Encontro com Blodeuwedd

por Máh Búadach Ingen Ecnai

“Nós somos as mulheres-árvores e esse é o nosso bosque.”

Eu realmente não fazia idéia de como ou por que meus caminhos haviam me levado até ali, mas eu senti no fundo do meu coração que agora eu pisava num solo sagrado. Eu estava incrédula quando as vi! Eram lindas! Completamente diferentes umas das outras: novas e velhas, fortes e robustas, largas ou finas, flexíveis com galhos tortuosos… Cada uma era única e cada uma era um exemplo real da beleza selvagem, calma e natural, que habita dentro de cada mulher.

O perfume de suas flores tinha cheiro de resiliência e a doçura de seus frutos inundava o paladar com o sabor da verdade. Tudo naquele bosque era perfeito. Aquele lugar era o paraíso e era um presente poder estar ali.

Ainda que imóveis, percebi que elas dançavam. Era quase imperceptível, mas se você escutasse a música que a leve brisa criava ao passar entre suas folhas, ou se você olhasse atentamente para a discreta mudança de direção dos raios de sol quando atravessavam os galhos delas, seria possível acompanhar seus passos.

Eu estava inebriada e me perguntava como eu havia chegado ali. Elas eram amorosas e receptivas me inspirando a ser também. Então Ela chegou: A rainha da floresta. Ouvi o farfalhar das penas de suas asas antes de vê-la, surgindo do céu como uma grande coruja e cada mulher a viu do seu modo.

Para a primeira árvore, a grande coruja veio voando e pousou em seus galhos. No alto da copa ela fez seu ninho como se dissesse que ali faria morada para sempre junto daquela mulher.

Para a segunda árvore, a coruja se transformou numa menina sapeca e moleca que começou a fazer uma imensa festa brincando, pulando e dançando entre suas raízes e tronco.

A terceira árvore recebeu a visita de uma mulher nua que veio de fora do bosque e que no instante que tocou seu tronco fez desabrochar mil flores em seus galhos e o perfume que elas exalavam eram o cheiro dos mistérios femininos.

A quarta árvore não conseguia ver a deusa. Ela só enxergava as dificuldades de fazer suas raízes buscarem a água no solo enquanto seus galhos buscavam a luz do sol. Ela se sentia frustrada, então se recolheu para dentro de si. E foi assim que ela viu a rainha brotar de dentro dela e sair pelo seu tronco.

A quinta árvore viu a rainha se deitar recostada nela e sentiu o relaxamento que o sono traz. A rainha dormia eternamente até seu corpo virar adubo e dele brotarem flores aos pés da árvore.

A coruja então veio até mim e eu não entendia porque eu estava vendo os momentos mais íntimos daquelas mulheres-árvores. Eu me sentia uma intrusa que invadiu seu bosque, suas vidas e suas experiências, então perguntei:

– Porque, Blodeuwedd, eu estou aqui? Porque você me mostra e elas me contam essas experiências tão especiais? Eu não mereço estar aqui. Eu não sou nem árvore!”

E assim, a deusa falou:

– Entenda Máh Búadach. Todas essas mulheres poderiam crescer e se desenvolver sozinhas. Mas você foi a jardineira delas. Você cuidou, acolheu, protegeu e ajudou cada uma a se desenvolver. Elas estão te devolvendo tudo isso através de um presente que se chama: Gratidão.

 

Esse conto foi baseado na minha experiência como facilitadora do “Dançando minha lua” roda de  mulheres e rito da lua cheia de maio em honra a deusa Blodeuwedd.

Blodeuwedd é uma deusa presente no Mabinigion, os textos mitológico do País de Gales. Na sua história, ela é criada a partir das flores para ser esposa de Lleu Llaw Gyffes, para se separar dele decide matá-lo e é castigada sendo transformada em coruja.

Revisão por Gabrielle Paschoalin

 

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29547697_202903166970112_317694771_nMáh Búadach Ingen Ecnai foi o nome que recebi de meu pai quando iniciei aos 17 anos meus estudos sobre espiritualidades da terra. Passando pela bruxaria e o druidismo, hoje pesquiso sobre sagrado feminino. Escrevo para o blog  www.olivrodebuadach.wordpress.com e agora na coluna Dançando Minha Lua, do Bosque Ancestral.

 

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