Ògún, a Civilidade Sagrada e o exemplo de como ser e não ser homem

por Mirimom Arcalimon

Ògún é uma divindade muito famosa em todos os cultos afros e em todas as suas formas. Ele é o senhor do ferro e da guerra, como é lembrado em todos eles, mas também é o primeiro caçador, criador das armas de caça, da construção civil, das estradas e de toda a tecnologia humana.

Principalmente aqui na América, e por causa do sincretismo afro-católico, ele se tornou um guerreiro idealista, mas Ògún era violento. Ele é o Senhor da Casa da Morte, que Mata Arrancando Cabeças. E muita gente nega isso, porque acreditam que isso faz de Ògún um deus “mau”, mas o que não percebem é, que conhecendo a divindade, perceberiam que ele já é um exemplo de como ser um bom homem, e de como não ser, além das consequências de não ser.

Ògún descobriu o ferro e os demais metais, introduzindo-os na sociedade. Assim o povo yorubá deixou de usar pedras e ossos como ferramenta. Com isso, poderia modelar melhor o barro e a pedra, fazendo tijolos mais resistentes e casas mais resistentes. Mas Ògún também era um dos fatores de um relacionamento incestuoso, pelo qual ele foi condenado a sempre ter que trabalhar, e nunca poder descansar.

Ògún tinha péssimas experiências amorosas, o que o levou a ser um marido abusivo. E por isso, ele era sozinho, muitas lendas sugerem inclusive que sanava a solidão bebendo. Mas também foi um grande rei e patriarca, motivo pelo qual ele é louvado até hoje, na África, por aqueles que são seus descendentes diretos.

Ele criou as primeiras estradas do mundo, para guiar as pessoas. Mas as lendas também transparecem alguém que lidava mal com emoções negativas, e as sanava de maneira pior, o que causava-lhe mais danos. Ògún era de poucos amigos, e de menos amores ainda.

Ele foi rei, e conquistou muitas terras, mas por falta de controle, feriu o próprio povo, e os próprios netos. Nenhum pai, nem avô, deveria ter feito isso, e o próprio Ògún se puniu por isso, deixando de viver na terra. Por determinação do próprio Ògún, seu alto-sacerdote, na África, possui uma “ordem de restrição” iniciática em relação à família real de Ifé, para evitar outro acidente do tipo.

Ògún é extremamente másculo e viril, e com sua história, deixa aos homens de todo mundo e de todas as gerações um exemplo do que ser: um bom líder, criativo, inventivo, respeitoso, corajoso, não conformado com situações desagradáveis. Mas ele também deixa um claro exemplo de quais são os maiores pecados da masculinidade tóxica: violência excessiva, inconsequência, arrogância, vício, comportamento e índole abusiva. E mais do que isso, ele deixa claro que nem os deuses podem escapar das consequências disso, quanto mais os homens comuns.

Ògún ensina a ser sim, comedido, justo, controlado e calmo, ao mostrar justamente o que acontece quando não se é. É como pai que diz “olha, não faz isso, eu fiz e olha no que deu”. É um veterano, que vem ensinar à população masculina como ser venerável e ser alguém lembrado há mais de dois mil anos, e como fazer sempre para que sua fama seja a melhor possível.

Ògún traz a civilidade e o avanço como algo sagrado, mas não só o tecnológico, como o social. Ele traz a ideia de que a civilização humana precisa caminhar para o melhor de si, ou vai acontecer uma imensa carnificina, ou pior. E isso principalmente aos homens, já que Ele é um modelo de masculinidade, e é um deus de culto proeminentemente voltado à figura masculina. Em tempos como esses que vivemos, é bom lembrar da história de Ògún.

Ògún Ye, Ògún De, à gbí gá(Ògún vive, Ògún chegou, nós por isso estamos felizes)

 

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26169359_967821513365044_5833293999519233525_nMirimom Arcalimon. Me defino como um bruxo que busca a experimentação de uma bruxaria africanizada e afrocentrada, baseada principalmente no culto dos Òrísá, da religião Yorubá e Loa, do Vodu, e o estudo das culturas e dos espíritos da África subsaariana. Autor da coluna Concha de Igbin.

 

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