Encontro com Cailleach

por Máh Búadach Ingen Ecnai

Tenho medo.

Não estou aterrorizada porque fui eu que escolhi vir, mas as rochas no caminho são mais altas e afiadas do que eu imaginei e o vento fustigando meu cabelo é mais agressivo, frio e cortante do que eu esperava. A trilha que uso para subir a montanha parece uma fenda escavada na rocha por alguma garra ancestral e sobrenaturalmente gigante. Como se esse cenário não fosse o suficiente para arrepiar minha espinha, o céu cinza chumbo ameaçando uma tempestade me lembra que de todo modo eu não vou sair viva daqui, pelo menos não inteira.

Subo o difícil caminho pela trilha num passo lento, pesado e arrastado, me cortando nas beiradas afiadas das pedras, escorregando no musgo fino sobre elas. Chegar ao topo é um trabalho difícil, doloroso porém inevitável. Tudo na vida tem começo, meio e fim.

No cume da montanha, as interpéries são ainda mais fortes e agressivas e é lá que eu avisto o lugar que eu procurava: A casa dos Ossos.

Uma fortaleza construída com os ossos de todos os seres vivos durante todas as eras.

As enormes presas de mamute são os únicos que reconheço e demarcam justamente o portal para o interior da casa.

Peço licença, entro e espero em silêncio, de cabeça baixa em respeito a ela, a dona da casa: a Morte.

Caileach se aproxima de mim devagar, pega no meu queixo e levanta minha cabeça para que eu a veja. O choque dela estar tão perto só é menor que o medo de ser devorada pela onça negra com a boca ensaguentada que está a minha frente.

Seu corpo é de mulher madura, não de jovem, nem de anciã e ela veste uma túnica preta desgastada pelo tempo, pelo vento, ou pela selvageria, eu não sei dizer. Sua cabeça escura, um onça sombria, com olhos cor de mel estão fixos em mim, mas eu só consigo olhar para baixo em direção a suas mãos, as garras afiadas manchadas de sangue fresco, sujando o chão com as gotas que escorrem.

Ela não precisa perguntar o que eu vim fazer. Eu não preciso dar permissão a ela. Eu entrei em sua casa. Eu escolhi ir até ela. Eu escolhi morrer.

Ela se move na minha direção como um predador dando o bote e eu só tenho tempo de fechar os olhos enquanto ela rasga minha carne com suas unhas poderosas. Ela corta e arranca tudo que deve morrer, tudo que eu não sou, tudo que eu fui. O chão está completamente ensaguentado e eu desabo sob o peso de meu próprio passado.

Mas ao tocar com o corpo no chão, me percebo estranhamente mais leve. Procuro por Caileach e a vejo jogando os pedaços que ela arrancou de mim num precípicio:

para que eu nunca mais os encontre.

Ela volta e me dá a mão para me levantar, me sinto leve, limpa e luminosa.

Faço uma profunda reverência a ela, colocando a testa no chão aos seus pés, expondo minha nuca. Ofereço a ela o que há de mais antigo em mim: meus cabelos, a herança de minhas ancestrais. Ela puxa uma faca afiada e corta uma mecha, prendendo em seguida a sua cintura.

Ela me levanta, me dá um olhar amoroso e se despede.

Eu volto renovada, enfim renascida.

 

Esse conto foi baseado na minha vivência com Caileach durante a Ciranda das Deusas Celtas facilitada por Mayra Faro.

Caileach é uma deusa ancestral cultuada na Irlanda e na Escócia. Associada ao inverno, ao frio e a morte, é uma deusa da soberania da terra, e possui diversas montanhas e rochas associadas a ela.

Numa de suas lendas, um pastor vai a sua casa e pergunta sua idade, ela lhe pede que vá ao sotão e conte os ossos que achar lá, são os ossos de seus ex maridos, assim ele vai saber a sua idade. O pastor começa a contar dezenas, centenas, milhares de ossos… até que desiste sem chegar a uma conclusão.

 

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29547697_202903166970112_317694771_nMáh Búadach Ingen Ecnai foi o nome que recebi de meu pai quando iniciei aos 17 anos meus estudos sobre espiritualidades da terra. Passando pela bruxaria e o druidismo, hoje pesquiso sobre sagrado feminino. Escrevo para o blog  www.olivrodebuadach.wordpress.com e agora na coluna Dançando Minha Lua, do Bosque Ancestral.

 

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