Sagrado Masculino e Paganismo

por Dannyel de Castro

Esse é um tema que vejo como muito pouco abordado e até mesmo explorado. Sei que no universo dos caminhos pagãos ou neopagãos no Brasil existem alguns grupos que há anos se dedicam ao estudo e aprofundamento do Sagrado Masculino, enquanto em outros casos, como nas espiritualidades de matrizes céltica, germânica, entre outras, o tema não é muito falado, e eu diria até que não é visto com bons olhos. Mas não entendo bem o porquê disso. Em contrapartida, o movimento de despertar dos homens para uma nova forma de ser homem, pautada pelo equilíbrio e não mais pela violência, está avançando na sociedade. Esse movimento não necessariamente fala em espiritualidade, é um movimento mais terapêutico do que religioso propriamente dito. Alguns homens passaram a entender que o sistema vigente em nossa sociedade é totalmente falho na questão dos gêneros, e que por conta disso nós somos expostos a uma série de condutas, regras e formas de se expressar que condizem com aquilo que o patriarcado entende como “homem”; tais fatores são impostos a nós pelo meio social que nos cerca desde quando nascemos (sem exageros!) e causam marcas profundas na nossa psique. O resultado disso é o que vemos diariamente em todos os lugares… homens feridos ferindo uns aos outros, ferindo as mulheres, ferindo a Mãe Terra e os seres que nela habitam. O propósito dos grupos de homens que têm surgido neste movimento é trazer à tona essas marcas internas, essas feridas, e buscar um meio para curá-las, fazendo com que a gente se aproxime de nosso verdadeiro ser, de quem somos de verdade despidos de todas essas máscaras que nos acostumamos a vestir, e assim viver em equilíbrio e trazer este equilíbrio para a forma como nos relacionamos com o mundo à nossa volta.

Uma outra corrente que existe é a de homens que aliam estes elementos à espiritualidade. Aqui não há uma regra, você não precisa necessariamente seguir um conjunto de dogmas religiosos, cultuar esta ou aquela divindade, é um caminho mais intuitivo e que geralmente agrega a bagagem espiritual do homem ou do grupo que o segue. Já vi homens budistas, cristãos, teosofistas, entre outros, seguirem este caminho, mas o foco aqui será o Paganismo, ou melhor, as espiritualidades centradas na Terra. Como trilhar o caminho do Sagrado Masculino sendo um pagão? Sinceramente, não tenho a resposta definitiva para isso, e nem é o objetivo desse texto dar essa resposta – o propósito é simplesmente lançar uma luz sobre o tema. Eu mesmo ainda estou fazendo esse caminho de descoberta.

Ser pagão, para mim, é honrar a Terra, honrar a si mesmo, honrar sua família, seus ancestrais, seus Deuses. No caminho da espiritualidade céltica existe uma máxima que diz: “três são as funções de um druida: curar a si mesmo, curar a sua tribo, curar a Terra”. O caminho de um xamã não é muito diferente. Para ser um sacerdote, um curador e viver em plena sintonia com a Mãe Terra, ele deve inicialmente passar por um árduo processo de cura de si; tal processo iniciático varia de tribo para tribo, mas envolve ritos, vivências e retiros muito profundos, que colocam o aprendiz em contato com diversos perigos e até mesmo com a morte. Bom, nós ocidentais modernos não vivemos a realidade de uma tribo ou clã como a dos indígenas ou celtas antigos, então acredito que o nosso processo de cura seja um pouco diferente. Nós perdemos aquela conexão espontânea com a natureza e seus elementos, vivemos em centros urbanos que são o próprio caos. E no caso, sendo homens, fomos condicionados a aprender as virtudes de uma sociedade completamente doente para que nós sigamos o fluxo do sistema patriarcal e sejamos homens bens sucedidos. Acontece que os valores predominantes associados ao masculino na sociedade são valores perversos: o masculino subjuga, explora, viola, mata. E quem sofre diretamente com isso é o feminino, pois o masculino subjuga, explora, viola e mata as mulheres e a Mãe Terra. Isso pode soar um pouco forte ou exagerado para quem lê… mas basta refletir um pouco para ver que é isso mesmo. Então eu sinto que, sendo esta a nossa realidade, o processo de cura de nós mesmos que devemos empreender, enquanto pagãos e homens, passa totalmente por esse aspecto de ressignificar o que é ser homem, pois nossa visão disso está totalmente contaminada por uma “verdade” que nos é empurrada a todo momento, por todos os cantos.

Acredito que para se curar é preciso se conhecer. É preciso iluminar todos os aspectos que existem dentro de si. É preciso identificar as origens dos nossos problemas e daquelas partes de nós que não gostamos ou que não está fazendo bem às outras pessoas. Tudo bem, mas como fazer isso? Meditando, amigo… Meditação é o caminho. Já está mais do que comprovado que essa é uma técnica que só tem a favorecer o ser humano ocidental moderno ansioso e deprimido. Existem várias formas de meditar e várias meditações guiadas por aí, mesmo em um contexto pagão; algumas são ótimas, outras nem tanto… Meu conselho é começar sem muita pretensão e apenas ir silenciando a mente, deixando que toda a perturbação se afaste e que fique apenas o teu ser. Então te volta para lá, para dentro… E vê o que encontra. Aqui entra a importância dos trabalhos que são desenvolvidos em grupo, pois em círculos de homens é possível compartilhar experiências relacionadas ao autoconhecimento de cada um.

Além de se conhecer, outro ponto inicial que acho muito importante nesse caminho de cura do masculino e que é totalmente compatível com um contexto pagão é a ressignificação que devemos fazer na nossa relação com o feminino. Os homens historicamente têm subjugado o feminino, ferindo profundamente as mulheres, seja de forma física ou psicológica, além de rejeitarem e temerem tudo o que é feminino. Mas, amigo… que espécie de pagãos seremos se nos colocarmos nesta posição em relação à Mãe Terra, que é uma força feminina? Nós devemos honrar essa força feminina, honrar o útero sagrado do qual nós viemos e a própria Gaia (Danu, Pachamama…), mãe de todos nós. Devemos honrar as mulheres a nossa volta, e isso significa escutá-las atenciosamente, buscar compreendê-las e acolhê-las de forma respeitosa. As mulheres estão em profunda conexão com a natureza, pois seus ciclos e os da Terra são semelhantes e em alguns casos sincrônicos. Se estiver aberto e atento, verá que pode aprender muito sobre si e sobre a vida com elas (em minha experiência, tenho observado que as mulheres que também estão na caminhada do autoconhecimento e de conexão com o seu sagrado são quase que oráculos humanos, ao menos para mim). Devemos inclusive reconhecer que essa força feminina existe dentro de nós também, e aprender a lidar com ela de forma saudável.

Bom, esse texto não tem uma conclusão, até porque sinto que esse é um tema em construção, mas que tem muito futuro. Pretendo continuar esta reflexão em textos vindouros. Acredito plenamente em um mundo melhor, e começo fazendo o que está ao meu alcance no momento, que é transformar a mim mesmo. Espero que mais e mais filhos da Terra levantem, mas levantem logo, pois ela já está chamando há um tempinho… Ouça o chamado… 🙂

 

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Dannyel Castro é pai, escritor, educador e pesquisador. Membro do grupo druídico Clann Samaúma. Criador e editor do portal Bosque Ancestral e responsável pela coluna Entre Mundos, que reúne artigos com reflexões, vivências pessoais, estudos sobre espiritualidade celta, textos devocionais, entre outras coisas.

 

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Uma resposta para “Sagrado Masculino e Paganismo”

  1. Lindo texto, linda mensagem. Encarar o nosso interior de forma franca e com genuíno desejo de melhorar, usando ferramentas como a meditação ou tantas outras, é ato muito necessário. Os comprometidos com esse objetivo sabem que não é fácil, mas tem tudo para ser gratificante. E a Mãe Terra, feliz, agradece pois sinto sinceramente que a frequência vibratória advinda desse trabalho de “muitos e muitas” melhora as condições do todo. Vamos lá!

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