Ervas, bruxaria tradicional inglesa e heathenismo anglo-saxão: um comentário

por Daniel Seaxdēor

Na imagem em destaque: representação de construção de vila anglo-saxã

Apesar do grande destaque dado aos nórdicos na atualidade graças à mídia de massas, os povos germânicos têm um grande acervo cultural fora dos povos comumente chamados de “vikings”, que é apenas seu galho norte. Analisaremos aqui rapidamente aspectos essenciais da cultura pagã dos anglo-saxões, e como eles se entrelaçam com a bruxaria e o ambiente nativo destes povos, e de que forma isso interessa para heathens anglo-saxonistas fora da Inglaterra, e, principalmente, do hemisfério norte, como é o caso do Brasil.

“Anglo-Saxões” é o nome convencionalmente dado aos colonizadores germânicos que se estabeleceram no sul da Grã-Bretanha, a maior ilha do arquipélago que se localiza ao norte do que hoje é a atual França, a partir do século V. Apesar do nome, outros grupos germânicos se estabeleceram na Inglaterra, entre eles os jutos e os frísios, principalmente.

Os jutos e os anglos vieram da região que é a atual Dinamarca, os saxões do norte da atual Alemanha, e os frísios do que é a atual Holanda. Assimilando e dispersando os bretões, e se defendendo dos pictos, ao norte, no que é a atual Escócia, e ao oeste, em Gales, nasceu uma nova região: a Inglaterra, literalmente a Terras dos Anglos.

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Mapa de migrações dos jutos, anglos e saxões para a Inglaterra.

Falar isso não é sem propósito: a religiosidade da Grã-Bretanha antes da conversão dos anglo-saxões era bastante relacionada com aquela dos invasores vikings de alguns séculos depois, e é conhecida da maioria das pessoas nos dias atuais. Os dinamarqueses tinham Óðinn, Frigg e Freyja, Týr, Yngvi Freyr e Þórr, por exemplo, enquanto os anglo-saxões alguns séculos antes tiveram Wóden, Fríg, Tíw, Ingui Fréa e Þunor. Dessa mitologia “superior” pouca coisa restou de conhecido nos dias atuais, o que motivou pessoas como Tolkien a escrever o Senhor dos Anéis para suprir tal ausência.

Além disso eram similares vários conceitos da “baixa” mitologia, essa sim que resistiu muito tempo depois da cristianização, com traços chegando até o começo da modernidade: enquanto os nórdicos tinham o Tomte e o Nisse, os anglo-saxões conheciam os hobs e hobgoblins, todos esses eram nomes de uma criatura, uma espécie de duende guardião, que habitava a casa dos humanos. Os nórdicos tinham os álfar, jǫtnar e dvergar, os anglo-saxões os ylfe, éotenas e os dweorgas, elfos, gigantes e anões.

Mas nem só de deuses similares aos dos dinamarqueses se faziam os anglo-saxões. Como um povo germânico ocidental, assim como os que são da região da atual Alemanha, eles também conheciam, além dos deuses já mencionados em comum com os dinamarqueses, Éostre, a deusa da primavera e do amanhecer, Seaxnéat e Hréðe (Rheda), e os saxões e outros povos do continente conheciam Ôstar ou Ôstara, Sassnot e possivelmente Uureða. Nenhuma dessas divindades possui indícios de terem sido conhecidas dos escandinavos.

Haviam outras diferenças culturais: o calendário nórdico era bastante diferente do anglo-saxão em comemorações, por exemplo, os anglo-saxões celebravam o solstício de primavera com honras à deusa Éostre, enquanto os nórdicos faziam o Sígrblót, o sacrifício da vitória. Além disso, a poesia anglo-saxã coloca grande ênfase no conceito de wyrd, uma espécie de destino impessoal que regula todas as coisas, e os escritos tardios da Escandinávia não refletem a mesma importância para conceitos de destino.

Disso, dá para se ter uma ideia geral de como era a religiosidade anglo-saxã, embora os detalhes quase sempre sejam escassos, e os poucos que temos mostram que eles são importantes. Por exemplo, enquanto Óðinn parece ter sido um deus fortemente ligado à batalha, o que o Wóden britânico também dá sinais de ter sido, todavia, este último também tinha um forte apelo ao conhecimento das ervas: no livro Lacnunga, o qual preserva uma grande quantidade de receitas de medicina popular usados por curandeiros anglo-saxões, encontramos o Encantamento das Nove Ervas, e Wóden, em vez de ter se prendido pelo conhecimento de letras, das runas, o fez para criar Fille e Finule, ervas interpretadas como sendo Tomilho e Erva Doce.

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Funcho, uma das ervas criadas por Wóden, segundo o Encantamento das Nove Ervas.

Além disso, apesar do retrato atual dos anglo-saxões ser como um povo cristianizado e razoavelmente indefeso, cristão e pio, um cordeiro na frente das presas dos invasores vikings, o retrato do cristianismo anglo-saxão, segundo os próprios anglo-saxões, é bem diferente. Wulfstán II ainda no século XI condena o paganismo forte na Inglaterra (embora em parte trazido pelos dinamarqueses); o poema Béowulf retrata sacrifícios a deuses pagãos, e poemas como The Dream of the Rood ecoam o mesmo tom do poema épico saxão continental Heliand, onde Jesus é apresentando como um rei guerreiro (cyning), um herói em batalha, com valores totalmente pagãos e associados à ideia de liderança nobre anglo-saxã. Em O Andarilho e no próprio Béowulf, existem as lamentações sobre a morte da cultura guerreira, associada com a troca de presentes, os salões de hidromel e as tropas de guerra, típicas das sociedades germânicas, que estavam em plena decadência.

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Este poderia ser o Jesus anglo-saxão com seus 12 guerreiros… em oposição ao pobre marceneiro de Nazaré.

Isso não foi um mero recurso literário. O memorável rei do século IX, Ælfréd, o Grande, da casa de Wessex, resistiu fortemente à invasão viking, vencendo e convertendo vários deles, inclusive os dinamarqueses, sob a liderança de Guðrum. Æðelstán, neto de Ælfréd, estabeleceu domínio sobre toda a Inglaterra, expulsando os vikings e pictos, e os valores tipicamente germânicos relacionados à noção de æðel, nobreza, além da organização social tipicamente proveniente de povos guerreiros foram mantidas.

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Estátua em homenagem ao rei Ælfréd na InglaterraEstátua em homenagem ao rei Ælfréd na Inglaterra.

Um nobre título, inclusive, mesmo em tempos cristãos era Ingwine, “amigo de Ingui (Fréa)”, e parece que os anglo-saxões retiveram a memória de se verem como filhos de Ingui, como Tácito chama seus antepassados: Ingaevones. Se os anglo-saxões possuíam essa ligação com Ingui Fréa, e sua contraparte, Freyr, na Escandinávia, nos oferece a imagem de um deus da fertilidade, parece razoável de se supor que, somadas às evidências dos livros de medicina do cristianismo inicial, que invocavam deuses pagãos, com fórmulas altamente paganizadas, rituais que pouco se diferenciaram de feitiços e magia para a Inquisição católica, então esses germânicos na Grã-Bretanha eram um povo altamente associado com a natureza, com uma religião que valorizava muito o culto do natural.

Tudo isso nos oferece uma ideia geral de como funcionava a espiritualidade pagã dos anglo-saxões que revivemos na atualidade. Isso é comprovado por proibições como as Leis do Rei Cnut, que combatiam o culto de fontes, sol, lua, e pedras, por exemplo; por outro lado, as evidências arqueológicas desenterradas provam uma forte evidência de culto aos mortos e ancestrais, todos elementos comuns na maioria das religiões étnicas de que se tem notícia. Todos esses elementos, natureza e suas ervas, ancestrais e guerra, tanto quanto nossas fontes atuais e entendimento podem mostrar, compunham o núcleo do paganismo anglo-saxão, e qualquer pessoa interessada em suas práticas de wiċċecræft (bruxaria), ou como quer que se queira chamar o ofício mágico na Inglaterra, deve levar esses elementos em conta.

Como povos certamente animistas, os anglo-saxões provavelmente viam as ervas e plantas como poderosos espíritos capazes de serem manipulados para o bem ou para o mal, em conjunto com as criaturas sobrenaturais corretas, para problemas como envenenamentos, vermes, roubo de gado e até fertilidade da terra. As ervas tiveram uma função tão importante que boa parte desse conhecimento foi vertido em livros que nos chegaram até os dias atuais, embora ele tenha sido adaptado à cultura cristã que se tornara oficial na época em que foram registrados.

Assim, a religião e o ofício (cræft) na Inglaterra anglo-saxã, embora boa parte tenha permanecido através de práticas contemporâneas, quando analisamos com um olhar reconstrucionista, precisamos ter cuidado de separar aquilo que foi influência tardia, e aquilo que era realmente acreditado pelos anglo-saxões. Embora autores ingleses de bruxaria tradicional atual como Nigel G. Pearson deem um sabor bastante celta ao ofício que chamam como tradicional inglês, creio que se falamos de algo mais próprio ao século V, VI, VII e VIII e o período imediatamente posterior ao cristianismo, encontraremos muito mais os deuses germânicos – como Wóden, no Lacnunga – que o deus cornífero e a sua consorte.

Isso tudo destaca a importância de entender o contexto social da tradição que temos de reviver, até porque uma coisa era essa religião pagã e sua forma de ofício mágico ou bruxaria correspondente, na Idade Média inglesa, outra é ela aqui, no século XXI no Brasil. Nossos eventos naturais são largamente diferentes, nossas ervas são diferentes, nossas estações funcionam em épocas diferentes, temos necessidades ambientais, existenciais e locais diferentes: tente usar o calendário anglo-saxão mostrado por Beda no século VII em conformidade com os eventos sazonais e astronômicos e então se irá encontrar a verdadeira dor de cabeça em tentar reviver um sistema de crenças arcaico nos dias atuais.

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Sem estudar… You shall not pass!

O paganismo anglo-saxão, com boa parte de sua visão de mundo, pode ser revivido bebendo em fontes nórdicas e indo-europeias, com a devida atenção e cuidado para se evitar confusões e falsas induções criadas por similaridades superficiais. Todavia, apesar desse caminho ser belo, dar retorno, e ser agradável, ele está longe de ser simples. A grande questão que fica, não só para anglo-saxonistas, mas para outros pagãos em geral é: apenas com a análise e dedicação, como um Gandalf revirando por informações em antigas bibliotecas em busca de informações sobre coisas perdidas no passado sobre o Um Anel, na narrativa de Tolkien, é que esse passado que tanto nos atrai é capaz de ensinar o que buscamos. E, muitas vezes, para saber se o que buscamos de fato existe onde buscamos, é necessário suspender nossas noções prévias e ideias solidificadas em busca de algo que imaginamos, e deixar o próprios conhecimento dos antigos fluir através de nossas mentes, pelos poucos registros que eles nos deixaram, para poder ser revivido nos dias atuais.

 

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Daniel Seaxdēor é um heathen de tendência anglo-saxã e reconstrucionista, apaixonado por folclore, ervas e plantas, idiomas germânicos, história das palavras e narrativas ancestrais. Idealizador dos projetos Heathenry & Liberdade (anteriormente conhecido como Ásatrú & Liberdade) e Fyrnsidu Brasil, estudante de letras, tradutor e cabra da peste nas horas vagas. Dirige a coluna Seax do Sertão.

 

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