhos, ou penteando os cabelos ou fiando.

E é na parte do desencantamento e o benefício do tesouro que entramos no conceito de Soberania. Os homens são desafiados por essas mulheres, não podendo simplesmente chegar e tomar à força os bens das Mouras. Essas mulheres, que podem ser lindas jovens, loiras ou ruivas, ou uma bela velha, colocarão a esses homens em testes; seja dando-lhes algo para cuidar (normalmente é um pão que não pode ser comido por ninguém), ou transformando-se em uma imensa serpente, a qual os enlaçará o corpo e eles não deverão sentir medo, ou então assumindo a forma de uma serpente com uma flor na boca, e os homens terão que ter a coragem de colher a flor.

Começando com o mais simples (o cuidar do pão), o homem aqui dá a palavra à Moura que zelará por aquele pão, o qual não será tocado. E como na maioria das lendas o tal não acontece e o homem falha, seja traído por alguém próximo ou por acreditar que só um pedacinho não faria mal. Mas a Moura nota o pedacinho, pois esses pães estão atrelados ao cavalo que a carregará à liberdade, e o pedaço tirado deixará seu cavalo manco. Recordando que, para os celtas, o cavalo é o veículo para a saída e entrada do Outro Mundo. Portanto, o homem que não consegue levar a sua palavra, por não conhecer a si e o que está à sua volta, perde o direito à conquista da Soberania. O tesouro é mais do que uma saída econômica, o tesouro pode lhe dar direito sobre seus próprios bens e passos.

Agora entramos no simbolismo da serpente. Esse animal está associado, no mundo celta galaico, à cura, ao Outro Mundo, ao ciclo da vida-morte, o amor e a sexualidade. É um dos símbolos mais poderosos dentro da cultura galaíca, e não temê-lo é está ligado a ele. As Mouras são a personificação dessas pulsões de vida tão poderosas. Os homens que não as temem, que conquistam com sua coragem o direito das suas bênçãos, tem consigo a Soberania. Conquistar a Soberania parte de não temer a vida e a morte, é estar entregue ao seu ciclo e saber tirar dele o bom proveito. Saber que tudo parte de ter coragem.

Dentro de tudo isso, as Mouras nos mostram que a Soberania só é conquistada com a coragem e entrega plena aos ciclos da vida, conhecendo até onde podemos ir e o que podemos prometer e fazer, sem ignorar o mundo que nos cerca. Seremos totalmente soberanos quando não temermos nos conhecer e vislumbrarmos o todo com clareza.

moura

Fonte Bibliográfica:

HOYOS, Ana Mª Vázquez – Los Posibles Cultos a la Serpiente y los Celtas en la Península Ibérica, p.349. Etnoarqueologia: 2007.

LLINARES, María del Mar – Las Relaciones entre cultura popular y Cultura Oficial: El Ejemplo de la Reina Lupa, p.57- in: Mouras, Ánimas, Demonios – El Imaginario Popular Galego – Madri: Akal Universitária, 1990.

________________  Mouras Versus Hombres: la Imagen de la Mujer en La Cultura Popular, p.137 – in: Mouras, Ánimas, Demonios – El Imaginario Popular Galego – Madri: Akal Universitária,1990.

 

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24550451_1903625499669558_1284226239_nKarla Alves Barbosa. Professora. Vate da Ordem Druídica Ramo de Carvalho, na qual é membro há um pouco mais de 3 anos e estudante de Druidismo há 4. Se dedicou nos últimos 2 anos ao estudo e devoção dos deuses celtas da Península Ibérica. Autora da coluna Na Fogueira Ancestral, que reúne conteúdo histórico, folclórico, religioso e filosófico sobre os Iberos Celtas.

 

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