Òríșá Oko, um grande exemplo de confiança

por Mirimom Arcalimon

Essa divindade não é muita conhecida no Brasil, mas é extremamente importante e conhecida em outros cultos de Òríșá. Oko é o senhor da agricultura e do labor braçal, sendo Ògún seu melhor amigo e maior aliado. Ele está entre as divindades responsáveis pela criação do mundo, junto de Obatalá. Foi quem fomentou o surgimento de alguns dos elementos principais para a urbanização e o não-nomadismo entre os humanos, como as plantações, as criações de gado, os armazéns de alimento, entre outras coisas.

Ele também é uma divindade da caça e um senhor da magia, sendo detentor de capacidades premonitórias, curadoras e fertilizadoras. Ele é o aspecto masculino da fertilidade do mundo e da terra, sendo seus elementos sagrados mais óbvios um falo de ferro e sêmen. Seus mitos transmitem a importância de ter confiança em si mesmo, e na magia que se pratica, nos deuses que se serve, e no caminho que se segue, e como isso pode sim melhorar a vida do ser humano.

Oko, durante sua passagem na terra, conheceu Ògún, que lhe deu ferramentas de ferro para realizar seu trabalho. Oko seguiu, trabalhando em sua fazenda, nas suas plantações e criações de gado. No entanto, um belo dia, toda sua plantação secou e Oko não conseguiu plantar mais nada. Desesperado e morrendo de fome, ele correu até Orunmilá, o deus da sabedoria e da vidência.

Orunmilá consultou os oráculos, e disse que Oko deveria realizar um trabalho mágico com duzentos búzios. Os búzios eram a moeda corrente da época, na maioria dos países da África Ocidental, então Oko, que estava passando fome, tinha que juntar duzentas moedas para fazer uma magia para deixar na floresta. Na condição dele, isso era meramente impensável.

No entanto, Oko tinha confiança na magia e fez exatamente como Orunmilá disse. Demorou até que ele pudesse juntar tantos búzios, principalmente sem receber dinheiro através de seu trabalho, mas ele conseguiu, e fez o feitiço. Estando muito necessitado de comida, ele aproveitou que estava na floresta e foi caçar, coisa que já não fazia há anos.

Ele abateu um elefante e um leopardo. Quando foi estripa-los, os estômagos dos animais estavam cheios de coral, ouro, búzios, pérolas e outras riquezas. Tanto dinheiro havia dentro daqueles animais, que Oko nunca mais precisou trabalhar. Quando sua fazenda voltou a ser produtiva, ele voltou a trabalhar simplesmente porque gostava da ocupação.

Ele progrediu muito na vida, teve várias esposas, dentre as quais Olokun, Yemojá, Òșún, e Aganá. Pelas suas habilidades, Obatalá pediu que ele lavrasse as terras de seu reino, e ele assim foi fazer. No entanto as pessoas começaram a falar mal de Oko, dizendo que seu sucesso e riqueza advinham somente do trabalho que fazia a Obatalá, não de seu mérito e esforço.

Nesses anos todos que se passaram, Oko estudou magia e adivinhação com Orunmilá, e há muito tempo já fazia seus trabalhos mágicos para manter-se sempre prosperando. Dessa vez, ele consultou seus oráculos para saber como se tornar alguém miticamente memorável, de forma a provar seus méritos e seu poder de uma vez por todas.

O oráculo disse que ele devia fazer um feitiço simples, com alguns elementos em pó e levá-los até uma região muito distante, onde havia uma árvore imensa, sempre verdejante, mas que nunca dava frutos. Assim Oko fez, viajando por meses até o local onde a tal árvore ficava, para deixar o feitiço entre suas raízes.

Depois de chegar ao seu destino, ele não tinha mais provisões para voltar. Por isso, decidiu acampar ali, para trabalhar, juntar comida e depois voltar para casa. Oko lavrou a terra, fazendo ali uma imensa fazenda, com o passar do tempo, cheia de inhames, milho, capim e cabras, enquanto ia juntando provisões para voltar para as terras de Obatalá.

No entanto as pessoas começaram a aparecer naquele lugar, todas incrédulas. Todos tinham medo de Oko, e alguns ainda nutriam inveja dele. Quando ele perguntou às pessoas porque elas achavam tão estranho que ele tivesse uma fazenda, elas responderam que a terra daquele lugar era improdutiva, porque aquela imensa árvore sugava toda a água e coisas boas daquela terra para si.

Oko não só tinha tornado aquela terra seca em extremamente produtiva, como até a árvore, que nunca tinha frutificado, deu frutos sob seus cuidados. Uma pequena comunidade de discípulos se formou ao redor da fazenda de Oko, para aprender com ele a trabalhar a terra, e aprender sua magia. A comunidade cresceu e se tornou a cidade de Irawo, que existe até hoje, na Nigéria, tendo Oko sido o primeiro rei da cidade.

Oko venceu na vida, por sua confiança em sua magia, que ele realizava para sua prosperidade, e em si mesmo, em sua capacidade como fazendeiro, homem e feiticeiro. A sabedoria que podemos absorver dessa parte da vida deste deus é: tenha confiança. Confiança na sua força, na sua capacidade, e na força que te guarnece. Confie na magia, nos deuses, nos antepassados e no que eles trazem, apoie-se nisso para ir sempre para cima.

Às vezes é custoso, às vezes parece que não vai dar certo, às vezes parece que nossas preces não são atendidas. Mas se você, realmente, fizer conforme é aconselhado por Eles, você certamente sairá por cima. Jamais seriamos postos pelos deuses numa situação da qual sejamos completamente incapazes de sair.

Que possamos todos sermos corajosos, confiantes, fortes e prósperos como Bàbá Oko. Àșé ò!

 

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26169359_967821513365044_5833293999519233525_nMirimom Arcalimon. Me defino como um bruxo que busca a experimentação de uma bruxaria africanizada e afrocentrada, baseada principalmente no culto dos Òrísá, da religião Yorubá e Loa, do Vodu, e o estudo das culturas e dos espíritos da África subsaariana. Autor da coluna Concha de Igbin.

 

 

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