Caminhos do Paganismo além do Sacerdócio

por Gael Dillon

Traduzido do artigo de John Beckett em patheos.com:

http://www.patheos.com/blogs/johnbeckett/2017/09/pagan-sacred-callings.html

 

Em meu último post sobre Politeísmo Intermediário, me referi a ouvir aos Deuses no sentido de ouvir o Seu chamado, aquilo que Eles pedem que você faça. Esse chamado pode – ou não – incluir o sacerdócio.

O sacerdócio é um conjunto de deveres e compromissos específicos, e frequentemente é bem diferente do que padres católicos e ministros protestantes fazem. Há muitas formas de servir aos Deuses – sacerdócio é apenas mais uma.

Em 2014 escrevi um post razoavelmente longo intitulado Priesthood – A Modern Pagan View (tradução livre: Sacerdócio – Uma Visão Pagã Moderna), que é o resumo de um ensaio mais longo que escrevi como parte do meu treinamento de ordenação. Nele, listei diversas coisas que sacerdotes fazem, porém agrupei-as em três categorias principais: servir aos Deuses, ser um mediador para os Deuses e servir à comunidade. Esse post fala por si mesmo, e recomendo que você o leia. Farei uma breve citação e seguirei em frente.

Sacerdócio é ao mesmo tempo um papel e um relacionamento. Um sacerdote é alguém que serve aos Deuses, mas nem todos os que servem aos Deuses são sacerdotes. O sacerdote tem uma relação estreita com uma ou mais divindades, mas ter um patrono não faz de você um sacerdote. Esse relacionamento geralmente é formal e envolve juramentos e contratos, e às vezes ordenações ou iniciações, porém eu marco o início do meu sacerdócio a partir de quando recebi este chamado, e não a partir de quando fiz algum juramento aos Deuses.

Se você quiser traçar um limite entre o trabalho sacerdotal e o trabalho não sacerdotal, concentre-se no relacionamento, não no papel. Meu trabalho com Cernunnos é praticamente indistinguível do meu trabalho com A Morrigan. Entretanto, meu juramento a Cernunnos é o juramento sacerdotal, e meu juramento à Morrigan não. Eu não sou sacerdote Dela e nunca serei – e estou perfeitamente bem com isso.

Já ouvi várias pessoas dizerem que o título de sacerdote deve ser conferido a você, seja por sua tradição ou por um Deus em particular – não é algo que você possa reivindicar por si mesmo. Acho que é uma boa maneira encarar isso.

 

Atividades comumente associadas ao sacerdócio

Servir aos Deuses. Certa vez, um pastor metodista me disse: ” servindo às pessoas eu sirvo a Deus”. Para os antigos politeístas – especialmente na região do Mediterrâneo – essa afirmação poderia ser invertida. Através do serviço aos Deuses, eles serviam às pessoas. Os sacerdotes faziam oferendas e sacrifícios, cuidavam dos templos e santuários e realizavam rituais sagrados. Fazendo o que deve ser feito, eles asseguravam as bênçãos dos Deuses sobre seu povo.

Por que os Deuses precisam ou desejam rituais e sacrifícios é uma boa pergunta (Isso tudo é para eles? É para nós? Para ambos? Para alguma outra coisa?), porém os politeísmos antigos e modernos deixam claro – há coisas que os Deuses querem de nós.

A devoção não é uma atividade exclusivamente sacerdotal. Eu diria que é de fato um requisito para que alguém considerar-se um politeísta. Mas esta é uma atividade na qual um sacerdote deve ser um especialista, tanto de estudo e treinamento quanto de prática.

Líder ritual. Ritos diários, ritos sazonais, ritos especiais… Algumas tradições exigem que certos rituais sejam realizados apenas por sacerdotes, mas em geral, qualquer um pode conduzir um ritual de Samhain. Porém, novamente, um sacerdote deve ser um especialista nisso – em estudo, treinamento e prática.

 

Oficiante. Casamentos, funerais, iniciações, ritos de passagem… Parte disse pensamento vem da perspectiva cristã, na qual se espera que um padre ou ministro oficie tais cerimônias. Nossos ancestrais nem sempre faziam assim – algumas ocasiões eram assuntos de família, enquanto outras eram atividades cívicas. Mesmo assim, estas são coisas para as quais sacerdotes podem ser requisitados.

 

Oráculo. Um oráculo atua como a voz dos Deuses, transmitindo mensagens enviadas através de presságios, ferramentas e métodos de divinação e comunicação direta. A validade de uma mensagem oracular cabe àqueles que a ouvem. Discernimento sempre é necessário, porém ignorar os avisos de um oráculo é por sua conta e risco.

Em tempos antigos, ser um oráculo era um papel à parte, que às vezes servido ou auxiliado por sacerdotes. Talvez um dia tenhamos recursos suficientes para manter oráculos em tempo integral novamente.

 

Oficiante de Sacrifícios. Se sua tradição exige sacrifício de animais, alguém deve ser treinado para fazê-lo corretamente. Um animal que não morra uma morte rápida e limpa não é um sacrifício aceitável. O sacrifício de animais é raro no politeísmo contemporâneo, e não são necessárias habilidades especiais para sacrificar alimentos, bebidas e objetos valiosos. Mas onde há essa prática, esta é quase sempre uma atividade sacerdotal.

Conselheiro. Este é outro resquício do cristianismo contemporâneo. Nos tempos antigos, quando se precisava de conselho, procurava-se um filósofo ou um sábio. Mas a maioria dos pagãos e politeístas espera que nossos sacerdotes tenham as mesmas habilidades que os padres e pastores cristãos, mesmo que poucos de nós tenham um treinamento formal. Fico feliz em fornecer aconselhamento religioso, mas se alguém precisar de um profissional de saúde mental (ou de qualquer outro), eu tenho de me distanciar.

Nenhuma destas atividades é restrita aos sacerdotes, e você não se torna um sacerdote apenas por fazê-las! Mas são coisas que muitos fazem, ou se espera que sejam capazes de fazer.

Há também outras atividades que, mesmo que sacerdotes possam executar, geralmente são feitas por leigos.

 

Atividades não sacerdotais

Serviço comunitário e ativismo político. Já vi várias pesquisas que mostram que muitas pessoas querem fazer parte de uma organização que faça serviço comunitário e ativismo político. Infelizmente, a maioria dessas pessoas não está procurando um lugar onde elas possam servir, elas procuram um onde outras pessoas já façam isso, para que possam dizer “veja o que meu templo está fazendo”. Pagãos não são muito diferentes.

Construir um mundo melhor e mais justo, aqui e agora, não é responsabilidade de um especialista religioso. Serviço e ativismo são trabalhos sagrados, mas são responsabilidade de todos.

Pesquisa acadêmica. Para uma religião – ou grupo de religiões – com tanta ênfase em história e folclore, a pesquisa em história, antropologia, arqueologia e literatura também é um trabalho sagrado. Se você tem habilidades nessas áreas – e especialmente se você tem formação e diplomas na mesma – pode ser que algum Deus o chame para aplicar esses conhecimentos em prol de nossas comunidades.
Ofício bárdico. Envolve cantar e compor músicas, contar histórias, escrever ficção e não-ficção. Conhecer as artes antigas é ótimo, e criar novas artes também. Meu trabalho neste blog é parte do meu chamado – uma parte que não tem nada a ver com o sacerdócio.

 

Trabalho teológico e filosófico. O trabalho de filosofia do Dr. Brendan Myers é uma grande contribuição para a nossa comunidade. Assim como o trabalho do Dr. Edward Butler – alguns deles de filosofia, outros de teologia. Eu não acredito que nenhuns desses acadêmicos se considerem sacerdotes. Nós não devemos deixar a filosofia apenas para os secularistas ou teologia apenas para os monoteístas – este é mais um trabalho sagrado.

 

Networking, construção de relacionamento, de instalações e manutenção. Alguém tem que fazer todas as coisas mundanas que são necessárias para se construir e manter uma comunidade. Escrever um ritual e organizar um evento público são duas atividades completamente diferentes. Se este é o seu talento, coloque-o em prática.

 

Prover apoio emocional e financeiro para quem faz tudo isso. O que você sabe fazer de melhor? Se o que você faz de melhor é ganhar dinheiro, talvez seu chamado seja ser o apoiador de um templo, um santuário ou algum outro projeto. Você não tem tanto dinheiro? Então que escritor, artista ou sacerdote você pode apoiar com $10 por mês em sua conta do Patreon? Dinheiro não é bom nem ruim por si só – tudo depende de como ele será usado.

 

Qual é o seu Chamado?

À medida que você não for mais um iniciante, é provável que você receba um chamado – um chamado para fazer algo. Este post lista muitas das coisas que politeístas são frequentemente chamados a fazer, mas não é de forma alguma uma exclusividade.

O fato de você ser chamado a fazer algo por e para um Deus não faz dessa tarefa um sacerdócio, e não faz de você um sacerdote. Muitos têm a impressão de que devoção regular a um Deus faz de você Seu sacerdote. Na verdade não – isso faz de você um devoto. Ser um devoto é maravilhoso, e não deve ser considerado algo inferior a ser um sacerdote. É apenas diferente, envolvendo obrigações e compromissos de outro tipo.

Ouça o que você está sendo chamado a fazer. Em seguida, faça o melhor que puder, seja envolvendo o sacerdócio ou não.

 

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24273378_569548923389721_1058892996_nGael Dillon é designer, ilustrador e tradutor. Politeísta de enfoque celta e nórdico, membro da ordem Ár nDraíocht Féin (ADF) e autor do blog Òran Beo. Esta coluna, de mesmo nome, reúne a versão em português dos mesmos conteúdos publicados no blog, compostos por materiais de estudo, reflexões e aprendizados sobre cultura, valores e a espiritualidade druídica moderna.

 

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