Coiri Filidechta – Os Caldeirões da Poesia

por Dartagnan Abdias

Para os celtas, os Coiri Filidechta (Caldeirões da Poesia) são parte componentes de todas as pessoas, e representam nossa missão terrena e espiritual nesse mundo.

Três são os Caldeirões que nos compõem: Coire Goiriath (o Caldeirão do Aquecimento), Coire Érmai (o Caldeirão do Movimento) e Coire Sois (o Caldeirão da Sabedoria).

Coire Goiriath fica localizado no ventre, ou na barriga, é o caldeirão que serve de receptáculo de Dán (nosso dom, destino, nossa canção ou poesia interior é o Dán que confere Brí ao indivíduo). Graças a esse caldeirão estamos vivos e atuantes. Ele nasce em todos os indivíduos virado para cima e cheio. Mantê-lo cheio e virado é o que nos mantém vivos, por isso está vinculado ao mundo físico e a nossa saúde.

Coire Érmai fica localizado no peito, é o caldeirão que serve de receptáculo para o Brí (nossa essência, nosso vigor, nossa energia). Esse caldeirão está ligado a nossa missão terrena, aos nossos sentimentos, nossas sensações. É aquilo que devemos lidar e aprimorar. Afinal, Brí é um poder inerente que pode ser aprimorado ou atrofiado. Essa caldeirão nasce lateralmente, parcialmente preenchido por Brí. É nossa missão desvirá-lo para a posição correta e enchê-lo totalmente.

Coire Sois fica localizado sobre a cabeça, é o receptáculo de Bua (nossa vitória, mérito, honra, dignidade e sabedoria). Esse caldeirão está ligado a evolução ou aprimoramento que devemos buscar alcançar. Ele representa nossa elevação humana e espiritual, nossa sabedoria muito mais que conhecimento. Bua pode ser ganhado ou perdido de acordo com nossas ações. Esse caldeirão nasce totalmente de cabeça para baixo e vazio, é nossa função desvirá-lo totalmente e enchê-lo.

Antes de aprendermos a trabalhar nossos caldeirões, é preciso entender mais de cada um deles e suas conexões, o lado da mística celta como aponta João Eduardo Schleichuberti em sua palestra no VI EBDRC.

Entendendo os caldeirões e o que eles comportam: Coire Goiriath – receptáculo de Dán e produz Brí; Coire Érmai – receptáculo de Brí (e produz Bua – essa é uma interpretação minha, uma sugestão…); Coire Sois – receptáculo de Bua. Agora precisamos entender mais sobre a mística celta, relacionando os Elementos, os Reinos e os Dúile (nove elementos ou partes indispensáveis a vida humana).

Há Três Reinos no nosso mundo material dentro da cosmologia Celta abriga Três Reinos, que são separados por um véu (ou mundo negro) do Outro Mundo – que também faz parte do nosso, mas não nos é tangível. Esses Reinos são o Céu, acima de nós; a Terra sob os nosso pés; e o Mar (as águas), abaixo e ao nosso redor. Cada um dos Reinos está relacionada as forças que nos moldam e motivam. O Céu é o Ar, a inspiração, a condução das coisas, está relacionado aos Deuses. A Terra é a terra, a solidez e a centralidade, o tangível, o local onde se opera, está relacionada com os sidhe (fadas). O Mar é as águas, a fluidez, as emoções e o meio pelo qual se opera, é o meio termo entre Céu e Terra, está relacionado aos Ancestrais.

Cada um desses reinos se articulam diretamente com os Três Elementos. Nwyfre é o céu (aqui como elemento, não como Reino), representa nossa força vital e nossa consciência. Gwyar é o mar e as águas, representa nossa mudança, nosso movimento. E Calas é a terra, representa nossa forma e estabilidade. Desse modo, o Reino do Céu é lar de Nwyfre, o Reino do Mar é lar de Gwyar e o Reino da Terra é lar de Calas.

Os Dúile são, de acordo com Rowena, “nove elementos ou virtudes essenciais ao homem”. Em seu artigo sobre os Dúile[1], Rowena estabelece a seguinte comparação entre os Dúile e seus correspondentes mágicos[2]:

1°- Cnaimh (Os ossos): estrutura que sustenta o corpo. Para os celtas os ossos continham a magia de uma pessoa. Correspondem à Cloch (pedra).

2°- Colaind (A carne): estrutura que nos dá forma e possibilita a nossa locomoção. Corresponde à Talamh (Terra).

3°- Gruaigh (A pele / cabelo): são como “antenas”, sensores corporais sensíveis ao toque, calor, dor, frio e prazer. Indicadores de saúde e bem-estar. Correspondem às Uaine (árvores e plantas verdes).

4°- Fuil (O sangue): fluido que dá vida ao corpo, é o rio que flui dentro de nós, que nos aquece e reflete nosso estado emocional. Corresponde ao Muir (Mar).

5°- Anal (A respiração / sopro): é a renovação da vida, elemento que promove a limpeza dos sentimentos e o alívio das tensões. Os celtas viam a respiração como o ar que circula no céu. Corresponde ao Gaeth (vento).

6°- Imradud (A mente): é a responsável pela sabedoria do homem, são como as ondas alfas da mente que controlam a natureza ondulatória do pensamento. Corresponde à Ghealach (Lua), que controla os ciclos das marés.

7°- Drech (A face / rosto): responsável por expressar a personalidade e como o mundo as percebe. A coragem, a reputação, a palavra e a honra eram demonstradas visualmente pelos bardos, através da poesia. Corresponde ao Grian (Sol).

8°- Menma (O cérebro): funciona como um computador, responsável por armazenar pensamentos e memórias, o organizador da nossa capacidade mental. Corresponde à Nel (nuvem).

9°- Ceann (A cabeça): era venerada pelos celtas, que acreditavam ser o lugar onde residia toda a essência da personalidade e o poder pessoal de cada um, geralmente, eram trazidas como troféus de guerra ou conservadas em um local nobre. Corresponde ao Neamh (Céu).

Compreendendo sobre os Caldeirões, os Reinos, os Elementos e os Dúile, podemos seguir a proposta de João Eduardo Schleichuberti e juntar esses elementos numa só mística, como Rowena também já indica em seu já enunciado artigo.

Desse modo, podemos elencar a seguinte relação:

  • Coire Goiriath (Caldeirão do Aquecimento) – Reino da Terra, Calas (terra):
  • Cnaimh – Cloch (Ossos – Pedra)
  • Colaind – Talamh (Carne – Terra)
  • Gruaigh – Uaine (Cabelo – Plantas)

 

  • Coire Érmai (Caldeirão do Movimento) – Reino do Mar, Gwyar (mar):
  • Fuil – Muir (Sangue – Mar)
  • Anal – Gaeth (Sopro – Vento)
  • Imradud – Ghealach (Mente – Lua)

 

  • Coire Sois (Caldeirão da Sabedoria) – Reino do Céu, Nwyfre (céu):
  • Drech – Grian (Rosto – Sol)
  • Menma – Nel (Cérebro – Nuvem)
  • Cean – Neamh (Cabeça – Céu)

 

Ao fazermos essas relações, podemos entender melhor a natureza dos caldeirões. E ao fazê-lo, podemos aprender a trabalha-los.

Coire Goiriath está, portanto, relacionado ao nosso físico primordial, o que nos forma como seres viventes desse mundo. Trabalhamos ele ao mantermos nossos ossos firmes, nossa carne sadia e forte e nosso cabelo e pele saudáveis e atuantes como antenas, como sensores. Ele nos confere nosso dom inicial, nosso poder pessoal, nossa força vital, nosso Dán; e fabrica nosso Brí, nossa energia. Esse caldeirão precisa ser mantido corretamente virado e cheio.

Coire Érmai está relacionado ao nosso lado fluído, mas essencial a vida. Por isso é regido pelas nossas emoções e fala de nossa tarefa nesse mundo. Nos ensina que precisamos nos aprofundar em nossa sensação, em nosso eu interior, nas nossas emoções. Sua indicação como movimento é a ideia da fluidez das coisas. Precisamos manter nossa mente sã, nossas emoções compreendidas e não omitidas, e ter cuidado com o que absorvemos e enviamos. Esse caldeirão precisa ser colocado na posição certa e completado.

Coire Sois está relacionado a nossa meta, nosso objetivo, nossa iluminação, por assim dizer. É a aquisição de sabedoria. Está relacionado com nossas decisões, nossa personalidade, nosso foco. É preciso entendermos mais sobre nós mesmos e desenvolver mais da capacidade que temos em todo o conjunto que chamamos de cabeça. Esse caldeirão precisa ser totalmente desvirado e enchido.

Se Coire Goiriath está relacionado a Terra e a Calas, nos indica que sua manutenção também está relacionada a habilidades desse reino e elemento: solidez, estabilidade. E já nos fala daqueles que podem nos ajudar nisso: os sidhe (as fadas). Aprender com os sidhe que conhecem melhor essa existência do que nós mesmos, é ajudar-nos a manter o Caldeirão do Aquecimento, sempre cheio, pois disso depende o trabalho dos demais caldeirões. Esse caldeirão é repleto de Dán, que é nosso dom, nosso destino e força vital. Aceitar quem somos e nossa missão é parte indispensável para manter Dán produzindo Brí, que encherá o próximo caldeirão.

Já Coire Érmai está relacionado ao Mar e a Gwyar, nos fala que sua manutenção está relacionada ao reino e elemento Mar: fluidez, movimento, emoções. E quem poderia nos ajudar nesse processo são os Ancestrais. Nossos antepassados que deixam conosco uma carga enorme de experiência e aprendizado em vida, que devemos aprender e recorrer a eles para lidar com nossas emoções. Dar voz a experiência e busca-la sempre e também buscar o afeto, o carinho que nos liga com os que já se foram. Contudo, precisamos que Coire Goiriath esteja cheio, e corretamente posicionado para que, com nosso trabalho e desenvolvimento, do Caldeirão do Movimento possa acontecer. É nosso dever desvirar esse caldeirão e preenche-lo com Brí. Enchido com Brí, começar-se-á a produzir Bua, nossa honra, sabedoria e dignidade. Que será indispensável ao próximo caldeirão.

O Coire Sois, por sua vez, está relacionado ao Céu e a Nwyfre, e sua manutenção está relacionado a esse reino e elemento: através da inspiração e condução. Nossos ajudantes nesse processo são os Deuses, que são nossos grandes mestres e mentores, nos inspirando e conduzindo pela vida. Entretanto, para começarmos a trabalhar esse caldeirão, é preciso manter os dois outros alinhados, e totalmente preenchidos por Dán e Brí, para que Bua comece a ser produzido. Mas não adianta apenas produzir Bua, é nossa função ainda antes desvirar totalmente esse caldeirão para que ele possa ser um receptáculo de Bua. A mensagem que nos fica é simples e direta: De que nos adianta honra e sabedoria se não aceitamos quem somos, se não usamos nosso movimento (emoções) em prol de nosso destino e personalidade. Onde colocaremos a honra sem autocontrole e auto aceitação? Por fim, quando os três caldeirões estiverem totalmente desvirados e preenchidos, teremos alcançado nossa evolução e iluminação. Entendido de fato quem somos e compreendido o mundo a que vivemos.

Essa difícil tarefa não é creditada a uma só vida. Os celtas acreditavam que era preciso várias vidas para atingir esse alinhamento final. Contudo, sabemos que podemos buscar manter Coire Goiriath e podemos trabalhar (desvirar e encher) Coire Érmai, para que comecemos a trabalhar e a girar essa engrenagem que alinha todos os Caldeirões. Mas uma coisa há de ser sabida: assim como é possível encher os caldeirões, é possível perder seus conteúdos. Um caldeirão que não é trabalhado ou mantido, pode também voltar a virar cada vez mais de cabeça para baixo. Se isso acontece com Coire Érmai, cairíamos numa situação de depressão. Se isso acontece com Coire Goiriath, minguaríamos nossa vida em doenças ou culminaria em nossa morte física. Já Coire Sois, está totalmente de cabeça para baixo, para nos lembrar que não sabemos absolutamente nada desse mundo sem antes sabermos de nós mesmos.

 

Referências Bibliográficas:

Isarnos, Bellouesus. Dán In Bellodunon [S. I.]. Disponível em: <http://bellodunon.com/2013/03/04/dan/&gt;.

_____________________. Moí Coire Coir Goiriath In Bellodunon [S. I.]. Disponível em: <http://bellodunon.com/category/amergin/&gt;.

_____________________. Muitgheal In Bellodunon [S. I.]. Disponível em: <http://bellodunon.com/2014/04/15/muirgheal/&gt;.

_____________________. Três Caldeirões In Bellodunon [S. I.]. Disponível em: <http://bellodunon.com/2013/03/11/tres-caldeiroes/&gt;.

Endovelicon. A Jornada de Máel Dúin IN Ramo de Carvalho [S. I.]. Disponível em: <http://www.ramodecarvalho.com.br/mitologia/mitologia-gaelica/a-jornada-de-mael-duin/>, acessado em 18 de agosto de 2015.

__________. Usando as Emoções para mover os Caldeirões [palestra] In VI EBDRC. Circulação interna. Curitiba, 2015.

Endovelicon & Seneween, Roweena A. V EBDRC – Aquecendo os Caldeirões In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=163&keywords=Os+Tr%EAs+Caldeir%F5es&gt;.

Schleichuberti, João Eduardo. Elementos Místicos do Druidismo e sua interconexão e uso prático [palestra] In VI EBDRC. Circulação interna. Curitiba, 2015.

Seneween, Rowena A. 2º Dia: Cosmologia In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?

_________________. 4º Dia: Três Reinos In Templo de Avalon [S. I.]. Disponível em: <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=55>.

[1] Seneween. Rowena Arnehoy, 5º dia: Elementos IN Templo de Avalon. Disponível em <http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=56>.

[2] Idem.

* texto baseado nas palestras de Endovelicon e João Eduardo Schleichuberti no VI Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta (VI EBDRC – Curitiba / PR, 2015).

 

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Dartagnan Abdias, natural e residente em Juiz de Fora / MG, é professor, antropólogo (UFJF-2013) e mestre em Ciência da Religião (UFJF-2017). Em sua jornada acadêmica se debruça a estudar os meandros da Bruxaria Moderna. Religiosamente, é pagão desde 2002 e, por confissão, druidista desde 2009, adotando o nome religioso Ávillys d’Avalon, Mundi Tempus. É fundador, sumo sacerdote e druida do Leanaí an Ghealach Clann em Juiz de Fora / MG, e também é membro do Fidnemed an Síd de Jundiaí / SP. Também gerencia a marca Mundi Tempus, na qual divulga seus trabalhos e produtos mágicos, e exerce a função de oraculista, tendo o Ogham (oráculo celta) como seu carro chefe.

 

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