Cure a si, cure os seus, e então cure o mundo

por Dartagnan Abdias

Esse texto é um relato pessoal, bastante emotivo, do IX EBDRC, passível de várias outras interpretações e análises. Mas diferente do esperado, não pretenderei aqui relatar as palestras e atividades curriculares, mas me focarei em relatar o acontecimento que sem dúvida marcou essa edição do Programa e que eu analiso como “cura”.

 

  • A cura:
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Clãs, Ordens e Grupos reunidos no IX EBDRC

 

Entre os dias 31 de maio e 03 de junho de 2018, em Guaratiba, no Rio de Janeiro / RJ, aconteceu o IX Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Céltico (EBDRC). O Encontro, que reuniu quinze clãs de espiritualidade céltica do país, esteve em sua nona, caminhando para a décima, edição nasceu de grupos e pessoas do Druidismo e do Reconstrucionismo Céltico que desejavam ultrapassar as barreiras do espaço e se unirem para conhecerem mais de si, e compartilharem momentos dentro de uma fé que está entre as minorias, e que geralmente encontram-se bastante distantes dentro do colosso país em que vivemos.

O Encontro ganhou vida, fomentou a comunidade e chegou a sua nona edição… Mas não é fácil passar por qualquer puberdade e há quem diga que ela começa aos nove…

Tudo começou com chegadas, saudades sendo vencidas, pessoas novas e novos abraços. Um espaço lindo, aconchegante e uma comida realmente de se fartar. As palestras e vivências de um cronograma entusiasmado, cheio e bastante apertado traziam uma gama de conhecimentos e conexões que coroavam toda a ideia do local. E havia a presença de Erynn Rowan Laurie, um dos grandes nomes do Reconstrucionismo Céltico no mundo, um sonho realizado e uma alegria enorme tê-la conosco.

Mas apesar de tudo isso merecer páginas e mais páginas de descrição, pedirei ao leitor para me desviar em direção a outro foco: a cura.

Uma aura de desconfiança, medo e dúvida pairava sutilmente entre conversas e pessoas. Era sutil e se camuflava muito bem na real alegria do que vivíamos naqueles dias, mas a comunidade estava insatisfeita, com demandas, com desabafos, com medos e desconfianças e isso precisava vir à tona. Então, a noite, de sexta-feira dia 01 de junho, depois de minha palestra o Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Céltico (CBDRC), nascido há seis anos como consequência do EBDRC, pediu a fala e a intervenção no cronograma. Eles foram a frente, para se explicarem, para ouvirem e seus quatro representantes no Encontro passaram quatro horas dedicadas à ouvir a comunidade e em recolher e analisar cada pedra a eles lançados.

A comunidade não se via mais em uma “comum unidade”, se sentia rachada, quebrada, acusada de “panelinhas”, de favoritismos, perseguições e segregações. O Conselho, acusado de se calar e permitir que isso acontecesse em suas gestões anteriores. Muita roupa suja foi lavada, muitas lágrimas, muitos corações inflacionados colocando suas mágoas, seus medos para fora. Os representantes do Conselho fizeram algo inédito: deram voz à comunidade, ouviram e acolheram cada pedra, cada mágoa e se feriram muito também… As feridas foram destampadas, e eram profundas. Mas não é assim que a cura começa? E o processo de cura não faz a ferida arder antes de ser cicatrizada?

Uma lua sangrenta, tingida de vermelho, coroava aquela noite, muita coisa foi revelada e a desconfiança a respeito da representatividade do Conselho ficou evidenciada. Sua diretoria foi chamada a se manifestar. Mas sabíamos que aquilo não se resolveria tão fácil, assim, a reunião foi encerrada com cantos e abraços na tentativa de nos mantermos unidos e limpos…

Mais palestras e uma festa se seguiram, mas sabíamos que a energia já não estava mais a mesma… Os membros da diretoria estavam exaustos em seus celulares, fazendo reuniões de emergência na tentativa de dar uma resposta à comunidade o mais rápido possível. Eles precisavam responder: “o conselho é para a comunidade ou para seus filiados?”. O aprendizado e a amizade desfrutada ainda estavam ali, sorrisos, danças foram comuns na festa, mas havia um anseio no ar… E o anseio também não movimenta nosso Caldeirão do Movimento?

Trabalhamos e talhamos as emoções, os medos, as mágoas… Na manhã de domingo a resposta veio! O Conselho reconheceu sua falha, voltou atrás na postura tomada que desencadeara toda esse expurgo interno e íntimo de uma comunidade: a eleição que, feita por e-mail entre grupos filiados, escolhia a nova sede para Brasília e que descumpria uma tradição fundada desde o início do EBDRC (de que essa escolha seria feita na Assembleia da Fogueira no final do Encontro), foi anulada e uma nova eleição seria feita, na qual novas candidaturas seriam aceitas e os grupos filiados poderiam votar, novamente. A comunidade entendeu que tal decisão de modificar a tradição vinha para dar voz aos que estavam ausentes, assim como o Conselho entendeu que sua comunidade sentiu-se traída pela forma com que a alteração transcorreu, e dessa forma, ambos puderam fazer as pazes.

Sob a presença de dois terços dos grupos filiados, a decisão foi aclamada, três novos grupos reconheceram representatividade no Conselho e se filiaram naquele momento. Praticantes solitários e sem representatividade puderam se unir e escolher um representante, tiveram voz. Salvador foi lançada como candidatura concorrente a Brasília, e Salvador tornou-se a próxima anfitriã do EBDRC. Esse momento colocou para fora o restante das emoções contidas: o alívio, a confiança, a reconciliação, a retratação. Abraços antes inimagináveis aconteceram, uma comunidade em lágrimas se uniu e a cura começou a trabalhar…

Claro que a cura é lenta, o Sabugueiro (Ruis / Elder) nunca age rapidamente. As reverberações do que aconteceu entre os que estavam ausentes foram bastante acaloradas e ainda divide opiniões. Não há problema! Opiniões diversas trazem diálogos quando colocadas coerentes e respeitosamente. E talvez seja preciso tempo… A cura começou, mas será lenta… Feridas pessoais, feridas tribais foram expostas e “egos”, orgulhos precisaram ser deixados de lado. É momento de seguir como manda nossa cara máxima: “curarmos a nós, curarmos os nossos, e então curar nosso mundo”.

É o nove que se vê! O fim de um ciclo, o início de outro… A jornada após as nove ondas (os nove encontros) de Manannán. Estamos vagando em direção ao desconhecido, ao novo. Desafios se colocarão diante de nós, mas se nos guiarmos na direção certa, talvez possamos chegar as mais belas ilhas do Outro Mundo.

 

  • Aprendizados fora do esperado:

 

Aprendizados diversos puderam ser vistos… Erynn com suas palavras inspiradora chamou nossa atenção ao amor. A comunidade precisa se unir, respeitando suas diferenças, precisa se amar, pois – como ela mesma disse – “lá fora tem muita gente querendo nos matar”, nos calar. Temas polêmicos foram debatidos, tabus foram pontuados… A incorporação, canalização, possessão é sim possível no Reconstrucionismo Céltico, segundo a Erynn, que relatou ter inclusive incorporado parcialmente Oghma na construção de seu set de Ogham. Mas precisa ser feita com respeito, cuidado e preparo, pois pode ser muito perigosa se não for trabalhada corretamente. De fato não há registros célticos que nos conduzam a essa prática, mas há sociedades, espiritualidades e religiões ao nosso redor e ao redor dos antigos celtas que podem nos apontar a resposta, ou a indicação de um caminho mais seguro para esse trabalho.

Reconstrucionismo Céltico é bem mais amplo do que muitos pensavam, abarcam muito mais coisas e não tem nada a ver com preconceitos, puritanismos e segregações… Muitos grupos presentes estão agora repensando o quanto reconstrucionistas são, relendo textos da tradição e reavaliando seu posicionamento religioso… Mas a comunidade deve ser íntegra e afastar aqueles que não a conduzem ou caminham com hombridade e honradez.

“Amor”, “união”, “irmandade”, “proteção” ecoaram durante os dias do encontro junto com os vários aprendizados sobre o Oran Mór, Bênçãos, Sigilos, Ritos de Passagem, Sagrado Masculino, Sagrado Feminino, Áine, a 9ª potência e os Três Caldeirões da Poesia, a Jornada do Herói, Ellan Vannin, artes da guerra, sobre que os celtas teriam se originado efetivamente do Norte de Portugal (um grande choque aqui), Ogam… Vivências com Manannán, com os Três Caldeirões da Poesia e a 9ª Potência certamente transcenderam nossos corações. Ofinas e competições certamente nos uniram, e a festa nos corou.

Será difícil falar de cada um desses temas, e para isso, deixarei que num futuro próximo os porta-vozes de cada uma dessas atividades falem por si. Afinal, um projeto nascente desse evento é a criação de seus Anais, registrando assim as palestras e os saberes compartilhados para o acesso geral da comunidade e dos interessados.

 

  • Fé renovada:
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Foto de Cris Boldrini

 

Finalizo esse texto cheio de emoção, pois mesmo após semanas do evento, é difícil lembrar dele sem emoções muito intensas… Sinto cura operando lentamente. Talvez alguns discordem, e acho que eles têm seu direito. Mas me dou o dever de falar do que sinto e vejo… Ainda vejo lágrimas em meus olhos, lágrimas aliviadas por ver minha comunidade se limpando, se unindo novamente, lágrimas de esperança, de amor. Ainda relembro a força dos abraços trocados no final – o que também é uma tradição, nenhum dos EBDRCs que fui saímos sem choro, sem abraços, sem sermos tocados de alguma forma muito profunda. Mas esse toque… Esse toque está curando, está unindo e ainda está vibrante em muitos corações.

Tenhamos tempo e fé, pois de um lado, é o Pinheiro / Abeto (Ailm / Silver Fir) que se segue do Sabugueiro, dizendo que as coisas vem com sabedoria, com união, mas vem lentamente… De outro, é o Teixo (Iodhadh / Yew) que seguirá o Sabugueiro, e assim, encontraremos nossa própria essência, nossa transformação e renascimento. Seja qual for o caminho escolhido, as mudanças virão, mas sei que a cura do Sabugueiro muitas vezes nos deixa no chão. Por isso tenhamos tempo e trabalhemos nossa cura, para então curar nossa comunidade.

 

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Dartagnan Abdias é professor, antropólogo e mestre em Ciência da Religião. Em sua jornada acadêmica se debruça a estudar os meandros da Bruxaria Moderna. Religiosamente, é pagão desde 2002 e, por confissão, druidista desde 2009, adotando o nome religioso Ávillys d’Avalon, Mundi Tempus. É fundador, sumo sacerdote e druida do Leanaí an Ghealach Clann em Juiz de Fora/MG, e também é membro do Fidnemed an Síd de Jundiaí/SP. Também gerencia a marca Mundi Tempus, na qual divulga seus trabalhos e produtos mágicos, e exerce a função de oraculista, tendo o Ogham (oráculo celta) como seu carro chefe.

 

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