A Nona Carta IV: Sursum Corda

por Llewellyn Mawr

 

Saudações,

Essa carta é um manifesto que começa com um poema galês:

O Sol se ergue no alvor do dia.

A névoa levanta-se do verde prado.

E do trevo do campo levanta o orvalho.

Só eu não sei quando vem a hora

De erguer ao alto meu coração.

 

A estrofe acima remonta o século XVII, um canto bárdico das tradições orais do País de Gales denominado Sursum Corda. A origem desse título vem do latim, tendo tradução por “erguei os corações” ou “corações ao alto”, sendo uma locução utilizada nas missas cristãs pelos monges e padres. A relação desse pequeno poema com o plano sagrado e místico é bem claro para nós. Somente os que não elevam seus corações não podem ver, suponho em minhas conclusões. Além disso, neste trecho canta-se pela procura do momento em que o êxtase virá em pompa e trará a gnose. O seu trovador olha para a natureza ao seu redor, numa manhã qualquer, no momento em que o Sol desponta no horizonte, a névoa caminha por cima dos campos e o trevo se torna um cálice para o orvalho. E então, esse mesmo trovador busca o instante em que seu coração se levantará em tamanha alegria e pulsar que o fará sentir-se extático e em contato pleno com o conhecimento místico.

Êxtase (ékstasis) e Gnose (gnosis) são palavras de origem grega e ambas delimitam um estado de consciência. O êxtase e a gnose são estados alterados de consciência que são obtidos através do transe. O antropólogo Ioan M. Lewis considera como um estado de dissociação mental ou exaltação espiritual que pode ser encontrado em quase todas as religiões, com diferentes interpretações e formas dependendo de aspectos culturais, sociais e históricas. De acordo com Michael Harner, o transe pode ser estimulado através da musicalidade e da dança, apresentando os estudos laboratoriais de Andrew Neher sobre como o som de instrumentos de percussão modificam o comportamento do sistema nervoso, envolvendo a atividade elétrica de áreas sensoriais cerebrais, nos levando a estados mentais elevados. Aos que chegam nesse a esse estado, Michael Harner afirma que estes acreditam que “(…) a natureza está preparada para revelar coisas que não podem ser conhecidas num estado comum de consciência”.

Quero também lembrar das minhas leituras dos textos de Mircea Eliade, um historiador das religiões que estudou profundamente os mitos, rituais e símbolos de diversas culturas e trata esses momentos extáticos como hierofania – manifestação do sagrado. Em explicação simples, para Mircea Eliade o mito representa a cosmogonia, ou seja, a origem de alguma coisa, que quando recriado através de um ritual, também recria a ordem cósmica do mundo. Sendo assim, em práticas modernas politeístas onde usamos mitologias podemos através da sua ritualização – cantos, danças, passos, símbolos, liturgias, entre outros – manifestar a realidade sagrada cosmogônica. Mircea Eliade afirma que o sagrado e o profano são duas modalidades de ser no mundo do homem religioso, que transita entre os dois estados. E também nos diz que “ (…) para aqueles que tem uma experiência religiosa, toda Natureza é suscetível de revelar-se como sacralidade cósmica. O Cosmos, na sua totalidade, pode tornar-se uma hierofania”.

Caros irmãos e irmãs das espiritualidades célticas, eu gostaria de nos fazer uma pergunta: por que fugimos dos estados de êxtase e gnose? Esse é uma questionamento necessário no tempo em que vivemos, onde o mundo foi dessacralizado e por isso o destruímos com tamanha energia para alimentar nosso modus vivendi consumista e capitalista. Eu gostaria de compreender o porquê de tamanho medo aos estados de consciência alterados, se a tradição dos druidas está baseada na “Inspiração Divina”, nos três raios que descem do céu sobre nossas cabeças, simbolizado na Awen e Imbas. Fico a me questionar qual será o receio de compreender a gnose de nossas meditações e vivências numa tradição que diz que é preciso aquietar-se para ouvir a Grande Canção. Será que Amergin não buscou o êxtase para encontrar a gnose dos Caldeirões da Poesia? E será ainda que Taliesin não teve seu transe com as gotas de poesia do caldeirão de Kerridwen? Será que a literatura céltica não está gritando para nós sobre êxtase e gnose ou é ignorância de alguns que não querem ver?

É sabido que alguns integrantes da comunidade druídica e reconstrucionista céltica brasileira resistem aos assuntos que envolvam êxtase e gnose, já que estes defendem com unhas e dentes visões equivocadas, e as vezes permeiam um tradicionalismo fajuto ou academicista. Estão eles muito mais ligados a palavra grega Episteme, ao conhecimento racional e frio, fruto de um mundo totalmente sem sagrado, onde o sentir e contemplar estão sepultados. Chegam a se comportar como ateus, não crendo nas divindades de sua tradição como seres existentes, como se estas fossem apenas vultos poéticos que representam valores, arquétipos e símbolos. E às vezes, de maneira desonrosa, tratam-nas como se fossem objetos. Pior ainda, tratam os seus irmãos com desdém e menosprezam suas práticas.

Quem sabe esse medo do êxtase e da gnose seja como delimita Joseph Campbell: “Medo é a primeira coisa, a coisa que diz ‘eu’”. Ou seja, esse temor está relacionado ao ego, à difícil tarefa de nascer, se colocar no mundo e de olhar para a luz. E para isso eu cito uma clássica tríade céltica:

“Há três velas que iluminam qualquer escuridão: verdade, natureza e conhecimento.”

Não seria essa tríade um caminho, como o de Amergin e Taliesin? A verdade que existe em nós como um fogo que aquece. A natureza que nos leva ao êxtase, a novos estados. O conhecimento como a gnose que borbulhou do caldeirão. Temos que superar esse medo e despertar esse olhar reliogioso/espiritual dentro do Druidismo e Reconstrucionismo Celta, porque se não fizermos isso agora, logo veremos o abandono da espiritualidade céltica (e já está acontecendo) em detrimento de outras tradições onde o êxtase e a gnose são bem mais compreendidas.

Quero compartilhar uma experiência que vivi há poucos dias. No IX EBDRC – Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta, a palestrante e uma das fundadoras do Reconstrucionismo Celta no mundo, Erynn Rowan Laurie disse em roda de conversa que viu com bons olhos aqueles que compartilhavam suas gnoses pessoais, já que eram corajosos nesse cenário de represália. Além disso, Erynn Rowan Laurie afirmou que é importante que as pessoas estejam compartilhando suas gnoses, porque provavelmente é o conhecimento gnóstico que a comunidade precisa para sua cura e que não deve ficar guardado numa caixa. Isso transformou meus olhares sobre os reconstrucionistas célticos, já que muitos deles mancharam o movimento em solo brasileiro com sua forma de pensar muito fechada (fiz questão de expor isso à palestrante). Erynn me convidou a repensar muitas coisas, uma delas é que somos uma comunidade religiosa e o êxtase e a gnose são importantes!

Inclusive entendi que o chamado de Blodeuwedd através da Nona Potência é um tipo de êxtase e gnose. Eu mesmo estou começando a superar o medo que eu tinha acerca do tema. Assumo o mea culpa aqui também, porque também por falta de compreensão das minhas próprias experiências não tinha compreendido as dos outros irmãos. Agora tenho plena certeza que os Florais de Bach, as Danças Circulares e o som de Tambor foram métodos para alterar minha consciência, que me conectaram a força de Blodeuwedd, que canalizou enquanto divindade vários conhecimentos místicos através de meditações, vivências e experiências que se tornaram as gnoses da Nona Potência, apresentada também na nona edição do EBDRC. Hoje posso afirmar que a Nona Potência, enquanto sistema religioso é uma experiência extática e de gnose espiritual relevante para curar-me, curar a minha comunidade e curar a Terra. E quero aqui agradecer a querida Rowena A. Seneween por ser a amiga a me auxiliar a ter melhor percepção disso.

Então eu clamo que você, qualquer que seja sua prática – Druidismo Moderno, Reconstrucionismo Celta, Xamanismo Celta, Espiritualidade Celta – mude seu ponto de vista e fale mais sobre seus momentos e experiências extáticas e de gnoses pessoais do que apenas citar referências bibliográficas. Somos uma religião e cabe-nos falar mais do sagrado do que estruturar textos nas normas da ABNT. Sejamos mais sensíveis, respeitosos e empáticos para com nossos amigos, irmãos de fé e comunidades. Elucidemos sobre estudos diversos na área de antropologia, história, sociologia, literatura, lingüística, etc. acerca dos povos Celtas, mas preze também por autores do meio espiritual céltico e pela intuição que eleva seu coração. Acredito que a maioria das pessoas que são trazidas ou chamadas ao caminho druídico e reconstrucionista céltico não estão interessadas em títulos de doutor, mas em buscar a hora em que vão erguer seus corações ao alto.

Tenho dito!

/|\ Awen

 

Para sua pesquisa:

“O Poder do Mito” – Joseph Campbell

“O Sagrado e o Profano” – Mircea Eliade

“O Caminho do Xamã: um guia de poder e cura” – Michael Harner

“Êxtase Religioso” – Ioan M. Lewis

“A Perfeita Harmonia: poemas celtas da natureza” – José Domingos Morais

“The Cauldron of Poesy” – Erynn Rowan Laurie

 

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26175009_1999937056891154_2043891063_nLlewellyn Mawr é historiador, professor, escritor, focalizador, terapeuta, estudioso das culturas tradicionais, dedicado ao panteão galês e ao Druidismo Moderno, administrador e autor do web-site Nawfed Pwer e organizador-palestrante da Reunião Sazonal Druídica que ocorre na cidade brasileira de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Autor da coluna A Nona Carta.

 

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