Descendência Divina

por Mirimom Arcalimon

Geralmente, os mitos pagãos mais comumente correntes sugerem que os humanos são criados pelos deuses. Raras são as exceções disso, mas inúmeras delas estão na África. Claro que as diferentes formas de paganismo praticadas pelas diferentes tribos africanas têm seus mitos criacionistas, mas boa parte deles envolve a participação direta dos deuses na formação dos humanos e suas sociedades.

Os deuses não só criaram a raça humana, eles desceram para ver se a vida humana que eles haviam pensado era boa, e o que precisava ser mudado. Eles se apaixonaram por mulheres mortais e casaram com elas, tiveram enormes famílias, responsáveis por continuar seus cultos quando eles retornaram para o plano divino. Eles não são só os senhores da natureza ao nosso redor, eles são nossos reis, nossos avós, nossos pais, nossos heróis, nossos parentes.

E qual a grande pertinência disso? Bom, a maior parte dos sistemas que adota esse tipo de pensamento também adota dois tipos de pensamentos simples: o homem também é divino, também possui um pedaço dos deuses em si, e por isso somos como somos. Sendo assim, devemos cultuar essa parte de nós mesmos, para nos conhecermos e nos melhorarmos.

E em segundo lugar: se somos descendentes dos deuses, e os deuses merecem ser respeitados e louvados, se eles buscam a satisfação e felicidade, nós também devemos. Devemos lutar para que as situações desfavoráveis tornem-se favoráveis, e devemos lutar contra todas as formas de opressão, e coisas que nos causem sofrimento e dor, porque como descendentes diretos dos deuses, não merecemos menos que o melhor que o mundo tem a oferecer.

Foi justamente esse tipo de pensamento que motivou a Revolução Haitiana, e também trouxe a vitória aos etíopes durante as duas guerras ítalo-etíopes. Apesar da Etiópia ter sido o primeiro país cristão do mundo, as crenças antigas mais fundamentais se fundiram à prática cristã etíope. Eles se consideram o verdadeiro povo de Israel, os escolhidos por Deus, e como tal, jamais se renderiam a potências estrangeiras que não possuem tal descendência tão valiosa.

Essa descendência não é meramente política. Não é só o rei que é descendente dos deuses, e por isso tem direito de governar. Na prática, aliás, boa parte dos monarcas africanos não tem poderes políticos, apenas tradicionais e sacerdotais. Mas sim o rei é o representante central dessa descendência, e por isso cabe a ela mantê-la e realmente fazer com que os portadores da mesma tenham todo o melhor que o mundo oferece, pois não se deve dar menos aos filhos dos deuses.

Um exemplo claro disso é a monarquia daomeana. O Ahonsu, o rei de Agbomeim, capital do antigo Reino do Daomé, título que até hoje existe no Benin, não era só descendente de um deus, e por isso automaticamente merecia o trono. Ele era eleito por um conselho de anciãos, que avaliavam se ele era capaz de honrar essa descendência.

E quando não era capaz, o quando traía essa descendência, nem mesmo o rei poderia se salvar. Segundo a tradição oral de Agbomei, a varíola só se tornou uma epidemia no Daomé quando a corte sugeriu que o culto de Sakpatá, o deus da varíola, fosse banido da capital, quebrando o pacto entre todo o povo de Agbomei e Sakpatá, coisa que só se resolveu depois de um extenso sacrifício, que custou até algumas vidas humanas. Muitos reis e nobres do Daomé morreram de varíola, por esse desrespeito.

E quando todo o povo traía essa descendência, os deuses não viam problema algum em punir um reino inteiro. A mitologia dos Bakongo, de Angola, conta como Nkosi Mukumbi, o deus da guerra, veio pessoalmente cobrar as faltas cometidas pelo povo da terra contra seus próprios ancestrais (seus deuses). O que salvou a humanidade foi o reestabelecimento do pacto com os Mkisi (deuses) e Muxiki (semi-deuses), através de Ndandalunda, a deusa do amor e da lua, que acabou por reinar na terra, pessoalmente, para garantir a continuidade do pacto.

A grande ofensa não foi necessariamente o povo deixar de cultuar os Mkisi, ou colocarem os altares sagrados fora de Agbomei, pura e simplesmente, e sim se esquecer porque esses cultos existiam, e porque os altares estarem lá. Foi esquecerem-se que nesses altares, eles não cultuavam só deuses distantes, na esperança de que a natureza lhes fosse favorável, mas sim também se lembravam de seus ancestrais mais distantes, que eram seus deuses.

Ao desrespeitar a própria história e colocar praticamente os próprios parentes para fora de casa, conseguimos entender que essas pessoas não só atraíram a ira dos deuses, como também deixaram de dar importância a si mesmas, à sua natureza e tradições, que adivinham dos deuses, e a sua própria história, e com isso os deuses os trataram como desconhecidos. Ao esquecerem de sua parentela com os deuses e negarem isso, negaram a principal coisa que os ligava aos deuses, atraindo para si maldição.

Um povo que esquece da própria história, está fadado a repetir os mesmos erros, e nunca mais poder prestigiar suas vitórias. No caso da espiritualidade africanista, esquecer de si mesmo é esquecer dos deuses, e vice versa, da mesma maneira como trair e destratar as divindades é trair e destratar a si mesmo, o que traz a graves consequências, não só por desrespeitar aos senhores do universo e da natureza, mas por esquecerem da máxima: “os descendentes diretos dos deuses não merecem menos do que o melhor que o mundo tem a dar”.

 

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26169359_967821513365044_5833293999519233525_nMirimom Arcalimon. Me defino como um bruxo que busca a experimentação de uma bruxaria africanizada e afrocentrada, baseada principalmente no culto dos Òrísá, da religião Yorubá e Loa, do Vodu, e o estudo das culturas e dos espíritos da África subsaariana. Autor da coluna Concha de Igbin.

 

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